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Um peixe brasileiro nas águas musicais portuguesas

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Nilson Dourado é um músico brasileiro que reside em Portugal e que trabalha com Zarpante. Conheçam um pouco sobre o artista na entrevista logo abaixo:

•    Quem é Nilson Dourado?

Eu sou paulistano, filho de pai baiano e mãe mineira, mistura que desde sempre conviveu muito harmoniosamente na minha formação cultural e humana. Sou músico por paixão e profissional da música por redenção, ofício que me sustenta, desafia e encanta diariamente. Amante da natureza, da beleza, do humor e do amor e suas decorrências. Um brasileiro ‘mundano’, metropolitano caipira sertanejo e por aí vou…

 •    Como conheceu Zarpante?

Conheci a Zarpante por intermédio do meu amigo Biru em Portugal.

 •    Como definiria seu som?

Hora, aí está uma coisa que sempre tive a maior dificuldade e continuo a ter cada vez mais, pelo menos dentro dos critérios de classificação do ‘mercado’ musical. Talvez definisse como música universal, música do mundo, algo assim… O meu disco ‘Sabiá’ acabei por classificar como world music. Penso que a música contemporânea, pós internet e globalização, será sempre de alguma maneira música do mundo.

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A música que faço em primeira instância é brasileira e já aí é universal dada a nossa miscigenação cultural. A minha música inevitavelmente acaba por refletir o que eu vivo e um pouco de tudo o que é essencial para mim e também que me alimenta de forma geral, como homem e como artista. Sempre tive influências musicais diversas e penso que o fato de tocar instrumentos bastante distintos também colabore para esta pluralidade estética na minha música. Tenho tentado estar sempre muito ligado em música boa, criativa e também na música tradicional que se faz ao redor do mundo todo, sem preconceitos e de ouvidos e coração bem abertos. Mas também me influencio artisticamente por muitas outras coisas como literatura, filosofia, comida, pessoas interessantes, bichos, cheiros… tudo isso para mim também é ou vira música de alguma forma.
Mas em resumo esta não é uma dificuldade que me incomode uma vez que continuo mais ocupado em fazer a música que faço do que em classificá-la. Será que respondi a sua questão? (risos)

  •    Qual foi o seu primeiro contato com a música? Quando percebeu que era isso que queria fazer de sua vida?

O meu primeiro contato com música… não sei dizer ao certo… provavelmente ainda habitando a barriga da minha mãe, ouvindo os violões do meu pai e do meu irmão mais velho, a minha mãe cantando, cancioneiro do brasil… e por aí foi. Tenho memórias de infância disso tudo também. Penso que tudo isso já seja válido sabe… Vejo esta relação hoje com as minhas filhas.

Mas aí só mais tarde, já com uns 15, 16 anos comecei a tocar mesmo, violão, com intenções de estudos mais sérios e tal. Recentemente ativei esta memória numa conversa com o músico Benjamim Taubkin, sobre o tal momento do ‘estalo’… “É isso que vou fazer na minha vida!” Já estudava música, violão; queria tocar de verdade, ser concertista e tal… aí estava assistindo o programa Ensaio da TV Cultura com o Raphael Rabelo, aquele monstro de músico, o Benjamim fazia parte da banda também, me lembro bem do momento… eles tocavam um arranjo maravilhoso do Samba do Avião do Jobim quando eu me emocionei mesmo com aquilo tudo ali, aquela música feita com paixão, com o coração, e senti o tal ‘estalo’.

•    Como é a vida de um músico brasileiro em Portugal?

Penso que a atividade de música seja mais ou menos semelhante em qualquer lugar, exceto as questões mais relacionadas ao mercado e a cena local que sempre difere um pouco. Venho de São Paulo que tem uma dinâmica de produção musical super intensa e é claro que sinto sim muita diferença na forma como as coisas funcionam lá e cá; mas em termos culturais Portugal também é um país com muita mistura, Lisboa por exemplo é cosmopolita assim como Sampa e tem uma cena musical muito diversa e interessante.

Aqui estou muito mais em contato com culturas musicais como as da áfrica, do oriente, mediterrânica e obviamente a própria música portuguesa e europeia que funde tudo isso e certamente já influenciaram consideravelmente a minha música. Mas por outro lado tem um pormenor muito interessante que já ouvi muitos brasileiros que viveram fora comentarem e só agora consigo entender, que é uma espécie de potencialização da brasilidade que ocorre quando se esta fora do Brasil, principalmente por longo tempo; talvez seja decorrência do inevitável saudosismo que nos arrebata vez por outra e no meu caso como músico muitas vezes da em samba, baião de dois (risos) e por que não em choro vez por outra…

Bom, tudo isso para contextualizar um pouco a questão… mas basicamente a minha rotina profissional é baseada em períodos de estudos onde tento manter minimamente a relação com os instrumentos que toco ‘em dia’, composição, arranjo, produção musical e executiva com todas as dores e delícias da carreira independente e finalmente os concertos.

•    O que o levou a escolher o Portugal para viver?

A Marjorie, minha companheira, já havia estado por duas vezes em Portugal a trabalho e ficou apaixonada… Estávamos saindo de uma fase super desgastante na nossa rotina paulistana entre 2008 e 2009 quando ela sugeriu experimentarmos viver em Portugal por um tempo e ver no que dava… Aceitei o desafio da aventura e no nosso caso deu em paixão das boas e neste momento tentamos conciliar a vida cotidiana, profissional e da família em Portugal com a vida profissional e familiar pelo Brasil.

