Angola!

Notícias artísticas e culturais de Angola!

COMPANHIA DE DANÇA CONTEMPORÂNEA DE ANGOLA AULAS ABERTAS

Angola homenageada no FESTin 2013!

Contribua!

1-Nossa playlist no youtube:

Uma lista com vários vídeos distintos ilustrando elementos da cultura angolana que chamam a atenção de nossa nau! Se tiverem sugestões basta nos escreverem comentários sob esta página!

2 – Um pouco de música?

http://w.soundcloud.com/player/?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F38459721&show_artwork=true

3 – Poesia cantada!

“António Jacinto, (1924 – 1991) nasceu em Luanda, entre outros cargos foi Ministro da Cultura. O poeta é autor deste belo poema cantado e musicado por Ruy Mingas, um outro grande senhor da cultura angolana.

4 – Jack Nkanga!

“NKANGA JACK FERNANDO, conhecido pelo seu nome de palco JACK NKANGA, é cantor de neo soul,afro-beat,rock,funk…compositor e produtor, é conhecido pela sua sui generis e as suas habilidades vocais, influenciado por SONS EXÓTICOS…é um dos mais recentes músicos conhecido da nova sonoridade na indústria musical angolana

Jack Nkanga nasceu NKANGA JACK FERNANDO no DAMBA-UÍGE, aos 6 de fevereiro, por pais comerciantes. Viveu no Uíge até aos 6 anos de idade,devido a guerra civil no pais foi sujeitado a trocar Uíge por Luanda cidade onde cresceu e CAPE TOWN onde viveu poucos anos.

O seu talento musical foi descoberto muito cedo,entre os 3 a 4 anos de idade já compunha as suas melodias e cantava.

Atualmente trabalha no seu primeiro “LP” intitulado LOVE,DRAMA,TRAGEDY,experimentando o SOUL FUTURISTA AFRICANO,que tem como single promocional SONHADOR!”

5 – Podcast Zarpante 07! Sonoridades de Angola!

Uma viagem por novas sonoridades de Angola, onde Cláudio Silva do Caipirinha Lounge, nos conta um pouco mais sobre alguns artistas angolanos! Aline Frazão, Coca F.S.M., Leonardo Wavuti… Venham escutar esse Podcast Zarpante feito pelos parceiros do Caipirinha Lounge!

Podcast Zarpante 07 by Zarpante Lda on Mixcloud


1)    Coca o FSM – O Ano Q Vem

2)    Coca o FSM – Só Sou Faray Ninguém Acreditou

3)    Aline Frazão – Olhar Adiante

4)    Aline Frazão – Primeiro Mundo

5)    Leonardo Wawuti – Sintam-se

6)    Leonardo Wawuti – Entre o Mim e o Eu

7)    Keita Mayanda – Exist¬ência

8)    Keita Mayanda – A Idade da Razão

9)    Nástio Mosquito – Bebi Beberei Bebendo

10)    Nástio Mosquito – Não sei se vou te amar

6 – SONA: OS DESENHOS NA AREIA

“Os sona (singular lusona) são desenhos feitos na areia pelo povo Tchokwé que habitam o Nordeste e Leste de Angola e países limítrofes (Rep. Democrática do Congo e Zâmbia).  Outrora, os sona eram comuns a outras áreas geográficas de Angola mas foram desaparecendo e também hoje os desenhos na areia dos Tchokwé correm o mesmo destino. Há cada vez menos pessoas a desenhá-los. O matemático Paulus Gerdes,  descobriu neles propriedades matemáticas notáveis, por exemplo no domínio da Análise Combinatória e editou um pequeno livrinho que nos ensina a executar sona e também nos explica esta notável tradição Tchokwé. Eu tenho um exemplar em língua inglesa “Drawings from Angola”, não sei se existe em português mas creio que há uma versão brasileira.
O Mito Tchokwé:
Um dia o Sol foi visitar Deus. Deus ofereceu ao Sol uma galinha e disse-lhe: “Regressa de manhã antes de te ires embora”. De manhã a galinha cacarejou e acordou o Sol. Quando o Sol revisitou Deus, ele disse-lhe: “Não comeste a galinha que te dei para o jantar. Podes então ficar com a galinha mas deves regressar aqui todos os dias.” Daí a razão porque o Sol circula a terra e nasce todas as manhãs.
A Lua também foi um dia visitar Deus e também recebeu uma galinha como presente. De manhã a galinha cacarejou e acordou a Lua e Deus voltou a dizer-lhe: “Não comeste a galinha que te dei para o jantar. Podes então ficar com a galinha mas deves regressar aqui em cada vinte e oito dias.” Daí a razão porque a circulação total da Lua dura vinte e oito dias.
Um homem foi visitar Deus recebendo também uma galinha como presente mas o homem estava com fome depois de tão longa caminhada e comeu parte da galinha para o jantar. Na próxima manhã já o Sol estava bem alto quando o homem acordou. Comeu o resto da galinha, visitando Deus em seguida. Deus disse-lhe: “eu não ouvi a galinha cacarejar esta manhã.” O homem com certo receio respondeu: “eu tive fome e comi-a.” “Está bem,” disse Deus, “mas ouve, tu sabes que o Sol e a Lua estiveram aqui e nenhum deles matou a galinha que lhes ofereci.” Essa é a razão que nem o Sol nem a Lua morrerão um dia. Mas tu mataste a tua galinha e assim deves morrer como ela. Porém, à tua morte, deves regressar aqui outra vez.”

“E assim é!”  Fonte

Um lusona

Links sobre os Sona:

Links encontrados no blog  seguinte: http://amateriadotempo.blogspot.fr/

7- Angola: a verdade sobre a guerra civil!!

8- Refugiados angolanos no Brasil:

“O Diário Oficial da União publicou na última sexta-feira (26), as novas regras do Ministério da Justiça que definem como deve ser feito o pedido de residência permanente no Brasil por refugiados de Angola e da Libéria. O pedido é necessário porque o Ministério da Justiça suspendeu a condição de refugiados dos dois grupos, orientado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), porque os conflitos reconhecidos como de risco para eles terminaram nos dois países.

Com a residência permanente, angolanos e liberianos, que estavam nessa situação, poderão se manter regulares no Brasil. Os estrangeiros terão prazo de 90 dias para solicitar o registro na Polícia Federal. Eles precisam entregar declaração reconhecida em cartório de que não respondem a processos criminais, inquéritos policiais, nem sofreram condenação penal no Brasil e no exterior.

Para obter a permissão de permanência no Brasil, o refugiado deve ainda se enquadrar em uma das seguintes condições: morar no país há pelo menos quatro anos, ser contratado por instituição registrada no Ministério do Trabalho, ter capacitação reconhecida por um órgão da área pertinente ou ter um negócio estabelecido com capital próprio. Menores de 18 anos terão que se apresentar acompanhados pelos pais.

De acordo com o Ministério, vivem hoje no Brasil 1.688 angolanos e 258 liberianos. O país abriga 4.656 refugiados, a maioria do continente africano.”

Fonte: Opera Mundi

9- Em Angola, mulheres também fazem músicas de intervenção e pedem melhorias para o país

Khris MC

“Medo e censura fazem com que muitas rappers parem de cantar ou não sejam conhecidas. Mesmo assim, elas ainda estão ativas na busca por uma Angola melhor.

Elas são mulheres comuns: trabalham, estudam, cuidam da casa, da família… No entanto, além da vida pessoal, elas também dedicam parte do seu tempo à luta por uma Angola melhor por meio da música. São as rappers angolanas, que se destacam por não se calarem diante dos problemas, do preconceito, da falta de liberdade de expressão. Quem acha que o movimento hip hop do país não conta com a participação das mulheres, engana-se. Mesmo que muitas não apareçam nos meios de comunicação social ou não tenham CDs gravados, isso não significa que elas estejam caladas diante da realidade do seu país. E a maioria das MCs sabe bem o que quer: uma Angola diferente, mais justa, com mais oportunidades para seus habitantes.

Por isso, elas cantam a miséria, a repressão, a política, os abusos contra a mulher… Elas querem mudanças e, para isso, desabafam e fazem reivindicações por meio da música de intervenção. E para isso não há idade. A estudante de direito Cristina Francisco Gouveia – ou como é conhecida no meio hip hop, Khris MC – tem apenas 21 anos e já sabe bem o futuro que quer para seus conterrâneos.

“Eu tenho na música a forma de expor minha opinião sobre os temas sociais, sobre o meu país. Eu vivo cá, eu sou de cá, então eu quero que as coisas melhorem, para os meus filhos viverem num país justo”, conta Khris MC.

Repressão contra a música de intervenção

Khris MC é apenas uma entre tantas outras mulheres que fazem música de intervenção em Angola. Poucas, no entanto, são conhecidas no meio musical, talvez por conta da repressão, conta a rapper. “Os temas que nós escolhemos para as músicas são mais de intervenção social, e, por isso, acho que há o bloqueio, de certa forma. Somos menos comerciais, somos mais para palavras, por isso o bloqueio, por ainda não haver tanta liberdade, ou a liberdade como deveria. Acho que é por isso que não há essa notoriedade, porque creio que há mais mulheres que fazem músicas assim, desse caráter mais interventivo, menos dançante, como também há homens”, diz.

MC Afrodyth faz parte do movimento hip hop há 16 anos MC Afrodyth faz parte do movimento hip hop há 16 anos

Outra rapper que faz parte da cena hip hop há 16 anos é MC Afrodyth. Hoje, com 28anos, a educadora infantil de nome de batismo Luciana Tchiela Manuel dos Santos, lembra o motivo que a levou entrar para o mundo do rap.

