Africanidade!

Arte e Cultura do continente mãe ou de influência africana!

– Dia Internacional para Relembrar o Tráfico de Escravos e sua Abolição

– Países africanos classificados para a Copa Do mundo de 2014!

– Um podcast dedicado à música dos anos 60-70 nos países africanos de língua oficial portuguesa.

– Museu Afro-Digital

http://www.museuafro.ufma.br/

Poema: Mulheres Negras.

De cabelo enrolados

Do corpo lindo desenhado

Da pele negra aveludada

Mulher afro abençoada

Do fácil rebolado

Requebra no sambado

Poesia da expressão

Da música de tamborim ou violão

De alma linda e bela

Se revela iluminada

Mulheres guerreiras

Altruístas e verdadeiras

De beleza sem igual

De amor maternal

Sem medo de lutar

Pela vida e pelo amor

Mulher negra linda

És bela como a flor

Por: Oluandeji

– MAGIA NEGRA

Poeta Sergio Vaz

Poeta Sérgio Vaz

 Magia negra era o Pelé jogando, Cartola compondo, Milton cantando. Magia negra é o poema de Castro Alves, o samba de Jovelina…
Magia negra é Djavan, Emicida, Mano Brow, Thalma de Freitas, Simonal. Magia negra é Drogba, Fela kuti, Jam. Magia negra é dona Edith recitando no Sarau da Cooperifa. Carolina de Jesus é pura magia negra. Garrincha tinhas duas pernas mágicas e negras. James Brown. Milton Santos é pura magia.
Não posso ouvir a palavra magia negra que me transformo num dragão.
Michael Jackson e Jordan é magia negra. Cafu, Milton Gonçalves, Dona Ivone Lara, Jeferson De, Robinho, Daiane dos Santos é magia negra.
Fabiana Cozza, Machado de Assis, James Baldwin, Alice Walker, Nelson Mandela, Tupac, isso é o que chamo de magia negra.
Magia negra é Malcon X, Martin Luther King, Mussum, Zumbi, João Antônio, Candeia e Paulinho da Viola. Usain Bolt, Elza Soares, Sarah Vaughan, Billy Holliday e Nina Simone é magia mais do que negra.
Eu faço magia negra quando danço Fundo de Quintal e Bob Marley.
Cruz e Souza Zózimo, Spike Lee, tudo é magia negra neles. Umoja, Espírito de Zumbi, Afro Koteban…
É mestre Bimba, é Vai-Vai, é Mangueira todas as escolas transformando quartas-feiras de cinza em alegria de primeira.
Magia negra é Sabotage, MV Bill, Anderson Silva.
Pepetela, Ondjaki, Ana Paula Tavares, João Mello… Magia negra.
Magia negra são os brancos que são solidários na luta contra o racismo.
Magia negra é o RAP, O Samba, o Blues, o Rock, Hip Hop de Africabambaataa.
Magia negra é magia que não acaba mais.
É isso e mais um monte de coisa que é magia negra.
O resto é feitiço racista.

Poema de Sérgio Vaz

– Cinema africano:

Idrissa Ouedraogo – Kini And Adams (1997)

Burkina Faso | Idrissa Ouedraogo | 1989 | Drama | IMDB
Inglês | Legenda: Português | Espanhol
90 min | XivD 720 x 432 | MPEG-4 AVC 1928 kb/s | 25.000 fps
1.37 GB
Kini And Adams
Dois amigos, Kini e Adams, vivem como agricultores pobres em uma comunidade rural. Eles lutam para consertar um carro velho que lhes permitam mudar para uma cidade grande e encontrar uma vida melhor.
Vencedor do Prêmio do Júri em Cannes 1998

Assista o filme completo acessando o link seguinte: http://www.africanfilmlibrary.com/

Baixe as legendas em português aqui: Baixar Legenda

– Den Muso (1975)

Mali | Souleymane Cissé | 1978 | Drama | IMDB
Bambara | Legenda: Português90 min |
XivD 544 x 400 | 1053 Kbpskb/s | 25.000 fps
699 MB
Den Muso
Uma jovem muda é estuprada e fica grávida, com consequências desastrosas dentro de sua família. O filme desenha também a situação social-econômica em áreas urbanas do Mali nos anos 1970, particularmente em relação ao tratamento dado as mulheres.
Por favor, semeie! Semear é muito importante para que outras pessoas tenham acesso ao filme.
Créditos Lu Stoker e Caçador do MKO

Links interessantes:

Sobre os filmes africanos

Quem foi Carlos Mariguella?