Cabo da Roca, Portugal

 •    Mantém firmes os laços com o Brasil?

Sim, super firmes! Tenho lá toda a minha família, muitos grandes amigos, fora os fortes laços das relações musicais e afins. Gravei em São Paulo o meu primeiro disco, o Sabiá e vou gravar por lá também o segundo que esta em fase de pré-produção mas vem bem logo se tudo correr bem.
Tenho por lá parceiros e parcerias super importantes para fazer o som que faço hoje, sinto que aqui em Portugal ainda estou construindo esta base. Mas vai caminhando bem! Já tenho pelo menos três outros projetos que penso em produzir totalmente ‘Made in Portugal’, (risos)…

 •    Planos para 2014-2015? Lançamentos?

Sim! Muitos! Ainda em 2014, Oxalá gravo pelo menos dois ou três discos novos, dos quais pelo menos dois lanço ainda este ano, incluindo este que comentei na questão anterior. Nestes últimos anos acumulei muito material, composições, canções, música instrumental, tenho material para uns 4 ou 5 discos bem distintos entre eles… agora é ir colocando a produção em dia, com calma…
Ainda não consigo mirar com clareza o que vem para 2015… Preciso respirar 2014 e sentir para onde os ventos irão soprar.

 •    Hoje em dia escutamos muita música por ai que tem balanço mas não tem conteúdo. Qual a importância da letra para você? Como as trabalha?

É interessante como coloca a questão, realmente se tem feito música muito pobre hoje, principalmente dentro do ‘mainstream’, o que é muito mal… mas em fim. O grande mercado musical é um tanto achatado mesmo, tende sempre a fazer tudo meio igual, é impressionante a quantidade de música parecida ou as vezes mesmo igual, com as mesmas cadências de harmonia, mesmo timbre de tudo, mesmo groove, mesma linha de guitarra, mesmo tudo, que se produz em grande escala, mas em fim. Não fico muito ligado nessa onda, não perco tempo nisso.
Estou mesmo ligado é no também crescente e grande número de artistas e compositores comprometidos com a música criativa e que apresenta novos rumos, reais inspirações. Aproveito aqui para citar alguns novos compositores que aí estão e que muito tem me inspirado… Por exemplo o mineiro Antônio Loureiro que é um gênio, o Kiko Dinucci, o Rodrigo Campos, o Rafa Barreto, o João Taubkin e o Fábio Barros de Sampa, o Chico Saraiva que adoro e o Siba que não são propriamente novatos mas em constante reinvenção, o meu parceiro Tiganá Santana de quem sou fã também, além de muitos outros. Aqui em Portugal tem um compositor muito interessante também que é o Norberto Lobo, também gosto da Sara Tavares e descobri recentemente o Pierre Aderne que é brasileiro mas vive em Lisboa.
Para mim a letra é importante na medida que se faz necessária para a canção, quero dizer com isso que uma melodia pede ou não uma letra e esta letra quando é necessária vem ou deve vir em plena sintonia com a melodia que a solicita. Eu antes de compor música já escrevia poemas, contos, pequenos ensaios sobre assuntos do meu interesse, depois a música passou a dominar o meu espaço criativo, fiz, faço e ouço muita música instrumental também, então só escrevo uma letra para uma melodia quando faz muito sentido que isso aconteça.
A forma como trabalho as letras é muito distinta, as vezes nem trabalho muito, surge tudo junto, praticamente pronto, melodia e letra, outras vezes tenho uma melodia e sinto que pede uma letra, aí normalmente canto a melodia até perceber que palavras e ideias surgem e assim vou compondo o enredo, as imagens… praticamente nunca compus letra e depois música, sempre o inverso.

 •    Quais os dois artistas ou grupos representados por Zarpante com quem mais gostaria de ter uma parceria musical?

Para citar dois… adoraria uma possível colaboração com a cantora portuguesa Ana Lains por quem me encantei pesquisando o casting da Zarpante recentemente e o brasileiro Aleh Ferreira que tem uma onda de groove da pesada, desenrola muito bem toda a linguagem da música afro-brasileira que também influencia muito a minha música, além de possuir um timbre vocal que curto muito também.

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Entrevista do músico Tiago Sá

Tiago Sá é um músico, compositor e cantor brasiliense presente no Portfólio Zarpante. Ele lançou em 2012 seu disco de estreia ‘Reação da Alquimia’. Gravado no RJ com produção musical de Lucas Santtana e participações de Lucas Santtana, Marcelo Callado, Ricardo Dias Gomes, Léo Leobons e Lucas Vasconcellos, o disco apresenta 10 músicas de Tiago Sá. Conheçam um pouco mais sobre Tiago na entrevista abaixo.

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1 – Quem é Tiago Sá?

Músico, compositor, brasileiro, sol em peixes, ascendente em touro e lua em touro, amigo da alegria, da verdade e do amor.

2 – Qual foi o seu primeiro contato com a música?

Rodas de violão em que meus pais iam quando eu era criança.

3 – Como é trabalhar com música autoral em Brasília?