“Eu acho que dentro do movimento hip hop não há discriminação, nós nos tratamos como uma única família. Quem tem pode ajudar o outro, é uma irmandade. É um mundo claro, onde a gente tem e faz, não é onde a gente fala, fala e não faz nada.”, conta.
E foi a vontade de fazer algo pela sua terra, que começou a cantar, na década de 1990. Era uma época de guerras, de fome, em que as pessoas, ao invés de irem para a escola, ficavam na esquina à espera da próxima vítima, da próxima pessoa a ser assaltada. E foi também neste período, depois de passar por um trauma pessoal, que a jovem decidiu que queria dar um novo rumo à sua vida e ajudar a mudar a história da sua nação.

“Eu vivi em uma época de guerra em minha província, no Huambo. Foram alguns meses de guerra que foram um horror. Eu vi meu tio ser morto na porta de casa, tudo porque ele era chefe de uma empresa estatal. Foi um horror mesmo… Foi morto pelo partido da oposição. E isso sinceramente marcou-me muito. E como era uma maneira da gente poder se expressar, entrei para o rap”, recorda-se a jovem.

“Mandavam a gente lavar louça, lavar roupa”

O desejo das jovens angolanas do rap é fazer com que a música chegue aos ouvidos de muitas pessoas e as façam refletir. No entanto, nem sempre isso é possível. O nome da barreira: censura. Khris MC sabe bem o que é isso.

“Dependemos muito da internet para divulgarmos nossos trabalhos, publicar os vídeos e as músicas. Tenho amigos radialistas e para que eles passem músicas minhas na rádio, eles selecionam muito, procuram escolher as de caráter social, menos interventivo. E se tem alguma palavra que, de alguma forma, é um pouquinho mais interventiva, eles dizem que não vão poder passar para não correrem riscos”, aponta a cantora.

Khris MC diz que as músicas de intervenção são censuradas nas rádios angolanas Khris MC diz que as músicas de intervenção são censuradas nas rádios angolanas

E MC Afrodyth complementa. “Muitas das vezes, as músicas não são levadas para a televisão, para a rádio. Muitas das vezes, as músicas são cortadas, nem chegam à metade ao tocar nas rádios. Quando ouvem alguma coisa política, cortam logo.”
E não só as músicas são censuradas. Até as rappers sofrem preconceito e até são impedidas de entrar em certos locais, como lembra MC Afrodyth.

“Já fui barrada ao tentar entrar em certos sítios. Diziam ‘essa menina não pode entrar aqui’. Mandavam a gente lavar louça, lavar roupa, diziam que o rap era coisa para homem, só pelo estilo de música que eu fazia, que é o rap de intervenação social. Fui barrada mesmo. Há sítios que eu não entrei, há sítios que eu não pude frequentar… Fui barrada até em programas televisivos”, conta.

Medo de serem espancadas em manifestações

Mesmo com a repressão, elas não se deram por vencidas e continuaram a cantar músicas de protestos. Atitude que muitos não ousariam ter. Até mesmo opinar em Angola, em certas ocasiões, soa como uma ameaça, como ressalta Khris MC, numa referência às eleições gerais do país, que acontecem no dia 31 de agosto.

“Nós, o povo angolano, temos conhecimento da nossa covardia. Nós, às vezes, temos uma opinião contrária. Por exemplo: aqui eu ando nas ruas e ouço as pessoas falarem, reclamarem, mas se calhar, na hora de votar, vão tomar a decisão errada. Acreditamos que a oposição já tem ouvido o povo reclamar. O povo está farto da má distribuição de renda, dessa má governação, desse abuso do poder, dessa democracia-ditadura. Na verdade, nós aqui não conseguimos ter a liberdade que a democracia por direito nos dá. Todo mundo tem medo de falar, porque eles acreditam que vão lhes criar dificuldades na vida, no trabalho, se tiverem opiniões contrárias.”

MC Afrodyth também reconhece que as mulheres não são vistas em manifestações populares à toa. “Por um lado, se calhar, é o medo de ser espancada, porque nenhuma mulher gosta de ser espancada. Por outro lado é a covardia de não ter a coragem de enfrentar a realidade, de falar que isso deve ser assim ou assim. Então, são duas coisas que casaram-se nesse meio que é o medo e a covardia.”

A diferença entre o homem e a mulher está apenas no sexo

As dificuldades não se podem transformar em barreiras, alertam as rappers. E, por isso, elas deixam uma mensagem às jovens que se interessam pelo estilo musical e pelas palavras que podem levar o outro à reflexão, o sentimento de mudança. Khris MC deixa o seu recado e diz que, sim, é possível, para uma mulher, fazer parte do movimento hip hop.

“Não há nenhuma impossibilidade, porque entre a mulher e o homem, a diferença está no sexo. As mulheres, principalmente em África, são donas de casa, trabalham, cuidam dos filhos, da família, ainda estudam… Essas tarefas todas libertam muito a mente da mulher. Eu não vejo impossibilidade nenhuma da mulher fazer rap ou qualquer coisa que seja. As impossibilidades estão dentro de nós, na nossa mente, no nosso interior”.

Eu não vejo impossibilidade da mulher fazer rap ou qualquer coisa que seja, aponta Khris MC “Eu não vejo impossibilidade da mulher fazer rap ou qualquer coisa que seja”, aponta Khris MC

Mc Afrodyth também incentiva as meninas a se tornarem mestres nas palavras musicalizadas. Mas com o pé no chão, sempre. “É possível, sim. Elas podem, sim. Mas há pessoas que não gostam de investigar. Antes as mulheres investigavam mais, liam a história, a geografia e a gente falava de tudo um pouquinho. Só que, agora, as mulheres só querem entrar no meio musical, cantar e subir logo para a fama. E as coisas não são feitas assim. É preciso a gente investigar de onde a gente veio, quem somos, para onde vamos e tudo o mais o que queremos para nós e para o futuro.”

No hip hop, não importa se a música de intervenação saia da boca de um homem ou de uma mulher angolana. O que importa é o contributo que cada um pode dar na busca por um país melhor.”

