Moçambique!

Arte, cultura e património da nação moçambicana!

– Playlist Zarpante:

– Conferência Portugal-Moçambique(video)

– HISTÓRIA DA ILHA DE MOÇAMBIQUE RETRATADA NUM LIVRO

– José Craveirinha!

Quatro vídeos de um grande poeta moçambicano! Muitos de nossos amigos e leitores provavelmente não conheçam ainda a obra deste Poeta!

José João Craveirinha (Lourenço Marques, 28 de Maio de 1922 — Maputo, 6 de Fevereiro de 2003) é considerado o poeta maior de Moçambique. Em 1991, tornou-se o primeiro autor africano galardoado com o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa. Como jornalista, colaborou nos periódicos moçambicanos O Brado Africano, Notícias, Tribuna, Notícias da Tarde, Voz de Moçambique, Notícias da Beira, Diário de Moçambique e Voz Africana. Utilizou os seguintes pseudónimos: Mário Vieira, J.C., J. Cravo, José Cravo, Jesuíno Cravo e Abílio Cossa. Foi presidente da Associação Africana na década de 1950. Esteve preso entre 1965 e 1969 por fazer parte de uma célula da 4.ª Região Político-Militar da Frelimo. Primeiro Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, entre 1982 e 1987.

Fonte dos elementos biográficos de José Craveirinha:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Craveirinha

Quero ser Tambor

Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Maputo railway station (Mozambique) and Praça ...

Image via Wikipedia

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

Grito Negro

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

Canto do nosso amor sem fronteira

Estamos juntos.
E moçambicanas mãos nossas
dão-se
e olhamos a paisagem e sorrimos.

Não sabemos de áreas de esterlino
de câmbios
vistos de fronteira
zonas de marco e dólar
portagem do Limpopo
canais de Suez e do Panamá.

Amamo-nos hoje numa praia das Honduras
estamos amanhã sob o céu azul da Birmânia
e na madrugada do dia dos teus anos
despertamos nos braços um do outro
baloiçando na rede da nossa casa na Nicarágua.

José Craveirinha

Image via Wikipedia

Ou
com os olhos incendiados
nos poentes do Mediterrâneo
recordamos as noites mornas da praia da Polana
e a beijos sorvo a tua boca no Senegal
e depois tingimos mutuamente
os lábios com as negras amoras de Jerusalém
ambos entristecidos ao galope dos pés humanos
sem ferraduras mas puxando riquexós.

3- MALANGATANA(1936-2011)

“Malangatana Valente Ngwenya GOIH [1] (6 de Junho de 1936, Matalana, distrito de Marracuene, Moçambique5 de Janeiro de 2011, Matosinhos, Portugal) foi um artista plástico e poeta moçambicano, conhecido internacionalmente pelo seu primeiro nome “Malangatana”, tendo produzido trabalhos em vários suportes e meios, desde desenho, pintura, escultura, cerâmica, murais, poesia e música [2].” Saiba mais no Wiki!

4- A verdadeira Marrabenta (urban music com mais de meio século de origem) atualmente em risco de extinção devido à “limpeza étnica cultural” anti-povo ronga de Maputso

5- Moçambique: CPLP – Língua é fundamental para organização ser “rota de negócios”

“A internacionalização da língua portuguesa é fundamental para o posicionamento da CPLP como “rota dos negócios” no mundo, porque a afinidade linguística diminui os custos dos investimentos, defendeu hoje em Maputo a presidente do Instituto Camões.

Ana Paula Laborinho enfatizou as vantagens económicas da língua portuguesa, ao abordar o tema “Cidadania e Educação”, no âmbito do ciclo de palestras “Dias da Educação e Desenvolvimento”, que integram a Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), que se realiza na sexta-feira.

Segundo a responsável do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, há estudos que demonstram que a comunhão da língua é uma mais-valia na economia das nações, pois reduz os chamados “custos de contexto” nas transações económicas.

“Um estudo sobre o comércio Brasil – Portugal mostrou que se estabeleceu uma rota de negócios entre os dois países propiciada pela comunhão da língua. Ficou também demonstrado que um investimento feito numa língua não comum encarece em cerca de 20 por cento os custos”, afirmou a presidente do Instituto.

Para Ana Laborinho, o conhecimento da língua entre parceiros de negócios traduz-se no domínio das culturas dos agentes económicos gerando mais ganhos nos fluxos económicos, maior desenvolvimento e melhor cidadania.

A uniformização da ortografia portuguesa, através do respetivo Acordo Ortográfico, assinalou a presidente do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, é um passo fundamental na internacionalização do português e na afirmação da CPLP como parceiro económico global.

Por seu turno, o reitor da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), Orlando Quilambo, referiu que a promoção da educação para os povos que integram a CPLP será fundamental para o exercício dos direitos de cidadania e consequente desenvolvimento económico da comunidade.

“A cidadania está ligada à educação. A cidadania não será exercida pelo impulso de regulamentações, leis, livros ou receitas, mas pela promoção de uma vivência que a cultive”, enfatizou Orlando Quilambo.

Nessa perspetiva, a CPLP deve atribuir maior enfoque à educação sobre cidadania, diminuindo as assimetrias dos vários segmentos da população no acesso ao direito universal à educação, disse.

PMA

Lusa” Fonte

6- ILHA DE MOÇAMBIQUE NA ALMA DOS POETAS, de Paulo Pires Teixeira

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Vozpoetas_capaCRÓNICA Por: Jorge Ferrão

Antologia ilustrada de Paulo Pires Teixeira

“Coincidência feliz o lançamento desta antologia sobre a Ilha de Moçambique num momento em que decorre o VII Festival Nacional de Cultura. Nampula possui um vasto e rico mosaico cultural. Nampula é, por excelência, uma região propensa a festividade. Aqui se celebra a vida, a paz e o amor. Ritualizamos as colheitas, as donzelas iniciadas para procriação, o solo e toda fertilidade que geram alimento e sustento, enfim abençoamos o arco e flecha que abatem lebres e cabritos do mato, e gritamos ululu quando a vida se faz vida.

Agradeço o convite para, supostamente, apresentar a obra do amigo Paulo Pires Teixeira. Digo supostamente porque não tenho a pretensão de apresentar a Ilha de Moçambique. Muipithi não carece de apresentações. Igualmente, não acredito que teria competência de fazê-lo. Muiphiti e todo o vasto conjunto de poetas e cantores, com suas almas e tons, dispensam introduções. O argumento que sustenta esta afirmação jaz no facto de nós sermos eternos desconhecidos e mortais. A Ilha é imortal. Afinal ela é património mundial da humanidade.

A obra que de forma antecipada me chegou às mãos revela Muipithi como algo mais e superior a um simples património. Pelas suas águas e terras navegaram e se fixaram diferentes povos e culturas que a usurparam para nela impor novos valores, vozes, culturas, paixões e indumentárias. Muipithi tão próximo do mar e distante da terra ganhou então a estatura de um lugar mítico e reverenciado. Nobreza de arte e talento. Pureza de escrita que flui como o nascer do sol sobre as águas do Indico.

Gratificante rever nesta obra Muipithi desde Cabaceira e suas redondezas, até a Ilha de Goa na melhor de suas profundezas. Releio o fogo que enfeitiça homens e mulheres de diferentes raças e gerações. Retomo a longa jornada de poetas que aculturaram e que nos ensinaram o sentido da palavra amor.

Afinal Muipithi é a essência do feitiço.

Somos todos insulares e buscamos no continente uma identidade num presente que não existe.

Acedi ao convite por pura gentileza e por entender que todos temos responsabilidades partilhadas em relação a Ilha de Moçambique. Creio que todos amantes de literatura deveriam usar a sua arma principal, a palavra, para preserva-la como património. Igualmente, precisamos desmistificar e substituir a imagem da ilha como lugar vulgar e preconceituoso, ou ainda de um simples espaço que agoniza nestes tempos adversos.

Antes de navegar por esse mar que é a obra do Paulo Pires Teixeira gostaria de recordar que, nos últimos anos, a produção literária nacional tem crescido de forma exponencial e excepcional.

Dissipam-se, assim, os debates que colocavam a literatura moçambicana como moribunda e sem rumo. A produção vive momentos extraordinários.

Mesmo diante das carências soberbamente conhecidas. Todos escrevem. Muito se escreve, porém pouco se publica. Quantidade existe de sobra. O que rareia é a qualidade.

Também é verdade. Publicar é ainda um exercício para poucos bolsos. Mais ainda quando o que se escreve nem sempre desperta interesses mercantis.

Porém se o cenário de produção vive um “boom” o mesmo não se pode dizer em relação à crítica literária. A crítica e os críticos quase desapareceram. Sem a crítica faltará o essencial para avaliar o que se tem produzido e os rumos da literatura moçambicana. Ficaremos sem a possibilidade de avaliar o mérito e demérito do muito que se produz.

A Ilha de Moçambique que se propõe nesta antologia, a segunda que tenho o prazer de ler, estudar e desfrutar, privilegia aspectos que um reduzido público conhece ou que teimam permanecer ignoradas. Faço uma rápida comparação com a primeira e verifico que esta obra inclui um conjunto de novos poetas consagrados e outros desconhecidos que, por alguma razão, só mais tarde entenderam desenhar com novas palavras a envelhecida ilha.