É muito difícil, pois não há lugares para música autoral em Brasília. Mas há o FAC Fundo de Apoio à Cultura, o artista que consegue se organizar pode concorrer e ter o seu projeto contemplado, como aconteceu comigo no fim de 2013.

4 – O que acha da Copa do mundo? Contra ou a favor?

Acho um evento bacana, que pode unir os povos por um momento. Mas acho uma pena como tem sido feito aqui no Brasil com muita corrupção e Mp.

5 – Como definiria seu som?

Música Brasileira Moderna

6 – O que acha da questão dos direitos autorais e dos downloads gratuitos?

Acho importante o criador ganhar o que tem por seu direito. Download gratuito pode ser uma forma de divulgação. Eu disponibilizei o meu disco para download gratuito no facebook https://www.facebook.com/tiagosamusica

7 – Algum ídolo musical dos outros países lusófonos?

Cesária Évora.

8 – Como é seu processo criativo? Começa por uma letra e depois o som ou vice e versa?

Tem hora que vem a letra, tem hora que vem a melodia, tem hora que vem tudo junto. Só me ponho a criar quando estou realmente inspirado. Não me forço a criar.

9 – Porque a escolha de ser um artista solo acompanhado por músicos pagos em vez de ter uma banda formada nesse sentido?

Não foi bem uma escolha, aconteceu naturalmente, no meu percurso não encontrei músicos que compartilhassem o meu universo criativo e tivessem sintonia além da música a ponto de formarmos uma banda. De outro lado isso me permitiu ter a direção estética do meu trabalho, como compositor acho isso particularmente interessante.

10 – O que lhe chamou a atenção em Zarpante e como tem sido sua experiência com a equipe?

Muito interessante essa plataforma unindo países lusófonos, principalmente através da música, a ampliar nossos horizontes e nosso intercâmbio. Tem sido uma experiência enriquecedora estar em contato com  Zarpante e espero estar muito mais próximo a partir desse ano de 2014.

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Atenção Londres!

Sexta feira o bicho vai pegar em Londres! Quem quiser dançar até se acabar não pode perder este show exclusivo do carioca Aleh Ferreira, excepcionalmente na Inglaterra!

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Novo show do cantor e compositor Aleh Ferreira. Com um Power trio composto por guitarra, baixo e bateria ,o músico renova a sua performance,revisita toda a obra e os arranjos  ganham uma sonoridade mais soul-funk-rock sem abrir mão do swing brasileiro.

No Repertório músicas dos álbuns Bantus, mpbsoulsambagroove, além de apresentar em antemão algumas músicas inéditas.

Quem chegar antes das 22h não paga e depois desse horário o preço é de módicas 3 Libras.

Mas não é só isso não! Ainda tem:

– OQUADRO (Hip Hop brasileiro com Dub e sabores de Afrobeat)

– VIBRATIONS OF SOUND (Soul psicodélica com influencias latinas e de Afrogroove)

– CAL JADER (underground Latino e tracks globais)

Data: 30.08.2013

Hora: 21:00hs

Endereço: 95 Effra Road Brixton London SW2 1DF
Areas: Brixton, Coldharbour Lane/ Herne Hill

 

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Notícias do alambique

Ano passado captamos fundos para o projeto “Ceci n est pas de L’ eau”. Desde então, a equipe envolvida no projeto já foi ao Brasil, filmou em distintos alambiques e voltou a França para editar o filme!

A equipe

A equipe

Saiba mais na entrevista abaixo!

1. Por favor, apresentem a equipe de “Ceci n’est pas de l’eau”.

A equipe do Ceci n’est pas de l’eau consiste principalmente de duas pessoas – uma brasileira, Ana Clara, e um franco-americano, Yann-Yves. Nos formamos em cinema e comunicação pela Universidade Americana de Paris e trabalhamos nessa área desde então. No entanto, tivemos a ajuda de muitas pessoas durante as filmagens e o processo de pós-produção, no qual nos encontramos no momento. Somos muito gratos!

2. Como surgiu a ideia de fazer um documentário sobre cachaça?

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Houve uma época em que o Yann-Yves trabalhava em um bar mexicano, onde havia tequilas e mezcais maravilhosos, e curiosamente um dos drinques mais populares era a caipirinha (de cachaça, claro). Eu (Ana Clara) sabia que a qualidade da cachaça usada não era das melhores, já que era uma cachaça industrialíssima, mas eu não sabia explicar o porquê. Foi aí que decidimos que seria interessante investigar mais sobre o destilado e, porquê não, fazer um documentario sobre o assunto.
3. Após captação bem sucedida no site Zarpante, partiram para as gravações no Brasil. Como foi essa etapa? 
Nós tivemos a sorte e a oportunidade de sermos apoiados por múltiplas plataformas. Não só atingimos a nossa meta através da Zarpante, mas também fomos, de certa forma, patrocinados pela cachaça Leblon – uma marca que, como nós, é internacional e tem tudo a ver com o nosso projeto. Com isso conseguimos um orçamento confortável pra uma produção independente. Tudo, tudo mesmo, deu certo durante as filmagens, e em momento algum ultrapassamos esse orçamento.

4. Foi a primeira vez de Yann-Yves no Brasil, quais são suas primeiras impressões? E agora como definiria o Brasil em uma frase?