Fonte: http://www.dw.de/not%C3%ADcias/s-7111

Autora: Melina Mantovani
Edição: António Rocha / António Cascais

10- Expressões de Angola. DICIONÁRIO

  • Editado no Facebook por Alipio Mendes
    Expressões e Palavras Utilizadas por Nós
    A B C D E F G I L M P Q R S T V W Z
    A ACA – Expressão que significa, de acordo com a entoação ou situação, enfado, repugnância, surpresa; alegria, alívio, espanto.
    AJINDUNGADO – Temperado com jindungo, picante.
    ALAMBAMENTO – Dote do noivo à família da noiva, regra geral em gado e outros animais domésticos, vestes, mantimentos ou dinheiro. O alambamento, condição fundamental para tramitação do noivado, é tratado entre as famílias dos nubentes, mesmo não se tratando do primeiro matrimónio. As regras variam ligeiramente, de etnia para etnia mas, princípio universal, a família da noiva obriga-se a devolvê-lo caso não se verifique a consumação do casamento ou em caso de divórcio. Também pode ser entendido como “tributo de honra prestado pelo noivo à família da noiva”.
    AMIGO DA ONÇA – Fraco amigo, amigo de “Peniche”.
    ANGOLAR – Antiga moeda que circulou em Angola entre 1928 e 1957 (a sua recolha terminou em 31 de Dezembro de 1959), tendo sido substituída pelo escudo.
    ANGOLENSE – Angolano; o natural, o habitante ou o que pertence ou se refere a Angola.
    ANHARA – Xana, planície arenosa, correspondente africano da charneca, na região central de Angola, atravessada por cursos de água, com vegetação rasteira formada principalmente por gramíneas e arbustos de pequeno porte, podendo apresentar-se alagada. O ongote (planta leguminosa arbustiva, com folhas compostas e flores minúsculas em pequenos cachos, característica da anhara angolana)é a típica personalidade vegetativa da anhara.
    ARMADO EM CARAPAU DE CORRIDAS – Armado em esperto, armado aos cucos.
    APAGAR O MAÇARICO – Morrer, lerpar, bater a caçuleta, fazer uafa.
    topo
    B
    BAILUNDO – Reino do planalto central de Angola, fundado cerca de 1700 por Katiavala. Município e cidade da província do Huambo. Povo Vambalundu pertencente ao grupo etnolinguístico Ovimbundo . A designação Bailundo estendeu-se a todo o grupo. O falante de Umbundo; aquele ou o que pertence ou se refere a este grupo ou região; naturais do Huambo e Bié.
    BALEIZÃO – Gelado, sorvete; “Resultou do apelido de um fabricante desse gelado, o qual, em 1941, se havia estabelecido na cidade de Luanda.”
    BAMBI – (Cephalophus mergens) Pequeno antílope, também conhecido por cabra-do-mato, de pelagem castanha, com uma mancha mais escura ao longo da coluna dorsal; não ultrapassa 1m de comprimento, 55cm de altura ao garrote, 20cm de cauda e chifres direitos e delgados com 9cm de comprimento. Vive em matas fechadas, onde existam cursos de água próximos.
    BANGA – (Di-banga = envaidecer-se) Ostentação, presunção, vaidade; distinção, elegância, garbo. Causar sensação.
    BANZADO – Pensativo, admirado, assombrado, espantado, maravilhado.
    BATUCADA – Acto ou efeito de batucar; percussão do batuque; dança ou festa com batuques; barulho de batuques.
    BATUCAR – Fazer soar ou tocar o batuque; dançar ao som do batuque. Dar pancadas ou bater com as mãos num qualquer objecto a ritmo cadenciado. Bater aceleradamente (o coração).
    BATUQUE – (Ba atuka = local onde se salta e pula) Tuka saltar, pular. Instrumento de percussão; bombo, tambor. Apresenta formas e designações variadas de acordo com a região, aspecto, material utilizado na sua confecção e som produzido. O som produzido pela percussão do instrumento. Dança, divertimento ou festa com acompanhamento de batuques. Esta é a concepção mais moderna de batuque. Pode ter acompanhamento de vocalizações harmónicas, cânticos de cariz social, ou refrães apenas poéticos. Na verdade, o batuque é uma espontaneidade anímica dos povos africanos. Começou por ser uma manifestação que acompanhava os ritos fúnebres, tendente “à satisfação da alma a que se propicia semelhante folguedo, a fim de lhe minorar a tristeza, pelos entes que deixou. Nesta conformidade, as danças obituárias não constituem, como ordinariamente se julga, uma natural manifestação de folia, antes uma forma de expressão religiosa… Os batuques organizam-se de noite, geralmente começando à tardinha. Se respeitam a óbitos, podem durar noites inteiras, mesmo um mês.”
    BEBER ÁGUA DO CU LAVADO – Beber uma pretensa água que deixava um homem caidinho de amores.
    BICANJOS – subúrbios, aldeias.
    BICHINHO DO MATO – Pessoa muito acanhada.
    BICUATAS – Tarecos.
    BITACAIA – Espécie de pulga criada (nos dedos dos pés).
    BICO-DE-LACRE – ( Estrilda astrild angolensis ) Ave passeriforme da família dos Estrildídeos, é um pequeno pássaro com 11,5 cm de comprimento originário de Angola. Devido à sua grande capacidade de sobrevivência em cativeiro emigrou para Portugal e Brasil, após a descolonização, foi solto na natureza e adaptou-se perfeitamente, integrando hoje a avifauna daqueles países. A plumagem é castanho-amarelada e tons de bege no peito, dorso e asas, peito com listras onduladas de branco e preto, ventre rosado, cauda vermelho-escura e bico cor de lacre. Apresenta uma banda ocular vermelha, larga e escura no macho e desmaiada e mais estreita ou inexistente na fêmea. Esta é mais pequena do que o macho e a plumagem é mais vistosa no macho e desmaiada na fêmea. O bico das crias é negro à nascença, torna-se alaranjado na primeira muda e só em adulto adquire o tom que dá o nome à espécie. Desloca-se em bandos numerosos que chamam a atenção pelos gritos estridentes incessantes. Vive em habitats abertos de silvados, savanas de gramíneas e espaços urbanos ajardinados. Alimenta-se no solo, de grãos, sementes e de toda a espécie de insectos, estes principalmente na altura de alimentação das crias. O ninho é construído no solo no meio do capim alto ou sob arbustos. É redondo e provido de um túnel de acesso, construído com raminhos, penas, palha e ervas. O macho constrói o abrigo e a fêmea dá-lhe o acabamento final, transportando penas e capim para o acolchoamento onde irá fazer a postura de 4-6 ovos que serão chocados pelos dois membros do casal, alternadamente de 2 em 2 horas, passando ambos a noite no ninho, durante cerca de 12 dias. Duas semanas depois de nascer as crias estão aptas a voar, embora continuem a ser alimentadas, durante algum tempo mais, pelos progenitores. Designa-se este por bico-de-lacre-comum já que existe outro bico-de-lacre de Angola; é o Estrilda thomensis , o bico-de-lacre-cinzento-de-angola, que tomou esta designação (thomensis) por se julgar, erradamente, ser originário de São Tomé e Príncipe. Difere do bico-de-lacre-comum essencialmente pelo colorido da plumagem, mais escura e sem as listras onduladas.
    BISSONDE – Formiga gigante que ferroava nas pessoas desprevenidas.
    BOMBÓ – Pedaços de mandioca descascada e demolhada. Depois de fermentada ou seca é moída, ou pisada, dando a fuba de bombó. Também se come assado, como acompanhamento para qualquer tipo de alimento.
    BOTECO – Botequim, bar de fracas qualidades.
    topo
    C
    CABAÇA – Fruto da cabaceira, semelhante à abóbora, em forma de pêra, apresentando na parte superior uma espécie de gargalo pronunciado; pode ter a forma de um 8, em que o bojo inferior é maior do que o superior, estando separados por um estrangulamento. Em Angola tem uma grande importância ancestral pois sempre foi o recipiente por excelência para armazenamento de líquidos, depois de seco e oco.
    CABACEIRA – ( Lagenaria siceraria sin. Cucurbita spp) Planta anual vigorosa, trepadeira ou prostrada, da família das Curcubitáceas, que pode alongar-se por 5m de comprimento. Apresenta flores tubulares com 5 pétalas, brancas ou amareladas, com 4,5cm. É originária de África, embora hoje esteja também presente na Europa, Ásia e América. O fruto, a cabaça, é muito utilizado como recipiente.
    CABEÇA-DE-PEIXE – (ou CABEÇA DE PUNGO) São epítetos por que são conhecidos os naturais ou habitantes do distrito de Moçamedes / província do Namibe. O bairrismo das populações pretende as águas separadas: os alexandrenses (naturais de Porto Alexandre) reivindicam a designação cabeças-de-peixe e os moçamedenses cabeças-de-pungo. As designações derivam do facto destas populações viverem essencialmente da pesca.
    CABRA-DE-LEQUE – ( Antidorcas marsupialis angolensis ) Mamífero artiodáctilo da família dos Bovídeos, a cabra-de-leque, é uma pequena gazela de 75 cm de altura, 1m de comprimento para um peso de 40-50 kg. É uma das gazelas mais velozes, podendo a atingir os 90 km/h e pode, com facilidade, dar saltos de mais de 5 m. A pelagem é castanha-avermelhada, com uma barra castanha-escura nas laterais junto à delimitação do ventre, que é branco. A alvura do ventre prolonga-se pela parte interna das patas. A garganta é branca bem como a face, que apresenta uma lista escura que se prolonga dos olhos ao nariz. No final do dorso onde nasce a cauda, branca, apresenta um triângulo de longos pêlos brancos que se abrem em leque durante a corrida, empreendida sempre que pressente algum predador. O leque destaca-se, brilhante, na poeira levantada pela manada. Esta acção, sempre acompanhada de vistosas cabriolas que mais parecem elegantes passos de ballet, servem para indicar a posição aos companheiros que seguem na retaguarda. O leque abre-se também, dramaticamente, no momento da morte. Os chifres, em forma de lira de pontas convergentes, são pequenos, não ultrapassam os 50 cm, apresentam anéis bastantes vincados e são mais desenvolvidos no macho sendo que na fêmea são mais finos e não apresentam convergência nas pontas. A fêmea atinge a maturidade sexual entre os 7 e os 12 meses, ao passo que o macho a alcança aos 2 anos de idade. O período de gestação é de 6 meses. Vive nas savanas abertas e regiões semidesérticas. Alimenta-se da parte aérea das plantas, de raízes e tubérculos. Se os vegetais de que se alimenta contiverem, no mínimo, 10% de humidade, o animal não necessita de beber.
    CACETE – Pau que serve para dar cacetadas.
    CACIMBA – Cova, lagoa ou poço que recebe água das chuvas; buraco aberto para se procurar ou armazenar água. Estação fria dos trópicos; chuva miudinha, orvalho, relento.
    CACIMBADO – Quem ou o que recebeu cacimbo; húmido, molhado; enevoado, nublado. Neurótico, perturbado, triste, tristonho; aquele que sofre de perturbações psíquicas, mormente dos traumas provocadas pela guerra.
    CACIMBO – É poca das chuvas, Inverno. Humidade própria dos climas tropicais e equatoriais; chuva miudinha, orvalho, relento; época das chuvas.
    CAÇULA – O filho mais novo.
    CADA CARANGUEJO NO SEU LUGAR – Cada macaco no seu galho.
    CAFECO, UFEKO ou UFEKU – Mulher jovem, púbere.
    CAGAÇO – Medo, muito medo.
    CALCINHA – Pessoa toda não-me-toques.
    CALEMA – Fenómeno natural da costa ocidental africana, caracterizado por grandes vagas de mar. A ondulação forma-se no alto-mar e a ressaca origina correntes muito fortes que, dirigindo-se para a costa, rebentam estrondosamente, provocando grandes estragos.
    CALHAU COM OLHOS – Pessoa com muito poucas capacidades intelectuais, pouco inteligente.
    CALONJANDA – Expressão que quer dizer que alguém tem os pés tortos (virados para fora).
    CALULU – R ama da batata-doce. Prato típico de guisado à base de peixe ou carne, tendo como ingredientes (calulu de galinha) cebola, tomate, pau-pimenta, louro, jindungo , couve, quiabo , beringelas, e óleo de palma, engrossando-se o molho com farinha de trigo. Acompanha-se com arroz. Guisado de peixe, fresco e seco, tendo como ingredientes quiabo, abóbora, tomate, cebola, rama de cará ou de mandioca , jimboa e óleo de palma. É acompanhado de pirão ou funje . “Esta designação, usual entre as populações do Sul e Centro de Angola, corresponde, pela identidade da iguaria, à de funje de azeite de palma.