Igualmente, me dou conta de que a modernidade confere as palavras e as imagens cores inominadas e que as cartilhas maternais, do meu tempo, não souberam descrever e enumerar.

O aglutinar de vozes e almas dos poetas, nesta circunstância, reacendem a crença de que aquelas ruínas de Muiphiti têm os dias contados. Voltarão a ter vida e cores próprias. Contempladas as belas imagens deste livro revemos uma ilha cujo imaginário se dissocia da imagem real. Mas a obra rebusca e resgata singularidades e monumentos que conferem nossa identidade.

Se por um lado, a cidade de pedra e cal continua demasiado elogiada e mistificada aliás, os vestígios do Império, a arquitectura administrativa e etc. catalisam os conteúdos de muitos dos poemas seleccionados, não podemos ignorar que outros quesitos como as fontes swahili, arábes, chinesas e persas deveriam merecer uma inclusão, ou no mínimo um olhar mais complacente.

Este me parece um reparo fundamental sem pretender, em nenhum momento, desmerecer a beleza da obra e sua relevância. Adoraria, um dia, encontrar poemas em outras antologias de poetas holandeses, árabes, persas e chineses.

Seria bom saber como eles vivenciaram a beleza e historicidade. Quem sabe teríamos visões ou ilusões diferentes das que conhecemos e que, felizmente, ainda temos a capacidade de apalpá-las.

Novas referências dariam para reivindicar uma ilha que pertenceu a todos e que jamais foi apropriada por ninguém. Essa seria a nossa Muipithi endogeneizada e nesta asserção, igualmente aberta até a literatura macua.

Na realidade, onde estão os escritores e poetas macuas que, igualmente, escreveram sobre a sua ilha? Quem os resgata e quem os traduz? Como seria importante ter um ou 10 poemas macuas nesta e noutras antologias.

A antologia do jornalista Paulo Pires Teixeira começa com uma frase interessante do Luís Correia Mendes. “A Ilha de Moçambique é o único local no mundo onde sinto que não tenho nacionalidade”. A Ilha é pequena, mas é de todos. A este sentido de apropriação os insulares reagem com naturalidade.

Aliás, nem é por acaso que o autor afirma que cada poema encerra em si, por si, um fragmento de universo. Ainda bem que assim é, pois nos apropriamos dela e vestimos bandeiras com uma única cor.

Num ano de celebração de cinquentenários, interessante rever essa foto de Samora Machel por baixo de um título que diz “Camões não é só vosso. Camões também é nosso”. Esta frase data de 1983, e acreditem ou não continua tão presente e tão real. Me surpreendeu que, igualmente, o povo português tivesse ficado sensibilizado.

Manuel Alegre, outro poeta, descreve o significado desta frase como a passagem de uma língua de ocupação para uma língua de liberdade de independência e de partilha. Um traço de união.

Revejo Samora na sua plenitude aglutinando todas as almas dos poetas.

De Luís de Camões a Vasco da Gama e Bocage, de Jorge de Sena a Tomas António Gonzaga para aqui deportado, de Rui Knopfli a José Craveirinha poeta-mor.

De Virgílio de Lemos a Alberto de Lacerda, de Luís Carlos Patraquim a Orlando Mendes, Jorge Dias, Calane da Silva, Sónia Magalhães, Ana Mafalda Leite, Eduardo White, Nelson Saúte e tantos outros. Enfim, um sem número de poetas cujos sons sem ruído revelam, então, essa carga espiritual e os sonhos que envolvem a ilha. O fascínio que cada um deles sentiu pela ilha constitui um tributo maior a esse lugar da história da humanidade.

Mas esta nova antologia, agora de almas, inicia com uma justa homenagem a Camões. O primeiro poeta em Moçambique de língua portuguesa. Os dois anos que passou na Ilha devem ter sido uma eternidade física, mas de liberdade moral e intelectual. Sua condição de exilado não teria permitido outros confortos. Depois de Camões muitas letras e estrofes, gentes e retratos, sonhos e povos se entrelaçam para tocar esta porção de terra incrustada no Indico.

Todos os poetas incluindo mais recentes como próprio Paulo Pires Teixeira, reverenciam as inúmeras cumplicidades entre a eternidade de um espaço tão reduzido, aos heróis de seus tempos. O desejo de partir e o secretismo da profundeza de seus mares. O amor e ardor, as igrejas e fortalezas ganham destaque, como também, sobressaem as noites quentes, a salutar convivência entre Cristo e Mahomed, os xeiques e os jesuítas.

Pela obra é fácil verificar como a cidade de pedra e cal se sobrepõe a de macúti.

Mas nem sempre esta mistura se processa de forma linear e tão transparente. Parece ser fácil descrever a cidade de pedra e cal e muito complexo a do macuti. Muito recentemente um conjunto de estudantes decidiu reescrever o percurso arquitectónico da Ilha. No horizonte dos estudantes estrangeiros só era cidade a parte de cal e pedra. Os estudantes locais, ingenuamente, provaram o contrário. Na ilha cidade se faz de outros conceitos. Toda ilha é cidade e campo. Rural e urbano. Então eles pesquisaram a ilha de macúti.

Desmitificaram conceitos. Não encontraram poemas sobre o macúti. Mas eles existem.

Esta antologia tem outros e novos contornos. Mistura temática que não sendo genuinamente poemas auxiliam o entendimento sobre as diferentes fases pelas quais a ilha passou. Material que permaneceu esquecido no silêncio dos arquivos. Fotografias destes e de outros tempos, gravuras, mapas e plantas. Seria, então, uma espécie de cronologia dos restauros e um resumo dos principais edifícios e monumentos. Até fotos interessantes do macúti.

O livro Ilha de Moçambique na alma dos poetas, de Paulo Pires Teixeira quemesmo não sendo de história pura ou deresgate de suas diferentes fases,transporta consigo importantes aspectosde historicidade e memórias, de umpesquisador descomprometido com essa  visão adúltera ou puramente romancista,para nos oferecer uma síntese da nossamoçambicanidade enriquecida pelosuporte fotográfico e infográfico invejável.

Paulo Pires Teixeira é afinal esse poeta, fotógrafo e jornalista de Angoche que, em horas mortas e vivas, invade nossas vidas e mentes sem qualquer autorização e nos aflora de um mundo de paisagens riquíssimas. Seria impossível fazer-vos, então, um resumo das mais de 160 páginas em que o leitor encontrará o m’siro e os colares de prata, memórias, templos hindus, a mesquita do Gulamo, o caril e o tufo, e tantos outros detalhes que o tempo empurra e as águas não conseguem apagar.

Reitero o quanto é difícil e árduo descrever a ilha, sobretudo quando ela é colocada em formato de livro. A dificuldade se avoluma quando esta pequena porção de terra, calcário e palmeiras, encerra tantas verdades e mistérios. Como descrever cidade que foi porto e entreposto, presídio e desterro, local de fantasmas e sombras, Mulheres de rostos dos mais belos do mundo, terra de monções e revoluções, enfim, terra de poesia, de tons e almas. Palavras não terminadas e rimas que se escondem no interior das capulanas de feitiços.

Para terminar ficam as desculpas para quem estava na expectativa de saber de tudo sobre o livro sem o ter lido.

Apresentar obras literárias é um ritual complexo e infelizmente não nos libertamos destes modelos. Seria bem mais importante saber do autor o que o motiva a amar realidades que, antes, não o pertenciam? Mas, enfim, vamos ler e saborear estas longas e intermináveis horas de pesquisa do autor.

Finalmente recordo que em momentos anteriores defendi que os livros sobre a Ilha deveriam ser lançados na própria Ilha.

As escolas deveriam receber um considerável volume dessas obras. Assim, os insulares conheceriam um pouco seu próprio percurso histórico e dos seus progenitores. Espero que este livro chegue a essas escolas e as bibliotecas da Ilha. E se ficar só na cancela da ponte já será um grande avanço, pois será lido do mesmo jeito.

Agradeço ao autor e a editora em nome desta legião de leitores insulares e periféricos, por se terem recordado e escolhido a cidade de Nampula, em momento de festa, para o lançamento desta antologia. Não esperem grandes ganhos financeiros. Aliás, aqui quase não se compram livros. Os preços são proibitivos. Caríssimos. Habituamo-nos, a recebê-los mahala.