Em um mês, visitamos mais de 10 cidades em 4 estados diferentes, o que pode parecer muito, mas na verdade foi muito pouco. Eu (Yann-Yves) adorei Minas Gerais em particular, porque vimos a área rural, uma parte do Brasil que não é muito exportada. Eu acho isso uma pena, já que é uma região maravilhosa, pela comida, pelas pessoas e pela vista. Em uma frase, eu diria que o Brasil não só correspondeu às minhas expectativas, como também me surpreendeu em vários aspectos.
5. Quando pensam apresentar ao publico o resultado final de ” Ceci n’est pas de l’eau”? Alguma estratégia especifica de distribuição?
Como qualquer outra produção audiovisual, documentários levam um tempo para serem montados – principalmente se a equipe permanente consiste somente de duas pessoas. Temos como meta o meio do ano para finalizar a edição, mas não estamos com pressa. Priorizamos a qualidade. Quanto à distribuição, continuamos estudando a melhor alternativa.
6. Quantos litros de cachaça beberam durante as visitas que foram levados a fazer.
Nós trouxemos de volta para França mais do que bebemos durante as filmagens, naturalmente. Ao todo conseguimos trazer discretamente umas 13 garrafas nas nossas malas…
Como levar isso tudo em uma mala para a França?

Como levar isso tudo em uma mala para a França?

7. Como distinguir uma boa cachaça de uma cachaça qualquer?

O processo de fabricação e o preço do produto final são boas indicações da qualidade do produto. Um litro de cachaça que custe menos do que um litro de leite (o que acontece, e é um grande problema) não pode ser coisa boa.
8. Como foi a feira da cachaça em Paraty, poderia descrever o evento para quem nunca foi?
Paraty por si só já vale a visita, mas um evento como esse dá um ar todo especial à cidade. Há até um roteiro gastronômico de cachaça, e a gente adorou provar todos os pratos típicos com um toque especial do destilado. O Festival da Pinga é o que pode-se esperar do nome – muita cachaça, muita festa, muita musica e muita, muita gente, de todos os horizontes. Recomendamos a visita durante uma hora ou dia mais calmo, em que se possa conversar com os produtores. Eles tem muitas histórias pra contar! Menção especial para Corisco e Engenho d’Ouro.

9. “Ceci n’est pas de l’eau” é vosso primeiro projeto de filme documentário. Quais são vossos projetos para o futuro?

Temos algumas ideias, aqui e ali. À voir!

10. Uma brasileira e um americano em Paris, poderiam por favor citar-nos seu diretores preferidos (um americano, um brasileiro, um francês).

 
Pergunta difícil. Ana Clara – Fernando Meirelles, John Waters, Jean-Pierre Jeunet.Yann-Yves – Walter Salles, irmãos Cohen, Mathieu Kassovitz.

A Sunday of Transcriptions from Ceci n’est pas de l’eau on Vimeo.

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Zarpante ao vivo nos estúdios da RDPI

Zarpante foi mais uma vez entrevistado pela RDPI. Desta vez, ao vivo do estúdio número 24 da Rádio!

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Foi um prazer para nós conhecer pessoalmente o locutor Jaime F Carvalho, seu simpático companheiro Samuel Ornelas Castro! A conversa foi boa e, para quem não teve a chance de escutar ao vivo, fica aqui o registo de mais um momento de Zarpante na midia!

Lembramos que a RDPI é uma das únicas rádios mundiais a ter a capacidade (graças a satélites muito potentes) de transmitir para o planeta inteiro! Infelizmente, já faz 2 anos que não transmitem em ondas curtas! Isso é triste, pois infelizmente muita gente ainda não tem acesso a internet e é muito importante que essas  pessoas possam ter acesso à rádio graças às ondas curtas! Lembramos aliás que por lei, toda rádio portuguesa deveria transmitir em ondas curtas! A RDPI conta com todos nós para poder voltar a oferecer esse serviço de ondas curtas!

Para apoiar, basta assinar a petição pública online clicando aqui! 

Zarpante já assinou! e tu?

Leia também o ARGUMENTÁRIO PRÓ ONDA CURTA DA RDP.

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Entrevista com o realizador Reza Hajipour

O Curta metragem “O Bebe”, realizado pelo iraniano Reza Hajipour, venceu o prémio de melhor curta escolhida pelo público do FESTin 2013!

O Bebe

O Bebe

Tivemos a oportunidade de conhecer pessoalmente o simpático realizador, na cidade onde reside, Lisboa, e aproveitamos para entrevistá-lo! Leia o resultado desse encontro logo abaixo!

  • Quem é Reza Hajipour?

– “Me Chamo Mohammad Reza Hajipour, um nome difícil de ser pronunciado pelas pessoas: por isso, me apresento aos luso-falantes como Reza Hajipour.

Nasci em Fouman, Irão, em 1977. Trabalhei como produtor de rádio e TV em meu país. Mais tarde me interessei pelo cinema e comecei a realizar curtas.

Em 2008 me mudei para Portugal onde continuo a fazer curtas.”

Reza Hajipour

Reza Hajipour

  • O que o levou a escolher Portugal como pais de residência?

– “Em 2007 meu primeiro curta “O primeiro Dia de trabalho” foi seleccionado no festival de curtas Fike em Évora. Durante minha curta estadia em Portugal, achei as pessoas muito calorosas.