    CAMACOUVE – Comboio de mercadorias que efectuava paragens em todas as estações e apeadeiros transportando correio e materiais diversos.
    CAMANGA – Diamantes.
    CAMANGUISTA – Negociante de diamantes.
    CAMAPUNHO – Pessoa desdentada dos dentes da frente.
    CAMBUTA – Pessoa de baixa estatura, um quase anão.
    CAMUECA – Mal-estar, doença.
    CAMUNDONDO – Natural de Luanda. Rato.
    COMBOIO MALA – Comboio do Caminho de Ferro de Benguela que transportava os passageiros entre a cidade do Lobito e Vila Teixeira de Sousa, mais tarde Dilolo.
    CANDINGOLO – Bebida confeccionada pelos nativos indígenas, sem qualquer qualidade mas com muito álcool, uma espécie de cachaça muito mais forte.
    CANDENGUE – Criança, miúdo, rapaz; o irmão mais novo.
    CANDINGOLO – Bebida licorosa preparada a partir da hortelã-pimenta. “Em sua preparação, entram normalmente as seguintes quantidades de ingredientes: 1 litro de álcool puro, 2 de água, 0,5 de açúcar branco e essência de hortelã-pimenta. Reduzido o açúcar a calda, junta-se esta, depois de esfriada, ao álcool, ministrando-se por fim, a essência.”
    CANDONGA – Permuta, contrabando.
    CANDONGUEIRO – Aquele que faz candonga.
    CANGALHO – Carro velho.
    CANGONHA – Liamba ou Diamba .
    CANGULO – Carrinho de mão.
    CANHANGULO – Arma antiga de fabricação caseira (regra geral).
    CANIÇO – Cana delgada.
    CAPANGA – Esbirro; guarda-costas, indivíduo que faz a segurança pessoal de alguém.
    CAPIM – Nome genérico por que são conhecidas as plantas gramíneas e ciperáceas, geralmente forraginosas; chegam a cobrir enormes extensões de terreno e atingem altura relativamente elevada após as chuvas, formando grandes pastos naturais; erva; relva.
    CAPINA – Capinação, Monda, Sacha. Acto ou efeito de capinar; desbaste do capim.
    CAPINAR – Mondar, Sachar. Cortar o capim, limpar o terreno de capim, mondar.
    CAPINZAL – Terreno coberto de capim.
    CAPOTA – (Numida meleagris) A capota, pintada, galinha-de-angola ou galinha-do-mato é uma ave Galiforme da família Numididae, oriunda de África, que tem a particularidade de apresentar a cabeça nua de penas, com uma crista ou capacete no topo e barbelas por baixo da base do bico. Estes apêndices servem, muito provavelmente, para a ave regular a temperatura do cérebro. A plumagem é cinzenta prateada com pintas brancas. Prefere os habitats semiáridos e a savana, mas também pode ser vista na orla de bosques ou florestas É uma ave monogâmica embora se junte em grandes bandos, fora da época de reprodução. Alimenta-se no solo e abriga-se nas árvores, sempre que isso é possível. O nome específico, bem como as pintas que lhe cobrem as penas por todo o corpo, estão ligadas à mitologia grega: as meleágridas, irmãs do herói Meleagro que morre após matar a própria mãe, ao chorarem a sua morte cobrem-se de lágrimas e são transformadas em aves cuja plumagem se cobre de pintas lacrimais. É uma ave de fácil domesticação.
    CAPUTO – Português; a Língua Portuguesa; aquele ou o que pertence ou se refere a Portugal.
    CARA DE CU À PAISANA – Cara de traseiras de tribunal, cara de poucos amigos.
    CARCAMANO – Sul-africano.
    CARDINA – Bebedeira, pifão, pifoa, piruca, piela.
    CARREIRO – Caminho estreito aberto no mato.
    CARIANGO – Biscato.
    CARÁ – (pomoea batatas) Nome popular porque é conhecida, nas regiões do Sul de Angola, a batata-doce. Utiliza-se na alimentação de duas formas: assado ou cozido, acompanhando uma grande variedade de pratos, ou isoladamente.
    CASA DE PAU-A-PIQUE – Cubata feita com paus e barro.
    CASQUEIRO – Pão
    CASSANJE – (também Ka + sanji = galinha pequena) Vale na região de Malanje, a zona angolana mais produtora de algodão. A “Baixa do Kassanje” é célebre pela cultura intensiva de algodão.
    CATATUA – Arara.
    CATUITUI – ( Uraeginthus angolensis) Pequena ave Passeriforme com 11,5 cm.
    CAVÚLA – Mulher tchingandji.
    CAXIPEMBE – Bebida alcoólica resultante da fermentação de batata-doce ou de cereais e posterior destilação.
    CAZUMBI – Alma de um antepassado, alma penada, espírito errante; feitiço.
    CELHA – Pipo de vinho cortado ao meio, e que servia para se tomar banho ou para lavar roupa.
    CHAFARICA – Pequeno estabelecimento.
    CHICORONHO – Natural de Sá da Bandeira.
    CHINGANJIS – (ou Tchinganjis) Homens vestidos com fatos feitos de palha e outros materiais, com máscaras e que diziam ser sobrenaturais.
    CHINGUE – Cubata, palhota. Nalgumas circunstâncias era uma aldeia de palhotas.
    CHIPALA – Cara, face, rosto.
    CHIPRULENTO – Pessoa ciumenta.
    CHITACA – Fazenda, roça.
    CHITAQUEIRO – Dono da chitaca.
    CHORAR LÁGRIMAS DE CROCODILO – Chorar falsas lágrimas.
    CHURRASCO – Frango assado na brasa.
    CIPAIO – Polícia africano, ordenança adstrito às Administrações de Concelho e aos Postos Administrativos. Pertenceu aos Serviços de Administração Civil e actuava junto da população autóctone. O cargo era desempenhado por naturais.
    CONDUTO – Berera, molho para acompanhar o pirão
    COTÓTÓ – Unha de fome, forreta.
    CUANHAMA – Povo pertencente ao grupo etnolinguístico Ambó, de língua Tchikwanyama uma das línguas étnicas de Angola; o falante desta língua; aquele ou o que pertence ou se refere a este povo. Uma antiga lenda pretende explicar a origem da designação Ova-kwa-nyama, “os da carne”: “Uma pequena fracção da tribo donga deslocou-se para a floresta, à procura de víveres. Encontrou tanta abundância de caça e de peixe que resolveu fixar-se ali. Quando deram esta notícia ao soba, ele enviou emissários, ordenando-lhes que regressassem à terra tribal. A aludida fracção da tribo não quis, porém, obedecer à ordem emitida pelo soba. Este acabou por dizer: “Deixai-os lá com a sua carne”.
    CUANZA – (ou Kuanza) O grande rio de Angola.
    CUBATA – Casebre de barro seco, coberto de capim seco, folhas de palma ou mateba. Pode, também, ser de tábuas de madeira ou de aproveitamento de chapas metálicas. Também pode variar a cobertura, principalmente nas zonas urbanas onde se utiliza muito a folha de chapa zincada.
  • CUCA – Marca de cerveja.
  • CÚRIA – Comida, refeição.
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    D
    DENDÉM – (ou Dendê ) Fruto (drupa) do dendezeiro, de cor laranja-avermelhado quando maduro, composto por uma capa fibrosa (epicarpo), uma noz e uma amêndoa da qual se extrai o óleo ou azeite de dendém, muito utilizado em culinária. Pode ser consumido como petisco, cozido ou assado. Em doçaria prepara-se uma iguaria macerando o fruto em açúcar e erva-doce. Azeite de dendém, óleo de dendém, azeite de palma ou óleo de palma . O óleo ou azeite preparado a partir do dendém.
    DENDEZEIRO – (Elaeis guineensis) Variedade de palmeira originária da África tropical que atinge 20-25m de a. Do seu fruto, o dendém, prepara-se o azeite ou óleo do mesmo nome. As folhas são utilizadas na cobertura de habitações tradicionais e da sua seiva prepara-se o malavo.
    DIAMBA ou Liamba – (Cannabis sativa) Planta herbácea da família das Canabináceas, variedade de cânhamo, cujas flores e folhas, depois de secas, são utilizadas fumando-se como droga alucinogénia. A droga fabricada a partir desta planta. O seu consumo provoca habituação.
    DÁ-ME LICENÇA QUE O TOPE? – Expressão usada no gozo, pondo os dedos indicador e médio em círculo, no olho
    DOIS E QUINHENTOS – Vinte e cinco tostões.
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    E
    EMBALA – (banza, libata, quimbo ou sanzala) Aldeia ou sanzala do soba; palácio real, morada do chefe supremo. Genericamente na embala vivem o soba, as suas mulheres, filhos, noras e respectiva descendência. As casas estão dispostas em rectângulo ou círculo formando um terreiro interior onde existe, pelo menos, uma árvore, geralmente uma mulemba, à sombra da qual o soba se reúne com o conselho de anciães para resolução de conflitos e administração da justiça.
    ERVA SANTA MARIA – Erva medicinal.
    ESPIRRA CANIVETES – Pessoa muito magra.
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    F
    FAROFA – Farinha-de-pau preparada a frio como salada: cebola picada, azeite, vinagre e água suficiente para descompactar. Original e tradicionalmente o vinagre é substituído por óleo de palma.
    FAZER CAPIANGO – Fazer gamanço, rapinar.
    FEIJÃO KALONGUPA – Feijão encarnado.
    FEIJÃO MACUNDE – Feijão-frade, “ciclistas”.
    FRUTA-PINHA – Variedade de anona ou Sape-sape.
    FUBA – Farinha moída em grão muito fino, a partir de batata-doce, mandioca, massambala, massango ou milho. Farinha de bombó, farinha de mandioca fermentada. Farinha de quindele, farinha de milho.
    FUBEIRO – Comerciante que vende fuba; comerciante reles; pessoa reles.
    FUNJE – Pasta de farinha de mandioca. Prepara-se batendo ou amassando a farinha com o luico, em água a ferver, até adquirir uma consistência pegajosa e sedosa. É acompanhado com caldo de peixe fresco, peixe seco ou muamba de carne, legumes e um molho próprio (para a confecção do funje ver FUNGERARD).
    FUNJADA – Funje com um bom conduto.
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    G
    GABIRU – Malandrão, sacripanta, vígaro.,
    GÂMBIAS – Pernas altas.
    GANDULO – Malandrão.
    GINGUBA – ( Macoca , Quifufutila ou Quitaba) Amendoim, planta da família das Faseoláceas ou Leguminosas, também conhecida por amendoim. As folhas apresentam quatro grandes folíolos ovados. As flores são amarelas e reunidas em espiga nas axilas das folhas. Depois de fecundada, a estrutura que envolve o ovário alonga-se e penetra no solo, onde amadurecem os frutos, vagens oblongas com 1-4 sementes. As sementes são comestíveis e delas se extrai um óleo alimentar. É utilizada na alimentação, torrada ou cozida, em variados pratos e em doçaria.
    GOMA – Instrumento musical de percussão; batuque, bombo, tambor. Tradicionalmente é construído de um tronco escavado de mafumeira, com as duas extremidades abertas. Uma delas é depois coberta com pele de antílope ou veado, apertada sob tensão. O seu tamanho varia de região para região, podendo atingir 1,5 m de comprimento, motivo pelo qual o tocador monta ou se encavalita no instrumento. A afinação é feita por aquecimento da pele. Apresenta formas e designações variadas de acordo com a região, aspecto, material utilizado na sua confecção e som produzido.
    GONGA – Gavião, ave de rapina.
    GUELENGUE – Mamífero artiodáctilo da família dos Bovídeos endémico que atinge 200 kg de peso, com a estatura de 1,20 m e 90 cm ao garrote. A pelagem é de tom castanho-acinzentado muito claro; o ventre, branco, é separado dos flancos por uma barra preta; a face é branca com riscas pretas na zona dos olhos e rodeando a parte alta do focinho; a cauda, de crina longa, é preta bem como as patas, acima dos joelhos. Ambos os sexos apresentam chifres, em forma de lança, anelados, longos e voltados para trás e para o alto, sendo os da fêmea (1m) mais compridos e mais finos do que os do macho (75cm). Habita territórios secos, em zonas semidesérticas de pequena pastagem e savanas abertas fazendo, por vezes, incursões aos bosques abertos em busca de pastagens. Alimenta-se de herbáceas, raízes, tubérculos e rizomas. Passa vários dias sem beber e pode ser encontrado muito longe das fontes de água.
    GULUNGO – (Tragelaphus scriptus) Mamífero artiodáctilo da família dos Bovídeos. O gulungo é um antílope africano de porte médio, com 1-1,5 m de comprimento e pesa de 25 a 80 kg. Distribui-se pelo Leste de Angola. Tímido e desconfiado, emite balidos quando perseguido ou perturbado. Vive, solitário ou aos pares, em bosques densos, pequenas montanhas ou savanas arbustivas, sempre perto de cursos de água permanentes. Alimenta-se de herbáceas, folhas, rebentos e frutos. As hastes do macho são curtas e espiraladas com pontas afiadas. O costado, percorrido por uma crina branca, é arqueado, tem orelhas grandes e cauda espessa. A pelagem é castanho-avermelhada com riscas brancas verticais nas partes laterais do tronco e manchas também brancas nas espáduas, quartos traseiros e face. A fêmea, que não possui armação, é mais pequena do que o macho e a sua pelagem é menos vistosa. Atinge a maturidade sexual dos 11 para os 12 meses, tem um período de gestação de 6 meses, com 1 cria por parto.