Ainda assim, estes deslocamentos literários para regiões como Nampula ajudarão a incendiar as mentes da juventude, sobretudo ela, para que ganhe motivação e razões para escrever, poetizar, rimar, pintar e dançar.” Fonte

WAMPHULA FAX – 17.07.2012

7- Rui de Noronha

Fonte: Kuphaluxa
“Escritor moçambicano, António Rui de Noronha, nascido a 28 de Outubro de 1909,em Lourenço Marques(hoje, Maputo), e falecido a 25 de Dezembro de 1943, na mesma cidade, desde logo mostrou e deixou transparecer, na sua vida e na sua escrita, um temperamento recolhido, uma personalidade introvertida e amargurada. Foi, sem dúvida, um homem infeliz. Nunca chegou a concretizar, em vida, o grande sonho de publicar o seu livro de poemas, que se diz ter intitulado Lua Nova . Seria, postumamente, um grupo de amigos que viria a cumprir o seu desejo, ao publicar, em 1943, Sonetos , em parte composto de sonetos publicados na imprensa local.
Muitos dos seus poemas, porém, ainda se encontram inéditos, ou então esquecidos na Imprensa, como é o ocaso de “O Brado Africano”, na década de 30.
Poeta de transição, e vivendo numa época em que os escritores moçambicanos ainda não tinham tido a oportunidade de acordar a sua consciência para as mensagens poéticas de conteúdo social, caracteristicamente moçambicanas, por outro lado limitado como estava pela repressão cultural em que utilizar a África real como fundamento/tema-chave era imediatamente alvo do exercício diário da Censura, a obra de Rui de Noronha ficará marcada como o primeiro sinal expressivo, o precursor mesmo, de uma nova fase da poesia moçambicana, que viria mais tarde a alcançar o verdadeiro ponto de ruptura com o passado.
É fundamental, assim, chamar a atenção para a importância deste poeta que veio a anteceder, em cerca de mais de dez anos, o arranque, definitivo e altivo, para a construção de uma poesia tipicamente moçambicana.
Rui de Noronha estava desacompanhado neste fulcral início; estava completamente desamparado e retraído por um sistema que impedia a existência de uma tradição literária moçambicana. Daí que o poeta se visse forçado a agarrar-se aos modelos portugueses – com vínculos do século passado ou dos princípios do século XX. Daí que “apenas” tenha conseguido murmurar as reivindicações do seu povo, em vez de as gritar e levar bem longe; daí que “apenas” tenha podido insinuar os valores africanos, o sofrimento do homem moçambicano, a injustiça criada pelo colonialismo, em vez de os denunciar clara e explicitamente.
Mesmo que assim tivesse que ser, Rui de Noronha manifesta a sua clara intenção e consciencialização da necessidade de moçambicanizar os modelos estéticos tradicionais portugueses: incorpora, em muitos poemas, discursividades (palavras e expressões) próprias de Moçambique. Em muitos dos seus textos encontramos uma espécie de simbiose entre a oratura (forma oral de transmissão de conhecimentos) e a escrita , numa tentativa de exigir a reabilitação nacional. Neste sentido, poderá claramente dizer-se que a acção dos seus poemas é sempre orientada para os caminhos do futuro: os caminhos que levarão à moçambicanidade .
Sintetizando o principal papel levado a cabo por este magnífico poeta, poder-se-á dizer que, na década de30, apoesia moçambicana, pela voz de um dos seus maiores poetas – Rui de Noronha – exprime, com elevado grau de firmeza, as oposições racial, económica e cultural que definem as relações colonizador versus colonizado. Rui de Noronha teve essa consciência nacional e, em termos de criação literária, iniciou a expressão dessa situação. Certo é que essa expressão começou por ser algo tímida, embora sempre extremamente fecundante, o que será facilmente compreensível se tivermos em conta a época de repressão vivida em Moçambique, dominada por um fortíssimo e intransigente sistema colonial. Mesmo assim, Rui de Noronha é universalmente apontado como o iniciador da mais poderosa aposta na desalienação cultural e política, persistindo na construção de uma literatura autónoma, verdadeiramente nacional.”

Recolha de: Eduardo Quive
FONTE: Plural Editores

CHUVA MIUDINHA
Cai uma chuva gélida, miudinha,
Que mal soa nos zincos dos telhados.
Chuva que gela o corpo, gela a espinha,
E um dia inteiro deixa-nos gelados.
E cai, cai sem cessar, pó de farinha
Que nos deixa na rua enfarinhados.
Cai sem cessar, eterna ladaínha,
Nos nossos corações ajoelhados…
Um vento agreste as árvores perpassa,
Desenrolando um manto de desgraça
Sobre a paisagem húmida, encolhida…
E a chuva continua triste e mansa,
E na minha alma à mesma semelhança,
Cai-me o Passado em chuva comovida…
QUINHENTA MAIS QUINHENTA, MAIS QUINHENTA…

Quinhenta mais quinhenta, mais quinhenta…
(Se eu fosse enriquecendo assim aos poucos)…
Mas perco, meus amigos e anojenta
Ver mais um louco entre tantos loucos.
Mais vinte e cinco linhas me apresenta,
Digno, firmado, estóico, ouvidos moucos.
Procuração, dinheiro… e água benta…
-Água lhe dava eu de vontade aos socos…
Abre-se a porta. É o Seixas? -Não, é o Graça.
Papel azul, selado… Oh! que desgraça!
Que mais lembrou agora este demónio?
Mais um requerimento. Soma e segue.
Não haverá diabo que o carregue
E leve-mo por graça a um manicómio?

8- CPLP: Cultura como forma de expressão!

Reflexão de Adelino Buque

“Maputo, capital da República de Moçambique, foi a ca­pital dos falantes da língua portuguesa, congregados na CPLP. São países que representam os quatro cantos do mundo, por conseguinte, de diferentes culturas, unidos pela língua, o português. Como lhe competia, Moçambique preparou-se para acolher o grande evento intercontinental e a cultura moçambicana, expressa através de música, canto e dança, coloriu o evento.O conceituado músico Arão Litsure fez um dueto com um outro músico não menos conceituado e, depois, veio o canto e a dança de makwai, uma dança de expres­são guerreira. É aqui onde está a questão. Estariam os organizadores da parte cultural do evento esclarecidos sobre a natureza do evento? Acaso estavam informados ou estão informados sobre a CPLP e seus objectivos? Sim, porque na primeira oportunidade puseram-se a fa­lar da vitória sobre o colonialismo português infringido e bem por moçambicanos. Seria aquele o contexto? Depois disso, cantaram algo como “queremos ir para casa Maputo”. Mas afinal estávamos onde e qual era a ver­dadeira mensagem da canção? Para terminar, voltaram a cantar sobre as nossas vitórias sobre o colonialismo português que, embora falado em changana, desengane-se quem pense que a mensagem não foi percebida pelos representantes de Portugal, cuja delegação era chefiada pelo respectivo Presidente da República. Apesar de a canção ter sido interrompida pelo mestre de cerimónias, a mensagem estava lá, ficou!

Deste incidente existem duas lições a tirar: ou os responsáveis pela cultura estão de tal sorte sem infor­mação sobre a CPLP e seus objectivos, por conseguinte desconhecem o contexto e as razões da cimeira ao mais alto nível dos países falantes do português, ou então quiseram, de forma deliberada, transmitir algum des­conforto em relação a Portugal e, particularmente, aos portugueses. De qualquer modo, valerá a pena olhar de forma particular para cada um dos aspectos.Desconhecimento da CPLP e seus objectivosSe é certo que a CPLP completou 16 anos de existên­cia, não é menos certo que, como organização, se cinge ao encontro entre Chefes de Estado e de Governo dos países em questão, faltando, por conseguinte, o conví­vio entre os povos desses países. Apesar de esta tese ser aceite, porque é real, não tem acolhimento, tendo em conta que a Cimeira foi organizada pelo Governo de Moçambique e, deste modo, os organizadores da parte cultural tinham a obrigação de transmitir aos grupos convidados os contextos da organização, objectivos e sugerir inclusivamente as mensagens a transmitir aos nossos visitantes. Se em outros aspectos a cimeira foi um sucesso, a mesma ficou ensombrada por esta parte cultural e o responsável da parte cultural deveria ser cha­mado à responsabilidade e dar uma explicação pública sobre aquilo que aconteceu. Na verdade não dignificou Moçambique e seu povo.Desconforto em relação a Portugal e portugueses.Se a ideia foi transmitir a mensagem de desconforto nas relações do dia-a-dia com a comunidade portuguesa, relações vistas a nível das relações laborais e interpes­soais, o grupo conseguiu, mas, porque a sua atitude e acção foram claramente contra o princípio da cimeira, este grupo deve ser responsabilizado pelos seus actos. O evento era organizado pelo Governo, como referi acima, por conseguinte, a ele competia traçar as linhas-mestras que guiariam o evento. No caso em apreço, o grupo, deliberadamente, destorceu esse sentido de liderança e de responsabilidade, por isso, deve arcar com as con­sequências daí decorrentes e, se estão satisfeitos com o seu acto, certamente assumiram com brio a respon­sabilização por parte do executivo.Conclusao!A transmissão da Presidência da CPLP por Angola para Moçambique tinha tudo para ter corrido bem, mas, aqui deixem-me usar a expressão do Presidente da República, Armando Emílio Guebuza, o espírito de “deixa andar” que caracterizou a organização na parte cultural deitou tudo abaixo. Maputo conseguiu trazer, além do Presidente português e sua comitiva, o Presiden­te da Comissão Europeia, que é igualmente português. Certamente participaram na cimeira não para ouvirem sobre o passado colonial em Moçambique; vinham estrei­tar relações de cooperação entre os dois estados, povos e comunidade. Maputo trouxe igualmente o director-geral da FAO, fazendo jus ao lema da IX Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo “Combater a fome e desnutrição crónica nos países da comunidade”.Porquê esta mancha? Ficará para sempre este ponto de interrogação.

“CORREIODA MANHÃ – 30.07.2012

9- “Media” são amplificadores da diversidade dum país – defende Boaventura de Sousa Santo.

Boaventura_sousa_santos“OS “media” são amplificadores simbólicos da diversidade de um país, mas muitas vezes a democracia tem medo desta mesma diversidade, segundo defendeu, quarta-feira, em Maputo, o Professor Catedrático Boaventura de Sousa Santos, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Portugal.