Tinha amigos de vários países mas nunca tinha tido a chance de conhecer portugueses. Então decidi morar aqui porque para mim Portugal era como minha casa e durante os 5 anos que passei aqui, nunca senti falta do meu país.”

  • O que mais gosta em Lisboa?

– “Eu adoro os lugares históricos de Lisboa: Alfama, Belem, Largo do carmo, e claro, o chiado. Mas meu lugar preferido, é a Marginal. É uma parte impresionante de LisboaI. Me acontece de simplesmente pegar meu carro, ir de Lisboa a Cascais e voltar só porque adoro essa estrada.”

  • Pode nos falar um pouco de sua trajetória na rádio? Em que rádio trabalhou? Como foi a experiência para você? Isso lhe ajudou no setor audiovisual?

Eu estudava uma linguagem africana (Hausa) na faculdade e comecei a trabalhar como tradutor na rádio. Meu superior na rádio me incentivou a fazer um curso de produção radialística. Um ano depois, depois de ter completado o curso com sucesso comecei a trabalhar na Rádio Hausa como produtor.

Era um trabalho muito difícil no começo, porque eu precisava dirigir os apresentadores do programa e ter a certeza de que falassem sempre na língua “Hausa” de maneira correta. Aprendi tudo sobre rádio produção na época em que o sistema de rádio estava passando de analógico a digital. Nesse sentido, como produtor de rádio, tive que actualizar meus conhecimentos à essa nova tecnologia. Trabalhar na rádio me fez prestar mais atenção nos sons que me rodeiam. Meu programa de rádio ganhou dois prémios em um festival de Rádio e TV no Irã.

  • Qual foi o seu primeiro contato com o cinema? Quando você decidiu que queria trabalhar com o cinema?

– “Quando eu era garoto, não existia aparelho algum para ler vídeos no Irão, apenas um antigo projetor de filmes, cuja  venda ou aluguer eram proibidos. Meus tios e eu éramos fãs de Bruce lee mas não podíamos assistir a seus filmes no cinema, então a única solução era alugar filmes com um projector muito caro e ilegal, e precisávamos ver 4 filmes virando a noite em nossa casa. Esse foi o meu primeiro contacto com o cinema aos 7 anos de vida.

Mais tarde, ao trabalhar na rádio e na TV, eu fazia diferentes programas por semana, mas não gostava tanto porque eram programas básicos. Eu tinha muitas ideias e histórias surgindo em minha cabeça mas não sabia o que fazer com elas. Por isso fui estudar cinema e aprender como escrever minhas histórias  em uma linguagem cinemática. Um ano depois, terminei a escola de cinema e realizei meu primeiro curta.”

  • Quais são suas influencias artísticas?

Existem diferentes tipos de arte que me influenciam como director.

A literatura persa e russa me influenciaram bastante: as histórias de  Sadegh Hedayat, os poemas de  Ahmad Shamlou no que diz respeito aos persas,  e, do lado russo, as histórias curtas de Anton Chekhov ou as de Nikolai Gogol, como por exemplo “The Overcoat” que me marcou fortemente.

No cinema é mais complicado porque é impossível  dizer que eu goste de todos os filmes de um director. Geralmente eu prefiro filmes que mostrem a natureza humana e nossos comportamentos. Um bom exemplo é o do personagem “Travis”no filme “Taxi Driver”de Martin Scorsese. Ao assistir esse filme, podemos ver como cidadão comuns podem revelar assassinos. No filme “The Mist”de Frank Darabont, as criaturas extravagantes e assustadoras que se encontram ao longo de todo o filme, não me impressionam, o que me parece interessante, é como as pessoas reagem nesse tipo de situação e como mudam. Existem muitos exemplos mas isso fica para outra hora. De maneira geral, eu fui influenciado por alguns diretores como Giuseppe Tornatore, Stanley Kubrick, Frank Darabont, Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, Roman Polanski e Quentin Tarantino.

  • Onde vai buscar a fonte de inspiração para escrever seus roteiros?

– “A ideia original de cada história que escrevi até agora, foi sempre produto da observação das pessoas e do que está ao redor de mim. Quando eu tenho uma ideia, eu  a trabalho e desenvolvo. Tenho respeito por todo tipo de história ou de filmes, mas para mim, as melhores histórias são aquelas em que os personagens são credíveis e em que o público cria uma simpatia pelo personagem.”

  • Poderia nos resumir em uma frase o que é o cinema para você?

– “O cinema é imaginação e criação 24 vezes por segundo.”

  • Historia curiosa ou melhor lembrança de filmagem ou produção?

– “Estávamos fazendo um longa metragem no Irão, eu era o primeiro assistente do director do filme. Estávamos no meio do deserto filmando uma cena de tiros entre policiais e traficantes. A esposa do produtor executivo se sentiu mal e precisava voltar para Tehran. No entanto, não podíamos parar as filmagens por causa disso, mas tampouco conseguíamos encontrar quem quer que seja para substituí-lo. O produtor me pediu que ocupasse esse cargo. Por consequência, eu trabalhava como produtor executivo durante o dia e, na parte da noite, fazia meu trabalho como assistente de direcção na cena. Pela primeira vez na minha vida, eu fiquei acordado durante 72 horas!”