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    I
    IMBAMBAS – Tarecos, as coisas de uma casa.
    IMBONDEIRO – (Adansonia digitata) Árvore de porte gigante, da família das Bombacáceas. O tronco é grosso e bojudo, podendo atingir 20 m de altura e 10 m de diâmetro, chegando a armazenar 100.000 litros de água. Há exemplares que atingiram a idade de 3.000 anos. O seu fruto é a múcua. “… o imbondeiro é venerado no Leste de Angola e encarregado pela tradição de albergar determinados espíritos…”
    IMPALA – (Aepicerus melampus) Mamífero artiodáctilo da família dos Bovídeos com 50-60 kg de peso, a impala apresenta pelagem castanho-avermelhada, escurecendo no dorso e rosto, sendo que o ventre, os queixais, a linha dos olhos e a cauda são brancos. Uma zona de pêlos mais compridos do que o normal, de cor preta, cobre-lhe os calcanhares. Os chifres, esbeltos e só existentes no macho, podem atingir 1 m de comprimento e desenvolvem-se em forma de lira. A maturidade sexual é de 1 ano para os machos e 20 meses para as fêmeas com um período de 195 a 200 dias de gestação. É um antílope que vive na savana, em grandes manadas. Prefere zonas onde exista capim de porte baixo ou médio, com uma fonte de água por perto, condição que pode ser desprezada caso a erva seja abundante.
    IPUTA – Pirão.
    IR Á TUJE – Ir “a outra parte”.
    IR AOS GAMBUZINOS – Partida feita a um novo morador.
    IR PASTAR CARACÓIS – Ir pentear macacos, ir chatear outro.
    ISTO NÃO É CONGO ! – Expressão usada aquando das confusões naquele País.
    ISTO NÃO É DA MÃE JOANA ! – Aqui não é a casa da sogra!
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    J
    JINDUNGO – ( ou Gindungo ) Espécie de malagueta muito ardente e aromática, utilizada no tempero dos alimentos e confecção de molhos. Fruto do jindungueiro.
    JINDUNGUEIRO – Planta da família das pimentas, Solanáceas, nativa dos trópicos, que atinge 60-80 cm de altura e cujo fruto, o jindungo, é muito utilizado em culinária.
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    K
    KUANZA , Cuanza, Kwanza ou Quanza – O maior rio nascido em Angola, com uma extensão de 965 km e uma bacia hidrográfica de cerca de 148.000 km2. Nasce junto a Mumbué, no distrito do Bié, a uma altitude de 1.450 m e desagua no Atlântico, 40 km ao Sul de Luanda. É navegável até ao Dondo, a 200 km da foz. São seus afluentes, entre outros, os rios Kuiva, Luando e Lucala.
    KUATA – Agarra, apanha, pega, segura. Guerras de kuata! kuata! Guerras empreendidas, na época da escravatura, quer pelo exército português, quer pelos reinos angolanos mais poderosos, com o intuito de fazer escravos.
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    L
    LARICA – Estar cheio de traça, ter muita fome.
    LAUREAR O QUEIJO – Passear.
    LOMBI – ( LÔMBUAS ou SUANGA) Rama de alguns arbustos para condutos.
    LOSSAKAS E QUIABOS – Frutos verdes que se usam nos condutos.
    LUICO – Espécie de grande colher de pau ou bastão comprido com que se amassa ou bate o funje.
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    M
    MABOQUE – (Maboke ) Fruto do maboqueiro, de aspecto semelhante ao da laranja mas de casca muito dura (pericarpo ósseo) contendo inúmeras sementes envolvidas por uma abundante polpa gelatinosa com sabor agridoce ou sub-ácido. É também conhecido por laranja-do-natal e laranja-dos-macacos. Come-se ao natural ou temperado com açúcar. Pode também ser constituinte de salada de frutos, dando-lhe um sabor especial.
    MABOQUEIRO – ( Strychnos spinosa ) Arbusto de porte arbóreo, da família Lagoniaceae, muito ramificado. As pernadas e ramos são revestidos de uma grossa casca, com aspecto semelhante à cortiça. Produz um fruto muito apreciado, o maboque.
    MAFUMEIRA – ( Ceiba pentandra) (Eriodendron anfractuosum) Árvore frondosa da família das Bombacáceas que pode atingir 35 a 40 m de altura. O tronco é cilíndrico, sólido e grosso e atinge 3 m de diâmetro. A copa, arredondada ou plana, pode apresentar uma cobertura até 50 m. As folhas, caducas, são alternas e aglomeram-se nas extremidades dos ramos. As flores, dispostas em fascículos nas axilas de folhas que tenham caído, são grandes, com cinco pétalas brancas, rosadas ou douradas, muito perfumadas. O fruto é uma cápsula cheia de uma espécie de lã vegetal, designada capoca ou sumaúma, que envolve as sementes. A capoca é utilizada em colchoaria e das sementes extrai-se o óleo de capoca, usado no fabrico de sabões. A madeira é muito leve e suave e é, por isso, utilizada no fabrico de dongos isto é canoas compridas e relativamente largas.
    MACA – ( MAKA ) Conversa, dito, fala. Na tradição oral angolana as maka são “histórias narrativas de acontecimentos reais e verdadeiros ou tidos como tais… Evoca factos e acontecimentos do passado, uns verdadeiros, outros de origem lendária e fruto da imaginação, mas que se foram impondo como se de factos reais se tratasse.” Conversa decisória, conversação, assembleia pública ou familiar. Altercação, confusão, discussão, problema, sarilho.
    MAQUEIRO – Pessoa zaragateira.
    MALUVO – ( Marufo, Maruvo ) Bebida resultante da seiva fermentada das palmeiras, principalmente de palmito, bordão e matebeira. É uma bebida muito apreciada no Norte de Angola onde tem funções sociais precisas, como seja a cerimónia do alambamento, o final de uma maca ou o agradecimento ao voluntariado comunitário nas zonas rurais. Segundo uma lenda, o primeiro homem a extrair o marufo e a preparar o azeite de dendém foi Lenchá, escravo do Rei do Congo. A partir dessas descobertas nunca faltaram estas delícias na mesa do rei. Mas Lenchá levou as suas experiências ao ponto de deixar fermentar a seiva da palmeira, durante três dias. O rei achou o néctar delicioso e bebeu em doses elevadas. Apanhou a primeira bebedeira da sua vida . Com o rei viviam nove sobrinhos. Makongo, o mais velho, vendo o rei em tal estado julgou-o às portas da morte. Fez crer às mulheres do rei que tal situação resultava do veneno que lhe fora ministrado por Lenchá. Chamou os oito irmãos, levaram o escravo para longe de Banza Congo e queimaram-no vivo. O rei, ao acordar da bebedeira, estranhou a presença dos sobrinhos junto ao seu leito. Perguntou por Lenchá, o seu escravo querido. Posto ao corrente da situação proferiu sentença imediata contra a acção estúpida dos sobrinhos: seriam queimados, como o haviam feito ao seu servo. Antes, porém, que a sentença fosse executada, os nove sobrinhos fugiram da cidade e, atravessando o rio Zaire, formaram os nove reinos que passariam a constituir Cabinda.
    MANDA CHUVA – Patrão.
    MANDIOCA – ( Manihot utilíssima) Planta herbácea tuberosa, da família das Euforbiáceas, de grandes folhas divididas, flores pouco vistosas dispostas em cacho, muito utilizada na alimentação. É a base alimentar de muitos povos de Angola. Os tubérculos são utilizados de formas variadas. Expostos ao calor e moídos produzem a farinha de pau e a fuba de bombó com que se confecciona o funje. Também se consome em cru. Com as folhas prepara-se a quizaca. Tiras de mandioca secas ao sol, as macocas
    MANDIOQUEIRA – Termo popular que também designa a mandioca.
    MANGA – Fruto da mangueira. É uma drupa de forma ovóide oblonga com 15-25 cm de comprimento, de cor verde-amarelada, amarela ou avermelhada quando madura. A polpa é amarela, sumarenta e fibrosa.
    MANGA DE CAPOTE – Macarrão.
    MANGONHA – Farsa, mentira. Indolência, moleza, preguiça.
    MANGONHAR – Dar-se à mangonha, mandriar, molengar, preguiçar.
    MANGONHEIRO – Indolente, calaceiro, mandrião, molengão, preguiçoso.
    MANGUEIRA – ( Mangifera indica) Árvore da família das Anacardiáceas de copa densa e arredondada, tronco grosso, que chega a atingir 20 m de altura, com ramos numerosos que lhe dão um porte majestoso. As folhas de cor verde-escuro são perenes, coriáceas, simples, de forma lanceolada ou oblonga, com 15-30 cm de comprimento. As flores, que nascem em panículas piramidais terminais, são pequenas e de cor verde-amarelada. O fruto, a manga, é muito apreciado.
    MANGUITO – Gesto obsceno.
    MARIMBA – Instrumento musical do grupo dos idiofones, semelhante ao xilofone e constituído por uma cadeia de cabaças, servindo de caixa de ressonância, encimada por uma série de faixas de madeira ou metal (teclas) que são percutidas com uma baqueta apropriada. Pode apresentar corpo direito (recto) ou curvo, com quinze a dezanove teclas, havendo notícia de marimbas com mais de vinte teclas. Em cerimónias religiosas é comum uma marimba ter tamanho reduzido, apenas duas a quatro teclas.
    MASSAROCAS – Espigas de milho.
    MATA-BICHO – Pequeno-almoço (de faca e garfo).
    MATABICHAR – Tomar o pequeno-almoço.
    MATACO – Bunda, nádegas, traseiro.
    MATARRUANO – Patego.
    MATETE – Papa de farinha de milho.
    MATRINDINDE – Insecto ortóptero saltador, semelhante ao gafanhoto, com 7-10 cm, de cor arroxeada que, com a vibração das asas, produz um som semelhante ao da cigarra. O seu aparecimento indicia o início da época do cacimbo. Chega, por vezes, a constituir uma praga.
    MATUMBO – Estúpido, tacanho, ignorante, inculto, provinciano.
    MERENGUE – Ritmo de dança muito animado.
    MESSENE – Mestre, mestre de ofício, professor.
    MILONGO – Medicamento, remédio; qualquer fármaco.
    MISSANGA – Pequenas contas de vidro ou outro material com que se confeccionam colares, pulseiras e outros adereços, também utilizadas nas tranças dos penteados tradicionais. Há designações variadas para as missangas usadas em cerimónias tradicionais. Variedades de missangas adoptadas em colares ou relicários consagrados aos espíritos.
    MOKOTÓ – Pé de boi preparado para confeccionar comida.
    MORINGA – Bilha de água de gargalo estreito.
    MORRO – Monte, outeiro.
    MUAMBA ou Moamba – Líquido ou molho oleoso obtido por cozedura de massa de dendém pisado. Prato típico de guisado de galinha ou outras aves, carne de vaca ou peixe, com o referido molho, tendo como temperos e ingredientes azeite, alho, cebola, quiabo e jindungo. Dizendo-se simplesmente Muamba, está a referir-se a de galinha. Sendo de outra carne ou de peixe é necessário especificar, Muamba de… Tradicionalmente é acompanhado de funje ou pirão, mas também o pode ser com arroz. Também designa contrabando, negócio ilegal.
    MUCANDA – Carta, bilhete, papel; qualquer escrito. Recado.
    MÚCUA – Fruto do imbondeiro, constituído por uma massa ácida comestível e um emaranhado de fibras que envolvem as sementes.
    MUCUBAL – Povo Ovakuvale do grupo etnolinguístico Herero , que vive essencialmente da pastorícia.
    MUKENKO – Murro.
    MULEMBA – (Ficus thonningii sin. F. welwitschii) Figueira africana. Árvore sarmentosa da família das Moráceas, de seiva leitosa. Apresenta um porte elevado, chegando a 15-20m de altura, e a copa é volumosa e muito ramificada, sendo muito apreciada pela sombra que produz. Dá-se em terrenos secos e arenosos. Apresenta raízes aéreas, conhecidas popularmente por barbas. Os frutos, figos, que nascem nas axilas das folhas, com 8-12 mm de diâmetro, atraem uma grande variedade de pássaros. É a árvore real angolana, já que à sua sombra se reuniam os chefes e reis. Mulemba-xietu a mulemba da nossa terra.
    MULEQUE – Rapaz, criado, moço de recados. Malandro, preguiçoso, vadio.