Orador da palestra “Democratizar a Democracia – os Media e os Espaços Públicos”, Boaventura de Sousa Santos disse que hoje, a discussão sobre o papel dos “media” pretende problematizar se são aliados da libertação, igualdade ou do bem-estar ou ainda se são parte da solução ou do problema.

Falando sobre as ameaças no mercado da comunicação social, Boaventura de Sousa Santos afirmou que na década de 80, os grandes “media” tiveram um papel fundamental, sobretudo em relação à privatização. Disse que não existem órgãos de comunicação social neutros, apesar da sua obrigatoriedade de serem objectivos.

“Ou contribuem para ampliação da democracia ou para restringi-la”, afirmou.

Existem os chamados grandes “media”, pequenos e globais, sendo que estes últimos, por exemplo, reforçam estereótipos sobre África como continente problemático e não expõem coisas de bem.

Neste contexto, defendeu que o Continente Africano deve reivindicar os seus próprios “media”. Concluiu afirmando que para que os “media” sejam parte da solução do problema tem que haver um grande esforço no seu pluralismo.

No início da sua dissertação, Boaventura de Sousa Santos dedicou a palestra ao jornalista Carlos Cardoso, assassinado a 22 de Novembro de 2000, afirmando que exerceu um jornalismo extraordinário para esclarecer a verdade.

Sobre a democracia

Maputo, Sábado, 14 de Julho de 2012:: Notícias

Sobre a democracia, Boaventura de Sousa Santos perguntou: “porque é que somos todos nós democratas, ou facilmente democratas, ou todos os países se auto-intitulam democratas?”. Para o Professor Catedrático, nem todos os que estão à frente das instituições democráticas são democratas.

Disse, a título de exemplo, que na Europa, as decisões políticas não são tomadas pelos eleitos, mas sim por pessoas que se encontram à frente das empresas. Afirmou que hoje o conceito de democracia se enquadra num contexto diferente, por exemplo, de há 10 anos.

Para o orador, a democracia atravessa uma crise que nunca conheceu. Por exemplo, nos Estados Unidos, quando se fala de democracia tem-se em conta que o dinheiro é que manda nas eleições. Disse que a democracia é hoje o único sistema legítimo aceite pelas instituições como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.

“Parece ser uma condicionalidade do capitalismo”, afirmou, acrescentando que onde a democracia floresceu, houve problemas com o capitalismo. Sempre houve tensão entre capitalismo e democracia.

“Por que é que hoje não existe?”, questionou, acrescentando que a democracia perdeu capacidade de redistribuir a riqueza, enquanto nos anos 80, por exemplo, instituições como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional fizeram uma guerra para que houvesse redistribuição da riqueza.

Disse que hoje, os cidadãos pagam muito mais dinheiro do que qualquer empresa. Em vez da tributação, o Estado recorre a empréstimos, uma situação que se verifica desde os anos 80. Quando assim acontece, o Estado já não é soberano. Segundo Boaventura de Sousa Santos, esta passagem desorganiza o Estado e a democracia deixa de servir as populações.

Afirmou que nos anos 60/70 havia poucos países democráticos e o grande problema era saber as condições em que a democracia devia ocorrer. Outra ideia era que tinha que haver reforma agrária, entre outras condições.

“Em 20 anos, dizemos ou passamos para a ideia de que há democracia e que ela é tudo o mais”, afirmou.

Ameaças à democracia

Maputo, Sábado, 14 de Julho de 2012:: Notícias

Para Boaventura de Sousa Santos, a primeira ameaça à democracia é que em cada país existem duas constituições, nomeadamente a constituição política do Estado e o constitucionalismo global, ou seja, das grandes multinacionais, que têm suas próprias regras.

A segunda refere-se a fracos regimes de regulação das empresas multinacionais, que têm vindo a possuir uma maior capacidade de manipular as opiniões. A terceira relaciona-se com a democracia liberal, que assenta em dois pilares, designadamente autorização e prestação de contas.

Disse que a democracia representativa perdeu o poder perante a democracia de prestação de contas. A quarta refere-se à dispersão do poder político pelos actores não políticos. A quinta ameaça é que a democracia representativa assenta na ideia de dois mercados, nomeadamente o mercado político (relacionado com as convicções políticas) e o mercado económico (bens e valores que têm preço).

Afirmou que nos últimos 20 anos houve uma crescente evolução do mercado económico, chegando-se a uma situação em que mesmo em política, tudo se vende e se compra. Outra ameaça à democracia são as formas de participação popular, criadas para efeitos de manipulação. Em muitos países, por influências das agências, criam-se mecanismos de participação dos cidadãos mas esses mecanismos são manipulados.

Por fim, Boaventura de Sousa Santos indicou como sendo outra ameaça à democracia a coexistência de várias legitimidades políticas, particularmente em África. Em muitos países, disse, continua-se a assistir a coexistência de duas legitimidades, nomeadamente a da luta revolucionária e a democrática.

Para além destas duas legitimidades, existem também legitimidades tradicionais comunitárias de baixa intensidade que, segundo afirmou, tiveram um trajecto extraordinário depois das independências e que pouco a pouco começam a ser reconhecidas. Porém, em muitos países, a legitimidade tradicional não tem muito poder político.

Na forma de democracia de baixa intensidade, assiste-se ao bloqueio da cidadania pela exclusão e pela trivialização da participação, porque se pode participar sobre coisas menos importantes.

Para Boaventura de Sousa Santos, democratizar a democracia é trazer mais formas para a democracia e não só para a representativa. Disse, por exemplo, que a NEPAD (Nova Parceria para o Desenvolvimento de África) sela a democracia com o liberalismo.

Boaventura de Sousa Santos tem visitado muitas vezes Moçambique em viagens de investigação sociológica e tem trabalhado com vários cientistas sociais a nível interno.

Entretanto, o académico Carlos Machili, que moderou o debate, disse que Boaventura de Sousa Santos é muitas vezes citado nas suas obras e “escondemo-nos por detrás dele para o que queríamos dizer”.

A palestra foi promovida pelo Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, Escola de Comunicação e Artes, também da Universidade Eduardo Mondlane e o Conselho Superior da Comunicação Social, com apoio da Rádio Moçambique.

Boaventura de Sousa Santos deslocou-se ao país para participar do júri que outorgou o título de Professor Catedrático à académica Teresa Cruz Silva”

10- “Cultura e Mentiras” por Mia Couto:

“Grave é fazer uso de uma cultura de falsa identidade do tipo nós africanos somos assim para credenciar a dominação histórica de um determinado grupo ou para justificar o injustificável”

“Grave é fazer uso de uma cultura de falsa identidade do tipo nós africanos somos assim para credenciar a dominação histórica de um determinado grupo ou para justificar o injustificável”.

Leio hoje que um terço da população swazi vive numa condição de fome e completamente dependente da ajuda alimentar de emergência. Enquanto isso, chegam notícias que o Rei da Swazilândia gasta milhões de dólares na aquisição de um avião particular e na compra de moradias de luxo para as suas dezenas de esposas.

A justificação usada é que a opulência e ostentação dos chefes africanos é uma questão «cultural». A cultura é, com frequência, usada como lixívia para lavar imoralidades e uma forma de colocar como «estranha e estrangeira» preocupações de mudança. O argumento é este: quem critica o Rei da Swazilândia está culturalmente alienado dos valores «africanos». Invoca-se a tradição «africana» para justificar práticas eticamente inaceitáveis na África dos nossos dias.

Na realidade essa «tradição» é invocada de forma truncada, esquecendo-se duas coisas: a primeira é que a tradição também sugere outras obrigações (hoje convenientemente esquecidas) e, a segunda, é que essa tradição é, em grande parte, uma construção feita e refeita ao longo do tempo. Persiste uma confusão deliberada entre cultura e tradição. A cultura é um grande saco, tão grande que pode lá caber tudo. É muitas vezes um expediente que pode ser usado para sancionar o intolerável. Eu vejo, por exemplo, que se criou entre nós uma desculpa comum para justificar a falta de pontualidade. Não é só entre nós mas em todo o continente. Dizermos chegar atrasado é uma «questão cultural». Mais grave ainda: imputamos essa falta de pontualidade àquilo que uns designam de «cultura africana».

(Versão integral do texto na edição impressa da revista África21 (N.º 68, outubro 2012)

O AUTARCA – 30.10.2012

10- Cerveja Moçambicanas:

– Link interessante sobre as cervejas de Moçambique!

11- O vendedor moçambicano:

“Amigo, uma pulseirinha de búzios? Bom preço!”

Você está andando relaxado. De repente, olha para um lado e o enxerga. Ele pode estar a milhas de distância, mas em segundos estará ao seu lado:

-Amigo. Hello!

Você responde um olá ou nem responde nada.

-Amigo! Não quer comprar? Bom preço!

E ele vai te mostrar o produto que está a vender. Em movimento, claro, porque você não parou de caminhar. Você diz um “não, obrigado” e ele vai segui-lo por minutos, quiçá horas, enaltecendo principalmente o bom preço de seu produto.

Se você cair na bobagem de dizer amanhã ou mais tarde, ele possivelmente desistirá de novas vendas e ficará esperando-o. Ele vai encontrá-lo onde quer que você esteja.

-Lembra de mim?