  • Queremos descobrir bons filmes iranianos. Que realizadores recomendaria?

– “Meus realizadores iranianos favoritos são:  Bahram beyzaie, Dariush Mehrjui, Naser taghvai, Ali Hatami and Asghar Farhadi.”

  • O seu curta “O Bebe” foi escolhido pelo público como o melhor curta do FESTin 2013. O que esse prémio representa para você e quais são as portas que poderiam ser abertas graças a essa menção honrosa?

-“É uma honra para mim fazer filmes em português! Hoje me sinto como parte integrante da comunidade portuguesa.

Ano passado,  o Sapporo Film Festival seleccionou 4 directores de curtas de diferentes partes do mundo, e fui um dos escolhidos,

quando me perguntaram que país eu representava, Irã ou Portugal, respondi sem pestanejar: Portugal.

O Euro Channel selecciona um curta por país europeu por ano para representar o cinema do velho continente. Foi um grande momento para mim, quando escolheram meu filme, entre vários outros curtas portugueses, para ser transmitido no canal deles.

Agora, com a preferência do público pelo meu curta “O Bébé”, e o reconhecimento deste, como o curta preferido do público no FESTin 2013, pensei: “Agora minha responsabilidade é maior que anteriormente, porque eu represento realmente o cinema português”. Essa menção honrosa me dá mais energia para continuar meu trabalho.”

  • Quais são os seus projetos (curtas, filmes, programa TV…) para o futuro?

– “No momento, estou trabalhando em um script para um curta metragem chamado “Os Olhos”. Escrevi essa história faz uns 7 anos e reescrevi várias vezes corrigindo até chegar ao ponto desejado. Acredito que seja a melhor história que escrevi até hoje.

Produzi todos os meus filmes até agora mas este curta tem muitas despesas previstas e por isso procuro investidores e produtores para meu próximo filme.”

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Ao vivo na RDPI

Fomos entrevistados ao vivo pelo pessoal da RDPI! Clique no “Play”abaixo e escute!

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Entrevista com Aleh Ferreira

O músico brasileiro Aleh Ferreira foi entrevistado por Zarpante! Além de ser um autentico mestre do swing, amigo e parceiro do site Zarpante e de seus integrantes, ele é um ser humano formidável!

A música que faz é tão cheia de energia, e tão atual, que as vezes até esquecemos que o artista já leva uma certa bagagem nas costas e teve por exemplo a felicidade de integrar a mítica Banda Black Rio!

Aleh Ferreira / Foto: Gabriel Pedramarrom

 

A entrevista foi feita por email para agilizar o processo, mas as fotos que acompanham foram feitas em Paris, pelo fotógrafo brasileiro, Gabriel Pedramarrom!

Só resta degustar esta entrevista acompanhada pelas fotos especialmente feitas para a ocasião!

– Quem é Aleh Ferreira?

– “Não consigo vê-lo completo; só vejo as mãos (rsrs), só tenho palpites, mas é alguém que acorda todo dia sabendo que precisa melhorar, melhorar o quê? Ser uma pessoa melhor, fazer boas escolhas.

Ser uma pessoa melhor no que faz, aprender o “não” que liberta, se livrar do “sim” que vicia, perceber melhor o sentido da vida, quando ela fala alto ou sussurra, exercitar a paciência constantemente”

É uma infinidade de coisas que ele busca: saber terminar e sempre recomeçar.

– Quando e porque começou a fazer música?

-“A música me capturou. Embora não tenha nenhum músico na minha família, se ouvia muita música brasileira, e de tudo mais, nos anos 70, quando ainda era um menino.

Das velhas canções românticas, da era do rádio ao Tropicalismo, e ao soul dos anos 70, de James Brown, Stevie Wonder,Tim Maia e Michael Jackson. Do baião de Luiz Gonzaga à bossa nova de João Gilberto e Tom Jobim. Dos sambas inspirados de Cartola e Paulinho da Viola à diversidade melódica e genialidade metafórica das letras de Chico Buarque, Luiz Melodia, Jards Macalé, Gilberto Gil e Caetano Veloso, Gonzaguinha e muitos outros.

Ganhei meu violão aos 13 anos, porque deram o meu cão de estimação, pois íamos morar num apartamento. Fui aprendendo com os discos, autodidata mesmo. Mas, ao frequentar o ensino médio, eu não vislumbrava a música como carreira. Pensava em ser psicólogo, arquiteto, sociólogo. Pensei finalmente em cursar comunicação, na área de cinema. Foi quando eu percebi que já tava trabalhando como músico, pra pagar as minhas despesas básicas.Tocava na madruga e trabalhava no mesmo curso em que eu estudava, como “bolsista”. Dormia pouco, nestas idas e vindas, e não conseguia me preparar bem pra enfrentar uma federal, que era privilégio de poucos, na época.

Ao mesmo tempo que comecei a entrar no meio da música, comecei a me decepcionar com o academismo. Pensei até em cursar música, mas ouvia histórias sinistras, de alunos que eram suspensos da escola de música da UFRJ por tocarem Tom Jobim. Na época, não existia o curso de música popular, e quem fizesse música teria que cursar o erudito. Nada contra, mas já estava envolvido pelos primeiros ares da boêmia criativa carioca. Indo pra música popular, além de redescobrir e reinventar o Brasil em que eu acreditava, eu estava aprendendo sobre psicologia, sociologia, arquitetura, comunicação e cinema, através das obras e, num breve momento, com os boêmios inteligentes e bons de papo.”