    MUSSEQUE – Começou por designar os terrenos agrícolas pobres e arenosos, situados fora da orla marítima e em redor das cidades. A designação tornou-se extensível ao bairro de lata, bairro pobre, na cintura urbana das grandes cidades, principalmente em Luanda.
    MUXIMA – Vila e município da província do Bengo, na margem esquerda do rio Cuanza. É célebre a Igreja de Nossa Senhora da Muxima, ou da Conceição, de culto à Virgem Maria.
    MUXITO – Mata ou bosque denso.
    MUZONGUÊ – Guisado com peixe seco e fresco, com bastante jindungo e farinha de pau.
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    P
    PEITO-CELESTE – Este nome advém do colorido das penas do peito, azul celeste vivo no macho, sendo que as fêmeas além de um colorido menos vivo apresentam o ventre bege. O canto do macho é agradável e vigoroso. Vive em pequenos bandos, preferindo os terrenos cultivados, o campo aberto e a savana, mas também frequenta os limites urbanos desde que haja charcos de água por perto. Embora no campo seja mais fácil ocupar os ninhos abandonados pelos tecelões e outros pássaros, também constrói o seu próprio ninho com pedacinhos de mato seco e capim, chegando a fazê-lo na cobertura de colmo das cubatas. A sua postura é de 3 a 4 ovos. Alimenta-se de insectos, grãos, sementes e verdura fresca.
    PENEIRENTA – Pessoa vaidosa.
    PICADA – Estrada de terra batida de 3.a categoria.
    PILDRA – Prisão, chossa, xilindró.
    PILIM – Dinheiro, taco, carcanhol, bago, kumbú.
    PIPI – Pessoa vaidosa, calcinhas.
    PIRÃO – Iguaria gastronómica. Coze-se, conjuntamente, peixe fresco e seco com batata-doce ou mandioca. A água da cozedura, ainda quente, é temperada com óleo de palma ou azeite de oliveira, cebola e tomate, formando um caldo leve, o muzonguê. Acompanha-se com farinha de mandioca embebida no caldo. Embora o termo se tenha generalizado para o prato em si, é à farinha assim preparada que a designação é devida. Por acomodamento, em Angola deve chamar-se funje a massa confeccionada com fuba de mandioca e pirão a confeccionada com fuba de milho e similares. O pirão é característico das regiões do centro e Sul de Angola.
    PIRAR A ROSCA – Entrar em parafuso, ficar meio choné.
    PITANGA – Fruto comestível da pitangueira, de forma globosa, polarmente achatado, sulcado longitudinalmente e de aspecto brilhante. A polpa, alaranjada ou vermelha quando madura, tem um sabor adocicado, levemente ácido ou agridoce.
    PITANGUEIRA – Planta arbustiva da família das Mirtáceas, originária da América do Sul, muito provavelmente do Brasil. Pode atingir o porte de árvore, com 6 a 10 m de altura, com copa piramidal, tronco de 30 a 50 cm de diâmetro e cujo fruto, a pitanga, é muito apreciado. As folhas variam do vermelho ao verde-brilhante, da juventude à idade madura. As flores, genericamente, são brancas e aromáticas com floração abundante.
    PÓPILAS! – Chissa! Possa! Arre! Porra!
    PUNGO – Peixe perciforme marinho.
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    Q
    QUIABEIRO – (Hibiscus esculentus) Erva anual da família das Malváceas, de porte erecto que atinge cerca de 1m de altura, cultivada pelas folhas, frutos, sementes e fibras. O fruto, o quiabo, é muito utilizado em culinária.
    QUIABO – Fruto do quiabeiro , também designado quingombo , em forma de cápsula cónica, de consistência viscosa quando maduro, muito utilizado em culinária, nomeadamente na muamba.
    QUIMBANDA – (Kimbanda, Kimbandeiro, Quimbandeiro) Curandeiro; aquele que pratica a medicina tradicional. O quimbanda na tradição cultural bantu, como supremo ocultista, tem uma amálgama de poderes: é, simultaneamente, adivinho, curandeiro e feiticeiro.
    QUIMBO – (Embala, Libata, Sanzala) Aldeia rural tradicional, aldeia indígena, povoado, sanzala.
    QUINDA – Cesto sem asas, que servia para transportar cereais.
    QUISSÂNGUA – Bebida fermentada feita com milho ou com fuba.
    QUISSANJE ou Quissange – Instrumento musical do grupo dos lamelofones, constituído por uma tábua ou placa de madeira, onde estão fixadas várias palhetas ou lâminas de bordão, bambu ou metal, presas a um cavalete. Apresenta de sete a dezasseis palhetas, ou mesmo vinte e duas (muito raro). Pode ser-lhe adaptada uma cabaça truncada que serve de caixa de ressonância ou amplificador. O instrumento mantém-se preso entre as duas mãos e os dedos polegares fazem vibrar as palhetas.
    QUITANDA – Banca, tenda ou loja de comércio; negócio, venda; tratava-se, originalmente, de produtos hortícolas frescos, tendo-se esta acepção tornado extensível a qualquer tipo de comércio praticado nas mesmas condições. Tabuleiro, maleta ou quinda onde o vendedor ambulante transporta os produtos.
    QUITANDEIRO – Aquele que faz negócio em quitanda, dono de quitanda, pequeno comerciante, vendedor ambulante.
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    R
    REBITA – ( Massemba ) Farra de sanzala. Embora considerada tipicamente angolana, proveniente da área do quimbundo, resultou da aculturação, provavelmente de grupos étnicos portugueses. Posteriormente à sua formação, este bailado, em nova incorporação lusitana, foi, por esses elementos, designada por rebita. E o termo, antes restrito ao seu meio, generalizou-se à massa popular. Este género de diversão foi muito usado pelas gentes de Benguela, Catumbela e Bié.
    REVIENGA – Finta de corpo, movimento rápido em zig-zag, volteio rápido.
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    S
    SACANA – Malandro, sacariôto, sacripanta.
    SANGA – Cântaro ou pote de barro para transportar ou conservar água. Pote onde cai a água, filtrada por pedra porosa própria para purificá-la, ou o próprio conjunto pedra/pote.
    SANZALA ou SENZALA – Aldeia rural tradicional.
    SAPE-SAPE – ( Annona spp) Árvore da família das Anonáceas, também conhecida por anoneira. A árvore pode atingir 15 m de altura. As folhas, alternas, são perenes e de cor verde-escura. O fruto, cordiforme e coberto de saliências espinhosas, é segmentado, com um diâmetro de 10-12 cm, coloração exterior variando do amarelo-esverdeado ao vermelho quando o fruto está amadurecido e polpa branca de sabor adocicado. As folhas são utilizadas na medicina tradicional.
    SECULO – Ancião, velho; conselheiro do soba; homem respeitável. Corresponde a Cota, entre os quimbundos.
    SEMBA ou REBITA – Dança tradicional angolana caracterizada pelas umbigadas (sembas) dos dançarinos. Na sua forma mais genuína a dança é acompanhada por coros de sátira social a acontecimentos do quotidiano ou políticos.
    SÉTIMO ANO DE PRAIA – 4.a classe.
    SIPAIO – Polícia africano, geralmente adstrito às Administrações de Concelho e aos Postos Administrativos. Pertenceu aos Serviços de Administração Civil e actuava junto da população autóctone. O cargo era desempenhado por naturais.
    SIRIPIPI ou SERIPIPI – ( Colius castanotus) Pássaro frugívero, da família dos Coliídeos, o siripipi-de-benguela, também conhecido por rabo-de-junco-de-rabadilha-vermelha, é uma ave com 35 cm de comprimento e 45-60 g de peso nativa de Angola, característica por apresentar, em ambos os sexos, uma crista e cauda duas vezes superior ao tamanho do corpo. A plumagem é cor-de-canela, a face é negra, o peito e garganta cinzentos, o ventre alourado pálido e a rabadilha vermelha. O ninho, em forma de taça, é construído pelo casal, oculto entre a vegetação e por vezes junto ao solo, com materiais vegetais e penas. A fêmea põe 2-5 ovos que são incubados por ambos, durante 2-3 semanas. A incubação começa no momento da postura do primeiro ovo, o que provoca que o ninho tenha crias em vários estádios de desenvolvimento. Os juvenis estão aptos a voar ao fim de 17 dias. Vive em matas e na orla das florestas. Voa pausadamente, dado o comprimento da cauda, em bandos de 5-8 indivíduos em fila indiana. Alimenta-se de rebentos, folhas e frutos de vegetação variada.
    SOBA – Autoridade tradicional, chefe do quimbo ou sobado; chefe tribal, régulo. O soba, em certas regiões, é escolhido pelo conselho de sobas; noutras a sucessão é matrilinear, sucedendo-lhe um sobrinho, filho de uma irmã.
    SOBADO – Território sob administração de um Soba.
    SUMAÚMA – Enchimento seco mas muito fofo para almofadas e colchões.
    SURRIADA GALINHA ASSADA – Expressão acompanhada de gesto com os dedos, a fazer pouco de outra pessoa
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    T
    TABAIBEIRA – (Opuntia ficus indica) Figueira-da-índia; Piteira.
    TABAIBO – Designação que se dá no Sul de Angola, por influência madeirense, ao fruto da figueira-da-índia ou tabaibeira. De forma ovóide, achatado nos pólos e recoberto de inúmeros espinhos, tem uma polpa muito sumarenta e sabor agridoce.
    TACANHO – Panhonha, patarôco.
    TACULA – (Pterocarpus tinctorius) Árvore de grande porte que chega a atingir 20 m de altura, endémica das matas de Angola. A madeira, de grande dureza e resistência, branca ou vermelha com veios vermelhos, é usada em mobiliário. É uma madeira de enorme beleza.
    TAMARINDEIRO – (Tamarineiro, Tamarinheiro, Tambarineiro) (Tamarindus indica) Árvore de tronco grosso, folhas pinadas e flores amarelo-avermelhadas, que fornece boa madeira e frutos comestíveis, o tamarindo.
    TAMARINDO – Fruto do tamarindeiro, comestível e também utilizado em farmacologia.
    TCHINDELE – Homem branco
    TEMPO DE CAPARANDANDA – Há muito tempo, tempo antigo.
    TIPOIA – Palanquim de tecido p/ transportar pessoas.
    TORTULHOS – Cogumelos grandes.
    TRINCA-ESPINHAS – Pessoa muito magra.
    TUQUEIA – Peixe miúdo (seco) pescado nas anharas de Camacupa e do Moxico.
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    U
    UMBUNDO – Povo do grupo etnolinguístico Ovimbundo e uma das línguas étnicas de Angola. O falante desta língua; aquele ou o que pertence ou se refere a este grupo.
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    V
    VENDER A BANHA DA COBRA – Vender com muita lábia, vender bem aquilo que não presta.
    VIMBAMBAS – Tarecos, as coisas de casa.
    VISSAPA ou Bissapa – Moita, sarça, silvado.
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    W
    WELWITSCHIA – ( Welwitschia mirabilis) Planta descoberta pelo botânico austríaco Frederico Welwitsch no século XIX. “A primeira informação que deste vegetal chegou à Europa transmitiu-a o seu descobridor a Sir William Hooker, reputado homem de ciência, em carta, escrita de Luanda, a 16 de Agosto de 1860… Tem a Welwitschia o tronco obcónico, de cor acastanhado, que se eleva poucas polegadas acima do terreno e é na parte superior achatado, bilobado e deprimido lateralmente, atingindo por vezes catorze pés de circunferência no seu máximo desenvolvimento. Segue-se-lhe, internando-se pelo solo, uma forte raiz, que só muito para a extremidade se ramifica e se divide em radículas. Das origens dos dois lóbulos nascem duas únicas folhas, largas, rijas e persistentes, que se estendem pela superfície da terra, fendendo-se com a idade. E junto à inserção das folhas partem duas hastes ou pedúnculos sustentando pinhas escarlates, em cujas escamas se abrigam flores solitárias. A Welwitschia é curiosíssima, não apenas por invulgar, mas ainda por se apresentar sempre repetida quase exclusivamente de numerosos indivíduos da mesma espécie que dão ao terreno um aspecto especial deveras interessante… A Welwitschia não existe, porém, somente no Distrito de Moçâmedes.
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    X
    XANA ou Chana – Planície, savana, charneca africana.
    XINDELE – Branco, indivíduo de raça branca; Amo, senhor, patrão.
    XINGAR – Injuriar, praguejar.
    XITACA ou Chitaca – Pequena propriedade agrícola de subsistência; terreno para plantação; lavra.
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    Z
    Zamberenguenjê – estar com os azeites, estar zangado.Ver mais