Caso você não seja vencido pela insistência e mantenha-se firme no “não, obrigado”, em breve escutará o muro das lamentações e a fatídica frase que gera aquela pena que sentimos no terceiro mundo: “para ajudar, poooorrrr favooorrrr”.

Mas vai que de repente o produto te interessa – e você decide parar para ver e comprar. Bom, aí você mudou de fase: começa a discussão de preço (claro, nunca se sabe qual o preço real de nada e eles sempre colocam o valor muito acima) e em alguns segundos você estará cercado de vendedores do MESMO produto, todos a repetir “bom preço”.

E não adianta você explicar que acabou de comprar a mesma coisa e que não vai comprar mais – eles seguirão insistindo. É, caímos no conto uma vez.

Todos os dias em Moçambique, TODOS, nós fomos abordados por vendedores insistentes. Eles são na sua maioria moleques e não tem muito mais coisas para fazer, portanto tem tempo. Chegamos a ser abordados pelo mesmo vendedor cinco dias seguidos. Fomos até acordados na praia por um vendedor!

O mais interessante é que a maioria deles vende a mesma coisa. Tentamos explicar a eles que se todo mundo vender pulseirinhas com buzios, não haverá comprador para todos. Mas eles não entendem.

Não entendem e insistem. A regra do vendedor moçambicano parece ser: zanzar e insistir. Sempre.”

(Johannesburg, 19/10/12)

Fonte das fotos e do texto

12- Três livros, três dicas sobre Moçambique:

Fonte: Moçambique para todos

“Desafios para Moçambique 2012”, “Moçambique: Descentralizar o Centralismo? Economia política, recursos e resultados” e “A Mambra e o Dragão: Relações Moçambique-China em Perspectiva” são três livros que o Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE) lança a 4 de Setembro, em Maputo, durante a sua III Conferência cuja temática é “Moçambique: Acumulação e Transformação em Contexto de Crise Internacional”.

Maputo, Quarta-Feira, 29 de Agosto de 2012:: Notícias

Quatro aspectos particulares saltam à vista e constituem pontos de intersecção entre os três livros.

Primeiro, são todos eles publicados sob signo de pesquisa em Ciências Sociais, peculiar à instituição editora, e levantam, cada um na sua perspectiva e na sua especialidade, questionamentos sobre o estado de avanço do debate sobre questões que neles são estudadas, diagnosticando, expurgando os problemas e propondo saídas possíveis. Assim, tomando como ponto de referência comum para a análise o Plano de Acção para a Redução da Pobreza (PARP) 2011-2014, o livro “Desafios para Moçambique 2012” questiona o que a investigação social e económica em Moçambique tem para comunicar para a planificação económica e social de médio prazo, e o que pode a planificação económica e social de médio prazo aprender da investigação social e económica existente em Moçambique. Discutindo o sistema socioeconómico e político no qual se está a processar a descentralização em Moçambique, com particular enfoque na qualidade das relações entre o governo central e os governos locais, o livro “Moçambique:

Descentralizar o Centralismo? Economia política, recursos e resultados” questiona, a dado passo, as características da economia política e do sistema político-administrativo que devem ser descentralizadas, com que objectivos estratégicos e de que maneira, e ainda com que papel para os doadores (dos quais Moçambique é altamente dependente no que toca a financiamento, assistência técnica e investimento).

Abordando, por seu turno, temas diversos sobre a presença chinesa em Moçambique, a obra “A Mamba e o Dragão: Relações Moçambique-China em Perspectiva”, cujo objectivo é perceber as características e especificidades das relações entre a China e África, levanta uma série de questões dentre as quais as seguintes: China, um doador diferente dos outros? Agricultura, recursos minerais e construção: novo foco chinês em Moçambique? Como e o que fazer para que a “mamba” não seja engolida pelo “dragão”? Na esteira destes questionamentos, o livro analisa a relação China-Moçambique, olhando para as origens, características, especificidades, tendências, impacto e relevância do relacionamento. Portanto, as três obras apresentam diferentes linhas de discussão, não como um produto acabado mas como propostas de novas metodologias de abordagem das problemáticas que lhes são inerentes.

O segundo aspecto em comum é a forma como se constituíram as linhas de pesquisa e sobretudo o formato a que o público tem acesso. Os três livros são colectâneas de artigos escritos por especialistas nas respectivas áreas. “Desafios para Moçambique 2012” contém 18 artigos, escritos por 19 autores e organizados em quatro partes, nomeadamente Política, Economia, Sociedade e Moçambique no Mundo.

As quatro partes temáticas que compõem o livro apresentam maior interligação entre si, mesmo que as abordagens e metodologias dos autores sejam distintas e, por vezes, em contradição com as de outros. O livro “Moçambique: Descentralizar o Centralismo? Economia política, recursos e resultados”  é escrito por 16 autores e está dividido em quatro partes principais, definidas tendo em conta uma perspectiva analítica que sugere que a descentralização pode ser vista como um processo de reforma do sistema político administrativo feita do topo para a base mas também como uma forma de fortalecer, da base para o topo, os fundamentos do Estado. O terceiro livro é composto por 8 artigos escritos por 9 autores, que discutem o padrão e as tendências do investimento chinês nos diferentes sectores, nomeadamente no sector bancário e na agricultura, as representações sociais de diferentes grupos de moçambicanos sobre os chineses e o perfil e as motivações dos emigrantes chineses. Em termos metodológicos, o tecido que une os três livros é uma espécie de abertura de espaço intelectual para diálogo de ideias, se bem que isso passe por oposição de pontos de vista, o intuito sendo o de fazer avançar o debate e servir de plataforma para uma escolha mais consciente de opções de desenvolvimento que se pretende para Moçambique.

Os dois últimos aspectos comuns aos três livros advêm, o primeiro, do facto de que os livros são editados pelo IESE, cada um com suas especificidades, o que mostra uma certa evolução na forma como têm sido apresentadas as publicações desta instituição. Com efeito, “Desafios para Moçambique 2012”, organizado pelos investigadores Luis de Brito, Carlos Castel-Branco, Sérgio Chichava e António Francisco, é um livro do IESE, terceiro da série “Desafios para Moçambique” iniciada por esta instituição em 2010, e cujo objectivo é contribuir para o debate público sobre temas relevantes da vida do país. “Moçambique:

Descentralizar o Centralismo? Economia política, recursos e resultados”, é um livro organizado por Bernhard Weimer, aparecendo o IESE como instituição editora. O terceiro livro, sobre as relações entre a China e Moçambique, organizado por Sérgio Chichava e Chris Alden, é uma co-produção entre o IESE e SAIIA, uma instituição sul-africana de pesquisa sobre relações internacionais. O segundo aspecto é que, estas obras mostram um salto qualitativo em Moçambique, país onde a investigação científica se apresenta como um recurso motor, catalisador de ideias e que privilegia o pensar local, abrindo, contudo, uma janela para o intercâmbio, por um lado, entre académicos nacionais e estrangeiros, e, por outro lado, entre jovens pesquisadores e pesquisadores mais experientes, o que permite, de igual modo, calibrar o nível de investigação nacional num contexto global e abrir horizontes para que a nova geração de intelectuais se enquadre profundamente nos assuntos que ao desenvolvimento do seu país dizem respeito.

13- População ameaça voltar a plantar ‘cannabis’ após insucesso de outras culturas

“A população de um distrito de Manica, no centro de Moçambique, onde foram destruídas 18 toneladas de ‘cannabis’ em 2011, ameaça retomar o cultivo da droga face à inexistência de mercado para as culturas alternativas.

“Felizmente constatamos que em Calombolombo já não há produção de soruma [‘cannabis’], mas há muito milho e hortícolas sem mercado. A população está a entrar em desespero e chega-se a dizer que se não resolvem estes problemas voltam a cultivar soruma.”, disse hoje à Lusa Agostinho Rotuto, procurador chefe provincial de Manica.

No ano passado, cerca de 200 hectares de campos de cultivo de ‘cannabis’ foram desativados e a produção incinerada. Ninguém foi detido, porque quase “toda a gente” estava envolvida.

A justiça concedeu “amnistia à população envolvida”, respondendo os apelos do governo, que desde então estimulou a produção de culturas alimentares, disponibilizando sementes e tratores, para a população deixar de cultivar ‘cannabis’, a sua principal fonte de rendimento.

Mas volvido um ano a população pede mercado para colocar a sua produção e outras infraestruturas básicas, como estradas, escolas e centros de saúde, para deixar de recorrer aos serviços prestados pelas entidades do vizinho Zimbabué.

“Chamamos a população à consciência de que sendo eles produtores da ‘cannabis sativa ‘poderiam estar a contas com a lei. Portanto, há algumas questões que julgamos que, com algum esforço acrescido, o governo pode contribuir para que a população não volte a plantar a soruma”, declarou Agostinho Rotuto.

A população produzia a droga para consumo, comercialização e exportação, que foi descoberta e apreendida em grandes campos de cultivo na região de Calombolombo, norte de Guro, numa operação governamental para travar a produção daquele estupefaciente, proibido no país.

Nos campos de cultivo de ‘cannabis’, geralmente em matas densas, os populares sobrepunham a cultura de milho, para disfarçar.

A droga tinha como mercados preferenciais a África do Sul e o Zimbabué.”