– Quais são suas inspirações?

-“Estas que eu falei que ouvia, quando menino, e que ainda ouço até hoje, mas estou sempre atento a algo novo, a algo desconhecido. Isso me dá estímulos. Ver filmes e ler livros, também.”

– Samba preferido? Fado preferido? O que você escuta quando não está tocando?

-“Os sambas de Cartola, de Paulinho da Viola, de Zé Keti. Os fados que a Carminho canta, aquele do marinheiro é incrível (“Meu amor marinheiro”). Gosto muito do cd do Criolo. Sou fã mesmo. Ele teve uma boa sacada e é um exemplo único e contemporâneo de quem chegou ao “mainstream” brasileiro pelo talento. Tô voltando a ouvir soul-funk. Tenho apego a tudo que mescle a tradição e a modernidade.

Normalmente escuto o que pede o meu estado de espírito. Assim, tem dias em que a minha cabeça não quer ouvir nada, quer ouvir a matéria prima da música, sabe? O mistério do silêncio, que não é silêncio nenhum, é denso e fluente. Fico relaxado e, acompanhando esses sons da natureza original, normalmente vem uma música.

Onde eu moro é bom fazer isto, pois ouvem-se crianças, um carro distante, o vento, pássaros, uma música trazida pelo vento e distorcida, que você ouve em outro tempo.”

Aleh Ferreira / Foto de Gabriel Pedramarrom

– Como define seu estilo musical?

-“MPBSOULSAMBAGROOVE: esse foi o nome do meu primeiro cd solo, o que tem ‘Dona da banca”, e eu escolhi este nome, porque as pessoas viviam me fazendo esta pergunta e eu tinha, e tenho ainda hoje, uma certa dificuldade de responder. A mesma dificuldade de me rotular e de o mercado e a indústria cultural entenderem o que eu quero, ou qual é o meu sabor.

Esses obstáculos me impulsionam na busca de música “boa”, ou seja, uma música que transcenda, que cause um estranhamento e, ao mesmo tempo, se sinta como familiar, peculiar. Uma música que seja com clichês ou com metáforas, ou que abuse em simbolismos, mas que mexa com o inconsciente coletivo.

Não sei se essa música precisa ser de um determinado estilo, mas busco essa música dentro e fora de mim.

Claro, tem algo constante, que é o “Swing”. Isso eu sei que vem no meu DNA. Herdei da minha mãe.

Minha música vem do berço da cultura afro-brasileira, com a influência das harmonias europeias, do samba-choro, dos empréstimos modais do Marvin Gaye e do Stevie Wonder, e muito tambor, enquanto dormia e o terreiro ressoava, trazendo as vibrações musicais milenares dos orixás.”

– Como é seu processo de criação? Como são as etapas?

-“Ouço aquele silêncio, vem uma melodia na cabeça, vou pro gravador, canto, pego o violão, toco, esqueço do mundo, enxergo as palavras do som, escrevo, e aí começa aquela dor, aquele limite a ser transposto, quando vejo, passou, que dor que nada, a música tá boa, ou tsk tsk ainda não, ou, caramba! Fui eu que fiz isto?

Foi assim com “O Sonhador”:

percebi que a música era boa, logo nos primeiros compassos, mas não estava pronta, era a canção que eu sonhava, quase que buarquiana. Então, senti uma responsa e ela ia saindo, e aquela dor, e aí, 30 minutos depois, lá estava ela pronta. É estranho falar assim, mas desta, modéstia à parte, eu gostei, mas não são todas as de que eu gosto assim.

Esse é o processo que eu prefiro. Tem outros processos: melodia pra letra pronta, escrever uma prosa, ir cantando e transformando em verso, e as músicas de encomenda, como Cyber cabaret pro longa-metragem “Elvis e Madonna.”

– Fale um pouco de sua relação com a Europa (suas ultimas vindas, suas próximas vindas, seu público e seus planos)?

-“Embora tenha um tempo na estrada, comecei as viagens para o exterior nos últimos dois anos. A primeira foi para a África do Sul, na Copa de 2010, com a Banda Black Rio. No mesmo ano, fui para a Inglaterra, a convite da Universidade de Oxford, para um show de encerramento de uma semana literária brasileira. Aproveitei e fiquei uns dias em Londres, fiz algumas Gigs, alguns amigos, e fui conhecer Paris e fazer um show informal na Cité Universitaire. Estas aparições me renderam um retorno seis meses depois, quando cantei num evento alternativo em Londres, o Makumba Fest, e fiz um show em Paris, no Studio de L’Ermitage. Ambos os eventos pra umas 300 pessoas. Passei também pelo Favela Chic, convidei a Thais Gullin pra dar uma canja. Conheci até o Chico Buarque.

Então, toda essa experiência já estava saindo do campo do superficial, e pensei: vou continuar este investimento no exterior, meu cd está sendo distribuído aqui na Europa, e tem este imenso circuito de festivais.