    11- Algums links interessantes:

    – Homenagem a Bonga

    – Literatura angolana nas salas de Coimbra

    12- Poemas:

    Estas baías

    I
    exponho a curva vencida do meu sexo
    ao silêncio das aves e às marés
    de chumbo desta ausência.
     
    … estas praias exíguas…
    … o precipício e as brisas…
    … o dorso inerte destas águas lisas…
    …o sol à retaguarda
    e o mar virado ao leste…
     
    a tarde cai na concha devoluta do meu peito.
    exausto me devolvo à pedra
    e ao coração de um animal cansado.
     
    II
    do alto da falésia
    aguardo um breve instante de prenhez nocturna
    que ao continente me devolva inteiro.
     
    da noite eu sei
    todo o rumor da gesta mineral
    no acto de ferver as gerações passadas.
     
    deslizo a carne eréctil de uma orgânica torrente.
     
    estou no regaço vítreo dos desertos.
     
    III
    da noite eu sei
    – porque lhe estou a prumo no regaço
    e a vejo prolongada pelos meus dedos
    e dela me arborizo até ao florescer das madrugadas –
     
    da noite eu sei – dizia – 
    que uma semente dada ao sol e às mãos
    em carne há-de animar uma estação
    de águas e corpos, sucessões e bênçãos.
     
    IV
    pelo que sei da noite
    da sua orografia de vulcões expectantes
    e da carnal leitura
    de algumas profecias
     
    deste oriente vago me rejeito.
     
    assumo um corpo que armazena a noite
    para expeli-la exausto e se encontrar
    na identidade súbita da cor.
     
    estou no regaço enxuto das manhãs
    estou no regaço vítreo dos desertos.
     
    floresço o breve instante das entregas.
    vou devolver-me ao ventre das nações.
     
    Ruy Duarte de Carvalho

    13- Nzinga Mbandi: poderosa rainha africana!

    Não foi fácil para Portugal retirar milhares de pessoas da África para servirem como escravos na América. Longas lutas de resistência foram travadas contra a colonização, que contava com altos investimentos militares e uma política que combinava opressão, violência e alianças com chefes locais.

    A trajetória de Nzinga Mbandi é um exemplo de como os chefes centro-africanos enfrentaram o avanço português. Hábil guerreira, estrategista política e militar, Nzinga foi uma líder carismática, uma rainha que passou a vida combatendo e morreu sem nunca ter sido capturada.