AYAC

Lusa – 31.07.2012

Fonte: Moçambique para todos

14- LITERATURA – Jovens escritores querem divulgação das suas obras

“Jovens escritores da capital do país clamam por um maior espaço para a divulgação dos seus trabalhos, particularmente na comunicação social. Esta vontade foi manifestada num sarau cultural realizado no Centro Cultural Brasil-Moçambique (CCBM), sob o lema “A Imprensa como espaço de debate de ideias e literacias. De onde vêm os escritores?” e organizado pelo Movimento Literário Kuphaluxa.
Maputo, Quarta-Feira, 25 de Julho de 2012:: Notícias
O evento foi o mote para a celebração do primeiro aniversário da revista electrónica de literatura moçambicana e lusófona “Literatas”, tendo igualmente servido para uma reflexão sobre os mecanismos de acesso aos meios de comunicação social para publicação das obras literárias feitas pelos jovens escritores, ao mesmo tempo que se discutiu os condimentos necessários para se ser um bom escritor. O sarau teve como convidados Lucílio Manjate, escritor e docente na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane, Nélio Nhamposse, revisor linguístico e escritor. Lucílio Manjate, que este ano lançou o livro “O Contador de Palavras”, sugeriu que os jovens não devem esperar que os meios de comunicação procurem por eles a fim de publicarem os seus trabalhos, mas sim a iniciativa deve, muitas vezes, partir dos próprios escritores, mas só mediante a certeza de que o que escreveram tem o mínimo de qualidade para publicação. “Muitas vezes devem ser os próprios jovens a ir ‘bater à porta’ dos órgãos de comunicação social e apresentar propostas de trabalho a publicar. Ficar sentado não resolve, muito menos desatar em lamúrias”, disse o escritor, que é igualmente editor da revista “Proler”. Ele louvou a iniciativa do Movimento Kuphaluxa de criar uma revista literária, acto que, segundo ele, se assemelha a projectos como “Tempo”, “Charrua”, “Lua Nova”, “Xitende” e “Proler”, que surgiram para a divulgação de escritores emergentes. “Tal como aconteceu no passado, os escritores de hoje são produto de várias inquietações, sobretudo da necessidade de se expressar. E destas inquietações acabaram surgindo movimentos literários e revistas como forma de divulgar as suas obras, e, ainda da necessidade de afirmação literária”, explicou Lucílio Manjate. Entretanto, das várias questões levantadas pela plateia, maior preocupação vai para o facto de, segundo eles, a comunicação social privilegiar a publicação de trabalhos de escritores já consagrados em detrimento dos emergentes. Por exemplo, o editor da revista “Literatas”, Eduardo Quive, explicou ao “Notícias” que a sua revista surge justamente para satisfazer a inquietação dos novos escritores, criando, por conseguinte, um espaço para a divulgação de ideias da camada juvenil. “A revista foi criada com o objectivo de trazer novos autores, expor novas ideias e, acima de tudo, divulgar a literatura moçambicana, assente nos novos autores. Esta revista é igualmente um espaço de afirmação da literatura lusófona, na medida em que, também, publica trabalhos de escritores desta comunidade”, para quem o primeiro ano da “Literatas” foi de “sobrevivência, em virtude das várias dificuldades por que tem passado a edição desta publicação electrónica. Aliás, um dos grandes desafios com que se debate o Movimento é a continuidade ou não da revista no actual formato.”
Fonte: Kuphaluxa

15- AS MULHERES DE GUNGUNHANA, POR MARIA DA CONCEIÇÃO VILHENA

Texto que foi gentilmente partilhado pelo Luis Nhacote e que reproduzo com vénia. Fiz uma edição minúscula.


Foto da época, do régulo Gungunhana com algumas das suas mulheres. Uma história possível, um tanto impressionista, em baixo, da Maria da Conceição Vilhena.

AS MULHERES DO GUNGUNHANA

por Maria da Conceição Vilhena*

1. No último quartel do século XIX, nas terras do sul de Moçambique, entre os rios Incomáti e Zambeze, Gungunhana impunha-se como o maior potentado africano. Era o senhor do reino de Gaza, tinha mais de uma centena de vassalos e possuía uma enorme riqueza, constituída por ouro, marfim e rebanhos de gado. O seu prestígio político e social vinha-lhe ainda do facto de possuir entre 200 a 300 esposas: 40 viviam junto da corte e as restantes habitavam nas aldeias circunvizinhas. A aquisição de novas esposas fazia-se a um ritmo quase bimestral; e cada casamento era sempre causa de maior engrandecimento, por permitir novas alianças e atrair grande número de presentes. Era uma grande honra ter o régulo de Gaza como genro e protector. Seria demasiado longo falarmos da vida que levavam estas mulheres,em geral; por isso nos limitaremos às sete que acompanharam o marido no exílio.

2. No dia 28 de Dezembro de 1895, após algumas tentativas de negociações e a derrota de Coolela, seguida do incêndio do Manjacaze, a capital de Gaza, Gungunhana foi feito prisioneiro em Chaimite, por Mousinho de Albuquerque. O oficial português deu então ordem ao régulo para que escolhesse sete de entre as suas mulheres, que o acompanhariam no seu incerto destino. Foram [seis] delas: Namatuco, Patihina, Muzamussi,Machacha, Xesipe e Dabondi. Feitas as suas poucas bagagens, lá seguiram os prisioneiros a pé durante algumas horas, até chegarem a Zimacaze, na foz do Chengane. Aí embarcaram na canhoneira Capelo, que os estava esperando e os transporta até Chai-Chai. A propósito deste embarque, queremos lembrar que, na cultura angune, havia um tabu proibitivo de entrar na água e comer peixe. Os prisioneiros devem, pois, ter sido invadidos pelo horror de viajar de barco, o que irá repetir-se, por várias vezes, até ao fim da deportação. Com os onze prisioneiros do Manjacaze (Gungunhana, o filho Godide, o tio Molungo, o cozinheiro Gó e as sete mulheres), embarcam também o régulo da Zixaxa e três mulheres deste, cuja sorte iria ser igual à dos outros. Em Chai-Chai, na foz do Limpopo, passam então para o navio Neves Ferreira, que os transporta até Lourenço Marques, onde chegam no dia 4 de Janeiro [de 1896]. Aí desembarcam e são mantidos na cadeia homens e mulheres, até serem levados para bordo do África, após o seu reconhecimento oficial, feito em público. Neste navio África fariam uma viagem de 60 dias, até Lisboa. As condições a bordo deviam ser péssimas, pois Gungunhana e seus companheiros, num total de 15 pessoas, ocupavam apenas dois compartimentos pequenos, escuros e mal arejados. Por razões de segurança, aí ficavam fechados à chave, sempre que o barco fazia escala em qualquer porto. E foi o enjôo, a asfixia, a imobilidade, a juntar à angústia da dúvida sobre o futuro que os esperava. Os jornalistas falam mesmo da tentativa de suicídio por parte de uma das mulheres…

3. Na manhã do dia 13 de Março de 1896, desembarcam em Lisboa e são conduzidos em caleches descobertas, do Arsenal até ao forte de Monsanto. Lisboa em festa, a abarrotar de multidões ruidosas. O público, apinhado pelas ruas, empoleirado em postes, debruçado das janelas, aos magotes, como enxames, ri, grita, vaia eufórico. Dentro das carruagens, os prisioneiros olham temerosos e embaraçados; eles com ar estupefacto, perplexo; elas apontando, curiosas e divertidas. Nunca tinham visto casas tão altas, com varandas, ruas calcetadas, praças com fontes e estátuas. E tanta gente alegre, a observá-las, durante todo o percurso. As mulheres africanas parecem bem dispostas. Do Terreiro do Paço seguiu o cortejo pela Rua do Ouro, Avenida da Liberdade, São Sebastião da Pedreira, Sete Rios, Benfica, rumo a Monsanto. Por todo o lado, em todo o percurso, era aquela mole imensa de gente, às gargalhadas e a insultar. Porém o desconhecimento da língua portuguesa dava às prisioneiras a vantagem de não compreenderem o ódio e a ironia da arraia miúda e assim, na sua inocência, poderem continuar a sorrir. Era o dia 13, uma sexta-feira de céu cinzento. Se os africanos tivessem as mesmas superstições que os brancos, tanto bastaria para que os maus presságios agudizassem ainda mais a angústia que os atormentava. A tarde aproxima-se do seu fim, quando chegam ao Forte de Monsanto. São seis horas e, em Março, o sol está a esconder-se. As instalações onde são recebidas nada têm de semelhante àquelas casas que, na Baixa, as haviam deslumbrado. Passada a ponte levadiça, entram numa masmorra, onde a escuridão era quase total. As mulheres estão agora assustadas e o terror estampa-se-lhes no rosto. O quarto que lhes haviam destinado, encontrava-se seis metros abaixo da superfície. Espaço escuro, bafiento, mal cheiroso, húmido e frio. Suspiravam amedrontadas e foi necessário tranquilizá-las; mas continuaram a tremer de frio e talvez de medo. Assim as encontrou o médico encarregado de examinar o seu estado de saúde. São-lhes mostradas as camas e explicam-lhes como são utilizadas. Até então haviam dormido no chão, sobre esteiras. Convencidas finalmente de que não lhes iria acontecer mal, ao entrarem nas camas riram ruidosamente. Nesta fortaleza de Monsanto iriam ficar encerradas durante quatro meses, aproximadamente. Gente habituada a viver ao ar livre, em contacto com a natureza e em constante movimento, vê-se agora privada da largueza dos seus espaços e da quentura do seu clima; imóveis e geladas entre quatro paredes do calabouço, num entorpecimento do corpo e do espírito. Detestam a comida portuguesa e queixam-se constantemente de frio. Entretanto, aprendem a utilizar talheres e passam a usar vestuário europeu.