Então retornei em 2012, fiz várias Gigs em Londres. Planejo, inclusive, gravar um disco de afro-brazilian beat, com um músico produtor que conheci lá. Fiz o Summerset House Festival, no evento na Casa Brasil, no período dos Jogos Olímpicos. Retornei a Paris, pra mais um show no Favela Chic, fui à Dinamarca me apresentar lá no Brasil Tropicália, e finalizei cantando na primeira tournée européia, com a Banda Black Rio, na qual passamos por Paris (New Morning), Amsterdam (Paradiso) , Bélgica (Antuérpia) e Londres (Ronnie Scoot’s).

Minhas metas agora são chegar a Portugal e também fazer um disco pra Europa, gravado na Europa, com participações de artistas europeus.”

Aleh Ferreira / Foto: Gabriel Pedramarrom

– E no Brasil ?

-“Fazer o DVD Aleh+Samba e meu novo cd pra 2013.”

– Você nos apresentou o filme RIP, bem como o curta Remixofagia. Gostaríamos de conhecer seu ponto de vista sobre as novas formas de difusão musical e sobre os direitos autorais. Como isso influencia seu trabalho?

-“Quando gravei meu primeiro disco solo, a realidade da indústria era diferente da do meu primeiro cd, com o BANTUS. No momento em que eu consegui um sucesso, através da mídia alternativa, a indústria estava em crise, com o advento da digitalização: gravadoras fechando, muita gente sendo mandada embora. Esse era o cenário, e eu com um cd cheio de samples: Zé Keti, Cartola, Martinho da Vila. Eu e muitos músicos da época não tínhamos total noção do que acontecia. Muita gente sampleava a torto e a direito.

Estava na gravadora independente (Nikita), fui atrás das autorizações e consegui. Dona da Banca foi um sucesso, o cd não vendeu muito. Foi um paradoxo: mídia espontânea bombando, outros valores brotando.

Logo depois, o D2, pela Sony, fez o “À procura da batida perfeita”, cheio de samples, e um dos maiores sucessos de público e crítica na época.

Com o Remixofagia, eu percebi que, até aquele momento, o Brasil era muito democrático, no que diz respeito à propriedade intelectual. Isto porque está no cerne da nossa cultura a “antropofagia”. Comemos literalmente a carne dos europeus, durante uns 250 anos, no mínimo, até eles completarem o processo caótico de colonização, e isto deixa um rastro na nossa cultura, que se reflete, anos depois, na nossa criação. Devolvemos com originalidade o que vem de fora, como num movimento inverso, que
começou no Tropicalismo. Chamo esse movimento inverso de “Regorgitofagia”.

Os DJs dos anos noventa salvaram a crise criativa musical, resgatando levadas, produzindo, “loopeando” e “sampleando” direto, e aí veio o acid jazz. Redescobriram a Banda Black Rio em Londres e, no Brasil, o preço do vinil TIM MAIA RACIONAL, que era uma joia rara, subiu muito. Ouvi dizer que teve gente que pagou 1000 pratas nesse vinil.

Os anos noventa foram importantes, no sentido da valorização do retro. Foi o que segurou essa crise criativa musical, até as torres gêmeas caírem. Então vieram a digitalização e a explosão tecnológica, que deram informação pra quem não poderia comprar nunca. Mais informação, mais recursos, menos grana, pois a globalização não globaliza o capital e, quanto menos grana, mais criatividade e mais experiências e mais regurgitofagia, até chegarmos ao “mashup”. Muito interessante tudo isto.

Por um outro lado, o autor fica obrigado a se interpretar, pois a possibilidade de seus direitos fonomecânicos minguarem é crescente, e ele tem de ir pra estrada, pois vive de música e não pertence à elite da “alta cultura musical das capitais do capital”.

Me parece que, hoje em dia, no Brasil, já temos os primeiros sinais de vida deste mercadão. Mas isto ainda é pra poucos. Como disse o Rômulo Fróes. Nos últimos dez anos, o artista que pertencia à era do vinil corria em busca do sucesso, e o de hoje, o da era do download, foge do fracasso. Não vejo isto como pessimismo e sim como uma visão realista, pois a era do download não é romântica.”

– Qual é sua concepção da lusofonia? Curte sons de outros países de língua portuguesa? Poderia nos citar alguns exemplos?

-“Cesária Évora, Carminho. Paulo Flôres,Tcheka. Preciso conhecer mais. Me tornei um sócio colaborador de Zarpante, também com este intuito: difusão da cultura lusófona.”

– Você não acha que os artistas desses diferentes países deveriam co-produzir mais projetos juntos, mesmo estando geograficamente distantes?

-“O melhor a se fazer, neste momento “transcaótico” que passamos, são estas interações: esta é a melhor herança dos tempos globais. Nunca o homem reuniu, criou tantos recursos e ferramentas, pra que realmente haja uma evolução completa.

O momento é este, e os artistas, de todas as áreas, estão percebendo isto. Já circulam na rede esses ventos. Estar conectado não é ser mimetizado por esta tela, fazendo contatos virtuais apenas. Pra que a conexão se complete e seja verdadeira, é preciso ir até o contato, esteja onde estiver e, de preferência, de culturas diferentes. A lusofonia tem muito a dar neste aspecto.”

Aleh Ferreira / Foto: Gabriel Pedramarrom

 

 

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