    Nasceu em 1582, filha do oitavo Ngola (do qual derivaria o nome Angola), título do principal régulo do reino do Ndongo. Os portugueses haviam iniciado a colonização a partir de Luanda sete anos antes, e foram ganhando o interior com a construção de “presídios” – fortificações militares no curso do Rio Kwanza, que abrigavam os comerciantes de escravos – e a organização de feiras em que a principal mercadoria eram as pessoas escravizadas. Criaram também um sistema de avassalamento de sobas, os chefes locais autônomos que pagavam tributos ao Ngola em troca de proteção militar e espiritual. Após a invasão portuguesa, eles eram batizados e se declaravam fieis à Coroa. Essa condição incluía diversos compromissos: fornecer baculamentos (tributos pagos geralmente em escravos), dar passagem às tropas do governo, permitir kitandas (feiras e mercados) em seu território e contribuir com escravos para serem soldados da “guerra preta” – o pelotão que lutava junto aos portugueses.

    A guerra se generalizava, e com ela o clima de instabilidade. Os sobados intensificavam ataques a povoados vizinhos para saldar suas dívidas com os portugueses, pois os prisioneiros capturados em guerra eram escravizados. Ao sinal de qualquer atitude considerada infiel, o governo português invadia os sobados e matava seus líderes, substituindo-os por chefes aliados.

    Foi nesse contexto de penetração portuguesa no reino do Ndongo, movido pelo tráfico negreiro, que Nzinga Mbandi cresceu. No reinado de seu irmão Ngola Mbandi, agravou-se a tensão entre os locais e os conquistadores. Em 1617, o governador de Angola, Luis Mendes de Vasconcelos, invadiu o reino do Ndongo para construir o presídio de Mbaka, a poucas milhas da Cabaça, a moradia do Ngola. O resultado foi uma guerra intensa, ao fim da qual Ngola, vencido, refugiou-se na ilha de Kindonga, no Rio Kwanza. Em 1622, João Correia de Sousa assumiu o governo e decidiu procurar o Ngola para restabelecer a paz, uma vez que o cenário de guerra paralisara os mercados de escravos. Foi quando Nzinga entrou em cena.

    Ngola Mbandi mandou sua irmã mais velha como embaixadora para negociar a paz com os portugueses. Na audiência com o governador, ela impressionou a todos por sua inteligência e habilidade diplomática. Defendeu a manutenção da independência do Ndongo e o não pagamento de qualquer tributo à Coroa portuguesa, mas se mostrou aberta ao comércio. Entendendo que a paz com os portugueses passava pelo batismo cristão, aceitou o sacramento: recebeu o nome de D. Anna de Sousa, tendo como padrinho o próprio governador. De sua parte, os portugueses se comprometeram a efetivar a retirada do presídio de Mbaka.

    Estratégia política em nome da resistência africana ou conversão ao catolicismo, o batismo de Nzinga Mbandi gera controvérsias entre os estudiosos até hoje.Estratégia política em nome da resistência africana ou conversão ao catolicismo, o batismo de Nzinga Mbandi gera controvérsias entre os estudiosos até hoje.

    O acordo, porém, não foi cumprido nem por aquele governador nem pelos sucessores. A situação levou ao enfraquecimento político de Ngola Mbandi, que morreu na ilha de Kindonga, em 1624, em circunstâncias que continuam sendo uma incógnita para a historiografia de Angola. Nzinga se apoderou das insígnias reais e assumiu o trono do Ndongo.

    A nova rainha foi associada à possibilidade de libertação do povo Mbundo, etnia predominante no reino Ndongo. As crescentes fugas de kimbares – escravos que guarneciam os presídios ou eram dados pelos sobas para comporem a “guerra preta” – enfraqueciam as tropas lusas, enquanto fortaleciam o exército de Nzinga. Aproveitando-se desse contexto favorável, a rainha lançou uma campanha antilusitana, formando e liderando uma confederação de descontentes com a colonização. Conquistou o apoio de sobas que já haviam se avassalado, além de poderosos chefes que não pertenciam ao Ndongo, como o Ndembo Mbwila (Ambuíla).

    Capturar Nzinga e reduzi-la à obediência passou a ser um dos objetivos principais do governo português. Em 1626, o governador de Angola, Fernão de Sousa, arquitetou um golpe político para que Are a Kiluanje, um vassalo dos portugueses, assumisse o trono. Nzinga se refugiou na ilha de Kindonga e conseguiu se livrar do cerco usando sabiamente a geografia do local, deslocando-se pelas diversas ilhas do Rio Kwanza. Quando as tropas lusas enfim a encurralaram em Kindonga, ela mandou seus embaixadores informarem que estava disposta a se render e se avassalar. Para isso, no entanto, pediu uma trégua de três dias. Passado o prazo, os portugueses perceberam que tinham caído em um golpe: Nzinga já estava longe dali.

    A rainha foi então buscar proteção junto aos temidos jagas, guerreiros nômades que se organizavam em kilombos – acampamentos que se deslocavam conforme as necessidades de guerra, com rígida hierarquia e severa disciplina militar. Nzinga recebeu o título feminino mais importante no kilombo – Tembanza –, assumindo funções rituais essenciais. Imprimiu consciência política aos bandos, que até então viviam errantes, praticando roubos e sem se prenderem a linhagens. Sob o comando de Nzinga, os kilombos passaram a compor a frente de resistência contra a ameaça estrangeira. O incrível poderio bélico que Nzinga conseguiu mobilizar junto aos jagas foi crucial para se manterem livres e vencer os portugueses por várias vezes.

    Por volta de 1630, Nzinga ocupou o reino de Matamba (Ndongo Oriental), terra evocativa de seus ancestrais e tradicionalmente governada por mulheres. Foi na condição de rainha de Matamba que ela soube da invasão holandesa em Angola, em 1641. Ali estava uma oportunidade de estabelecer nova aliança para minar a presença portuguesa na região. Nzinga aproximou-se dos invasores, e juntos criaram uma importante rota comercial que conectava Luanda (agora de posse holandesa) a Matamba, trocando escravos por mercadorias europeias, sobretudo armas de fogo.

    Era fundamental para a oligarquia do Rio de Janeiro restabelecer o domínio do mercado de escravos em Angola. Isso foi conseguido em 1648 por iniciativa de Salvador de Sá, que organizou tropas formadas por índios e bandeirantes para expulsar os holandeses. A vitória lusa teve o efeito direto de enfraquecer a rainha Nzinga. Suas duas irmãs foram capturadas e mantidas como reféns pelos portugueses. Kifunge acabou assassinada em Massangano, acusada de espionagem. Mocambo ficou presa em Luanda, utilizada como arma política a fim de forçar a rendição de Nzinga.

    O papa Gregório XV, com o objetivo de diminuir o poder que as coroas ibéricas tinham acumulado com as colonizações, criara em 1622 a Propaganda Fide – a “propagação da fé” –, que permitiu a ida à África Central de missionários que não tinham relações com a Coroa portuguesa. Entre eles estavam os capuchinhos, que chegaram à região na década de 1640. Nzinga enxergou nesses religiosos outra possibilidade de fazer novos aliados europeus que não fossem ligados ao governo português. Por meio do capuchinho italiano Antonio de Gaeta, Nzinga retornou ao catolicismo em 1656, renegando os ritos gentílicos e aceitando a fé de Cristo. A conversão ao cristianismo foi uma saída estratégica, pois, já idosa, ela sabia que a cruz seria o caminho mais rápido para a paz e para conseguir o retorno de Mocambo, sua irmã indicada à sucessão de Matamba, enfim libertada pelos portugueses em 1657.

    A líder de Matamba morreu em dezembro de 1663, com mais de 80 anos, sepultada de acordo com os ritos cristãos. O povo Mbundo a venerou como “rainha imortal”, que nunca se entregou e que jamais aceitou a submissão aos invasores. Sua fama atravessou o Atlântico e chegou ao Brasil. Aqui, o nome Ginga, ou Jinga, é evocado em rodas de capoeira, em congados e maracatus de múltiplas formas: como guerreira que engana os adversários, inimiga da corte cristã, venerável ancestral de Angola.

    Mariana Bracks é autora da dissertação “Nzinga Mbandi e as guerras de resistência. Século XVII” (USP, 2012).

    Saiba Mais

    Unidos pelo tráfico: a escravidão na África era comum antes da chegada dos europeus ao continente. Veja mapa sobre os reinos do Congo que explica essa dinâmica.

    ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. Séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

    CASCUDO, Luís da Câmara. Made in África. São Paulo: Global Editora, 2001.

    PANTOJA, S. A.Nzinga Mbandi: Mulher, Guerra e Escravidão. Brasília: Thesaurus, 2000.

    SOUZA, Marina de Mello e. Reis negros no Brasil escravista: história da festa de coroação de rei Congo.Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.

    14- Estrangeiro

    estrangeiro,
    teus passos alargam o fosso
    em volta do cercado da casa antiga
    está aceso o fogo
    nos sítios do costume
    e tu moves-te por dentro do frio
     
    estrangeiro,
    o pano branco na tua cabeça
    annncia a morte
    de minha gémea
     meu irmão meu noivo
    o filho muito amado de sua mãe
    o que portava no peito
    o colar de missangas
    e fios do meu cabelo
     
    estrangeiro,
    a tua voz
    é um ruído surdo
    um murmúrio atento
     
    estrangeiro, 
    com a tua presença
    a minha dança não correu
    a manteiga passou
    o leite cresceu azedo pelo chão
    a vaca mansa de estrela na testa
    não entrou no sambo
    a bezerra pequena varreu a noite de gritos
     
    estrangeiro
    ontem não nasceu ninguém no chumbo
    e a lua estava alta e nova
    o velho que sofre
    não conseguiu morrer
     
    estrangeiro,
    afasta de mim
    teus passos perdidos
    e a maldição.
     
    Paula Tavares

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