4. Como passavam o tempo essas mulheres prisioneiras?
Grande parte do seu dia era ocupado a pentearem-se, pois usavam um penteado artístico, alto, entre o cónico e o cilíndrico, que constituía um dos distintivos das mulheres grandes do Gungunhana. As mulheres pequenas, ou seja, as rainhas de segunda classe, não tinham o direito deusar esse tipo de penteado. Quanto à favorita, tinha outra ocupação, pois cabia-lhe o dever de manter sempre brilhante a coroa de cera que o marido usava e que era tecida no próprio cabelo. Além disso, dedicavam-se ao artesanato, fazendo pulseiras e colares de missangas, artisticamente trabalhados. Ao princípio, a monotonia dos dias foi quebrada pelas muitas visitas que recebiam. As esposas de ministros, ou de outras altas individualidades, conseguiam a autorização do Ministério da Guerra e iam até Monsanto, entravam nos calabouços, sorriam, levavam presentes. Por curiosidade ou para cumprir o dever de visitar os presos. Não conheciam a língua, mas comunicavam por gestos de simpatia. Ofereciam fruta e doces, objectos variados, pequenos nadas que davam prazer. Um jornalista referiu uma vez a agilidade e delicadeza com que uma dessas mulheres prisioneiras calçou umas luvas que acabava de receber. Com tanta facilidade e perfeição como se a isso estivesse habituada de longo data; e um dia em que uma senhora lhes ofereceu flores, com elas adornaram alegremente os seus penteados. As prisioneiras mostravam aos visitantes os seus trabalhos em missangas, com cores variadas e caprichosos desenhos. Estes apreciavam, elogiavam-lhes a arte, sorriam. Mas um dia acabaram-se as visitas, por o ministério as ter proibido. E então foi a solidão total. Tensão, crises de mau humor, cólera, emoções descontroladas, transgredindo assim a contenção imposta pela disciplina militar. O recluso tem de obedecer, mas os nervos começam a dar sinais de fadiga. Há gritos e ameaças, intervenção das forças da ordem. As mulheres choram, os homens são punidos. Era muito difícil, para um rei déspota e violento como Gungunhana, a renúncia calma ao prestígio de que gozara e a aceitação submissa do vencedor português. Cada vez mais angustiado e atormentado pelo receio da condenação à morte, Gungunhana atinge o limiar das suas forças. Adoece gravemente e tem de ser hospitalizado. A sua partida para o hospital impressionou de tal modo as rainhas, que estas quase deixaram de comer. Algumas delas adoeceram mesmo e o médico chegou a propor o seu internamento. No dia em que o marido regressou recuperado, foi grande a alegria das esposas, traduzida em carícias, gargalhadas e gritos de prazer que entoaram pelas celas. De repente a imprensa deixa de se interessar pelos prisioneiros africanos. O encanto da novidade tinha-se extinguido; e agora nada mais saberemos a seu respeito, a não ser que passaram os meses de Abril, Maio e Junho, na mais horrível solidão. Dias a decorrer na penumbra, incertos de futuro, exíguos de espaço, longos de monotonia, húmidos e frios. Até que, no dia 23 de Junho [de 1896] os jornais anunciam a partida do Gungunhana e dos seus três companheiros, na véspera, para os Açores. E as mulheres? Não partem, por enquanto. Apesar das visitas simpáticas que haviam recebido, a sociedade lisboeta havia-as rejeitado, escandalizada com a poligamia. Para acabar com o pecado, as autoridades haviam decidido separá-las do marido. Segundo contam os jornalistas, foi muito dolorosa a separação, nesse dia 22 de Junho, pelas 7 horas da manhã. Eles a tremer, de lágrimas nos olhos, convencidos de que iam ser mortos. Elas sem quererem separar-se deles, chorando, gritando, lamentando-se. Esquecidas pela multidão que antes rodeava o forte, abandonadas aparentemente pelas autoridades, a solidão destas mulheres tornou-se insuportável. Tiraram-lhes os seus companheiros; e ali ficam sozinhas, de 22 de Junho a 6 de Julho. Duas longas semanas de dor, de dúvida, de solidão e de medo. Caídas numa apatia total, nem forças tinham para qualquer eventual acesso de fúria. Era a segunda desagregação familiar que sofriam. A voz do sangue silenciada por razões de ordem moral e política. Desprevenidas, indefesas,arrancadas a laços e raízes, elas esperam não sabem o quê. Finalmente vem do Ministério a decisão: despachá-las para a ilha de São Tomé. Pelas 5 horas da manhã do dia 6 de Julho recebem então ordem para se vestir e partir. O sofrimento que deixam transparecer é tão grande que os próprios jornalistas se sentem comovidos e revoltados: “pobres expatriadas”que pareciam nem ter forças para se vestir. Ninguém para se despedir delas. À chegada, estavam as ruas cheias de gente, havia movimento e alegria; agora, à partida, é o desconsolador abandono total.

6. Transportam-nas até ao Arsenal e embarcam-nas no paquete São Tomé. Já no beliche, impressionam por um silêncio desolador. Umas estendidas, de olhos fechados, como se dormissem, outras, acocoradas e lacrimosas, olhando os circunstantes com pavor; duas recusavam-se a mostrar o rosto. Debilitadas pelo entorpecimento de quatro meses, dilaceradas pelo martírio da dúvida, refugiavam-se num mutismo impregnado de horror, receio e solidão. A separação dos régulos africanos das suas esposas, e o envio destas para São Tomé, parece ter sido a resposta a uma campanha de moralização, levada a cabo por um grupo de senhoras de bem, revoltadas contra a poligamia dos negros. Era, pois, uma campanha autorizada, promovida e apoiada por pessoas de bons costumes, que consideravam a presença daquelas mulheres como um insulto à moral pública. Além disso, sendo os Açores uma terra de grande religiosidade e pureza (salvaguardada e assegurada pelas casas de prostituição…), o governo não poderia permitir uma tal promiscuidade. A separação foi, pois, uma operação de limpeza, imposta pela moral tradicional. Digamos a propósito termos a notícia de que, nos Açores, os prisioneiros africanos eram levados, regularmente, às casas de prostituição da cidade de Angra do Heroísmo. Referem alguns jornalistas que se tentou convencer Gugunhana à monogamia. Como a moral portuguesa só admitia, publicamente, uma mulher, o régulo teria de escolher uma entre as setes e repudiar seis; o que, para estas, seria uma humilhação insuportável. Gungunhana amava-as todas igualmente; e não sabia nem quis escolher uma, pois cometeria para com as outras uma afronta que ele nunca se permitiria. Por isso foi firme e enérgico, coerente com os seus princípios. Tendo-se recusado a escolher uma, a separação foi inevitável. Bem pediu o régulo, bem suplicou, mas de nada lhe serviu. Jornais houve que protestaram contra esta decisão, prevendo para Gungunhana uma lenta agonia, minado de uma saudade e tristeza que lhe encurtaria os dias; o que realmente se deu. Nada, porém, abalou as cúpulas; e as suas ordens foram integralmente cumpridas. E lá partem para São Tomé, sozinhas, vazias de sonho, sem ninguém que lhes acene com o lenço da amizade; lá seguem pela imensidão de um mar revolto, sem ninguém que lhes estenda a mão da solidariedade, sem ninguém que lhes dirija um gesto de compreensão. Um jornalista comenta: “Em São Tomé, que sorte desgraçadíssima vão ter? Não seria mais justo, e muitíssimo mais digno, enviá-las para asua terra natal, de onde nunca deveriam ter saído?!” Era muito grave, aqui no continente, ser-se acusado de “propensões benévolas” para com o Gungunhana. Para se tomar o partido deste, era necessário não só muita coragem, como carecia de um preâmbulo filosófico, moral e religioso, com apelo à caridade. De contrário, corria-se o risco de ser acusado de traição à pátria. Ou de imoralidade. Ou de atentado aos princípios cristãos. Só depois de tomadas todas essas precauções,a Folha do Povo arrisca criticar e condenar ferozmente o comportamentodo Ministério da Guerra, que acusa de iníquo e cruelmente bárbaro. Igualmente encontramos críticas violentas no Jornal do Comércio, onde um jornalista, sob o pseudónimo de Fernão Lopes, põe em realce a hipocrisia do governo, escudado no que chama “escrúpulos religiosos” tardios. Fernão Lopes termina o seu artigo relembrando a maneira correcta e hospitaleira como os portugueses foram sempre recebidos por homens e mulheres da corte de Gungunhana.

7. Passados doze dias de náusea e imobilidade, as mulheres chegam a São Tomé e são entregues ao governador da ilha. Em que vão ocupá-las? Em São Tomé havia então um mundo confuso de imigrantes, vindos dos mais variados pontos de África, das mais diversas tribos, odiando-se por vezes. Basta olharmos as listas das levas que chegavam ou partiam, para nos darmos conta dessa variedade. Em comum, tinham apenas a cor da pele; e o trágico destino da falta de trabalho. Falavam dialectos diferentes e desconheciam-se entre si. Foi para o meio desta confusão que as rainhas destronadas foram levadas. Que destino lhes foi dado? A Folha do Povo, de 13 de Novembro desse ano de 1896, e respondendo a vários jornais de Lisboa, dá-nos algumas informações. Recordemos que, juntamente com as sete mulheres de Gungunhana, se encontravam mais três, as do régulo Zixaxa, suas companheiras de infortúnio desde o início do exílio. Eram, pois, dez ao todo. Segundo o citado jornal, oito destas mulheres estavam colocadas no hospital civil e militar; e as duas restantes no palácio do Governo. Constava pouco ou quase nada fazerem; e o articulista lamenta que, dado a falta de braços em São Tomé, as não tenham empregado “em qualquer trabalho útil,mediante remuneração condigna”. Vem a propósito lembrar que se tratava das mulheres grandes do régulo, isto é, as de mais elevada categoria social na hierarquia feminina, que tinham ao seu serviço as mulheres pequenas, espécie de ecónomas encarregadas de dirigir os bandos de escravos a trabalhar na corte. Eram, portanto, rainhas que nada costumavam fazer e sem hábitos de trabalho. J. F. Marques Pereira, na obra intitulada No Tempo de Gungunhana, publicada três anos mais tarde (1899), diz que as mulheres foram para São Tomé “servir de mancebas, em amiganços baratos, e para acarretar pedras”. E António Pedro de Vasconcelos no filme Aqui d’ El-Rei, faz dizer a uma das personagens que elas foram levadas para um “bordel do exército”. Não encontramos documentos oficiais que nos permitam negar ouconfirmar tais informações. Tratava-se de mulheres que só interessaram enquanto rainhas de um reino cobiçado pelos europeus. Destronado e preso o soberano, perdidas as esposas no meio da massa anónima santomense, o governo, não vendo nelas qualquer perigo, deixava-as cair no esquecimento.

8. Em São Tomé, as rainhas africanas dos reinos de Gaza e da Zixaxa foram ultrapassadas e absorvidas pela história. Quinze anos de esquecimento; quinze anos de trabalho silencioso, de dor ignorada, de sofrimento mudo que levaria três delas à morte. Num silêncio de deserto, as rainhas tinham sido tornadas escravas submissas, feitas consentimento e conformismo. Enigmas de uma grandeza descaída. Mas em 1910 é implantada a república; e muita coisa vai mudar. Alguém se lembra dessas mulheres exiladas e decide que regressem ao país. Comédia eleitoralista ou desejo de reparação? Gungunhana já havia falecido em 1906. A ordem de repatriamento, em 1911, foi sem dúvida recebida com euforia; era a esperança do regresso a casa que renascia. Só que já não havia casa. Nem país. Gaza tornara-se num distrito da colónia de Moçambique. Os familiares tinham-se espalhado, cada um para seu lado, alguns presos, outros refugiados no estrangeiro. Era a desintegração progressiva dos pequenos estados indígenas e a substituição dos costumes africanos pelos europeus. Desconfiadas, assustadas, sem o elo de união que era o marido, só o medo as irmanava agora; e cada uma vai para seu lado.

9. Eram sete, regressavam quatro. As três mais vulneráveis haviam atingido o limite que desemboca na morte: Muzamussi, Dabondi e Fussi haviam ficado sepultadas em terra santomense. Patihina volta a casa, mas o medo lavra na família e ela decide fugir para o Transvaal, com o filho Tulimahanche. Foram juntar-se aos milhares de emigrados de Gaza, amigos e familiares de Gungunhana, que se haviam fixado em Spelonken. Tulimahanche seria, em 1932, o chefe de um dos dois grupos de exilados angunes que aí existiam então. Namatuco, Chlézipe e Machacha traziam filhos arranjados em S.Tomé, nos quinze anos de exílio; filhos que, nada tendo com Gungunhana, não corriam o risco de vir a ser presos pelos portugueses. Por isso não recearam em fixar-se na região onde tinham vivido anteriormente: Chaimite, Chibuto e Chai-Chai, respectivamente. Tinham cumprido plenamente o destino ancestral da mulher: resignar-se e sofrer, numa passividade submissa. Já no seu país, continuarão a cumprir o mesmo destino, como “criadas de servir”.

10. E terminamos. Com este trabalho, tivemos a intenção de dar som às vozes silenciosas de mulheres que sofreram cruelmente no todo das suas vidas, o que de mais negativo pôde haver no encontro da cultura africana com a cultura europeia. Mulheres esquecidas, relegadas para a periferia da história, quando elas estavam, afinal, bem no centro dessa história. Elas eram as rainhas do império de Gaza, onde tinham exercido uma importante função política. Elas eram as esposas do então maior potentado da África austral, pelo que pagaram com quinze anos de exílio. Moralmente mutiladas, elas foram as vítimas inocentes de um evoluir da história africana, provocado por decisões e projectos da Europa, os quais levaram a alterações sócio-políticas que as afectaram no mais fundo das suas idiossincrasias. Desfeita a sua vida privada, desagregada a sua família, estas mulheres tornaram-se o símbolo de uma África desmoronada e dividida por ideologias levadas da Europa.

*Autora de Gungunhana no Seu Reino, Gungunhana, entre outros

Fonte: The Delagoa Bay World

16-romance de Mia Couto procura desvendar a figura de Ngungunhana

“O escritor moçambicano Mia Couto revela que está escrever um romance que abordará “as construções mitológicas sobre o império de Gaza”, que se localizou no sul de Moçambique, em que pretende questionar o personagem de Ngungunhana.

“Há pinturas que são feitas (à volta da figura do imperador Ngungunhana) e a pergunta é essa: quem era esse verdadeiro personagem do Ngungunhana?”, diz Mia Couto, em entrevista exclusiva à Lusa, sobre a nova produção literária.

O escritor mais traduzido de Moçambique está, desde o ano passado, a escrever o livro, que, garante, “muito certamente não será acabado este ano”, pelo que pretende trabalhar o romance ainda sem título mais um ano.

“A grande preocupação que eu tenho é mostrar que essa História, a grande História com H maiúsculo, a história oficial de um país é sempre construída – não só no nosso caso, em todos os casos do mundo – a partir de pequenas mentiras, pequenas ilusões. A necessidade de fabricarmos grandes heróis, personagens que estão acima de um humano tem que ser de alguma maneira desconstruída”, diz.

Contudo, assinala Mia Couto, a ideia não é atacar os mitos, porque, diz, entende “que um país precisa de heróis, mitos fundadores, mas, por outro lado, é preciso que a gente saiba que eles são fabricações”.

As proezas de Ngungunhana já tinham sido narradas em livro, em 1987, pelo escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa num romance intitulado Ualalapi, que, em seis episódios, narra os excessos daquele chefe após assumir o trono do império de Gaza, substituindo o seu irmão.

“O Ualalapi foi um grande livro inspirador para este mesmo livro. Esta desconstrução da imagem que foi construída ideologicamente do Ngungunhana, quer dizer, é muito curioso, porque a personagem Ngungunhana é reconstruída do ponto da elaboração mítica, tanto pelos portugueses, como por nós, moçambicanos”, afirma Mia Couto.

O romance de Ungulani Ba Ka Khosa integra a lista dos 100 maiores romances do século passado.

No próximo romance, Mia Couto vai falar sobre as construções mitológicas sobre o império de Gaza, a partir do seu tempo, olhando para trás.

“Obviamente, eu quero questionar o tempo presente a partir dessas lições que nos deviam chegar do passado”, afirma.

MMT // VM.

Lusa – 26.02.2013″

Vídeo!

Veja também:

– Mia Couto dedica o Prémio Camões ao moçambicano.

– Japão perdoa dívida moçambicana

– Novo terminal de carga na fronteira entre Moçambique e África do Sul.

– Projectos financiados pelo BAD em Moçambique chegam a US$ 2,3 biliões.

– Moçambicanizemos a moçambicanidade

BANTOFONIA ou LUSOFONIA?

 

Por necessidade histórica de comunicação, há séculos, os africanos são poliglotas. No passado foram forçados a falar as línguas dos invasores europeus e árabes. Hoje, essas línguas passaram a ser também, as dos africanos – do norte, centro e sul do continente – do Cairo a Cape Town.
Semelhante, o processo africano de imposição linguística nas guerras intraétnicas, mas em menor escala. Pois, a história é escrita na língua dos vencedores e por eles. Por isso, o drama em Moçambique é cultural e depois político. Num contexto nacional, depende-se do português, suaíli ou inglês para comunicação. No entanto, isso não é óbice para não se aprender onde se estiver, a língua local baNto. Já o holandês Desiderius Erasmus de Roterdão (Roterodamus) do século XV-XVI preconizava que se ficava mais rico sabendo pelo menos três idiomas.

Acrescentamos, que conhecer a língua e a cultura do outro, é riqueza; é poder acrescido de conhecimento. Aproxima os povos!

(Johnny Kraveirinya 25.06.13)

Leia aqui Download AUTARCA_26 06 2013_BANTUFONIA

 

– RTP ÁFRICA talkshow 25 Junho 2013 (VIDEO)

3 pensamentos sobre “Moçambique!

  1. Telma Ferreira disse:

    soh magoa tristeza dor e total vergonha o que fizeram…onde entra o europeu entra estragos

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