Hino a negritude:

Autoria do falecido PROF. EDUARDO DE OLIVEIRA

Sob o céu cor de anil das Américas

Hoje se ergue um soberbo perfil

É u’a imagem de luz

Que em verdade traduz

A história do negro no Brasil

Este povo em passadas intrépidas

Entre os povos valentes se impôs

Com a fúria dos leões

Rebentando grilhões

Aos tiranos se contrapôs

Ergue a tocha no alto da glória

Quem herói nos combates se fez

Pois, que as páginas da história

São galardões aos negros de altivez

Levantado no topo dos séculos

Mil batalhas viris sustentou

Este povo imortal

Que não encontra rival

Na trilha que o amor lhe destinou

Belo e forte, na tez cor de ébano

Só lutando se sente feliz

Brasileiro de escol

Luta de sol a sol

Para o bem do nosso país

Ergue a tocha no alto da glória…

Dos palmares os feitos históricos

São exemplos da eterna lição

Que no solo tupi

Nos legara Zumbi

Sonhando com a libertação

Sendo filho também da mãe África

Aruanda dos deuses da paz

No Brasil este axé

Que nos mantêm de pé

Vem da força dos orixás

Ergue a tocha no alto da glória…

Que saibamos guardar estes símbolos

De um passado de heróico labor

Todos numa só voz

Bradam nossos avós

Viver é lutar com destemor

Para frente, marchemos impávidos

Que a vitória nos há de sorrir

Cidadãs, cidadãos

Somos todos irmãos

Conquistando o melhor porvir

Ergue a tocha no alto da glória…

‘Caxirola’ representará a cultura afro-brasileira na Copa do Mundo de 2014

Fonte:  Palmares Texto de Drielly Jardim
Divulgação / Ministério do Esporte

Luis Fernandes, Carlinhos Brown e Aldo Rebelo com as “Caxirola”

A cultura afro-brasileira já é presença confirmada na Copa do Mundo da FIFA 2014. Durante a cerimônia de entrega dos diplomas de chancela aos aprovados no Plano de Promoção do Brasil para o mundial, realizada pelo Ministério do Esporte, o músico Carlinhos  Brown apresentou, em primeira mão, a “caxirola”. Criado e batizado por Brown, o instrumento é uma espécie de vuvuzela inspirado no caxixi, um tipo de chocalho de origem africana usado, principalmente, como complemento do berimbau.

Divulgação

Caxixi

Diferentemente do caxixi, feito de palha, a caxirola é feita de plástico e ganhou as cores da bandeira nacional. “O caxixi é um instrumento que já estava propício a extinção, porque é feito de palha e hoje já não se pode mais extrair da natureza para fazer. Mas existe um plástico verde, e, por meio de pesquisa, estamos há dois anos trabalhando a caxirola”, conta Brown. “É um instrumento para a Copa. E é um instrumento permitido de entrar no estádio, isso tudo foi muito bem planejado. É leve, é para criança, foi bem pensando”, detalhou o músico.

Divulgação

Caxirola

Carlinhos Brown espera unir música e futebol, tornando a Copa do Mundo uma experiência inesquecível. “Nós acreditamos que poderíamos aproveitar a proposta que foi sugerida pela África do Sul, que era a vuvuzela. Muitos reclamavam que era barulhenta, mas ela prenunciava a oportunidade de o torcedor ter a sua voz. Por isso, dentro do projeto Candeal 2014, nós criamos a caxirola”, contou.

A caxirola faz parte de 96 projetos aprovados pelo governo brasileiro para promoverem o país durante a Copa do Mundo de 2014. Ao todo, 199 projetos foram analisados pelo governo. As inscrições foram gratuitas e a única exigência para participar era estar ligado à pelo menos um dos três eixos temáticos definidos: negócios, turismo e sociocultural. A seleção foi feita em duas etapas, que avaliaram a habilitação técnica e o mérito das propostas.

Divulgação

Pedhuá

Outro projeto ligado à música, que também foi credenciado pelo Ministério do Esporte, é o pedhuá, espécie de apito de origem indígena que deverá ser produzido em grande quantidade para Copa. Para o idealizador do projeto, Alcedo Medeiros de Araújo, o pedhuá fará uma boa combinação com a caxirola de Carlinhos Brown.

“Um tem a sonoridade de sopro e o outro tem de percussão. Então, com certeza, vai unir a questão do slogan da Copa: ‘Juntos num só ritmo’. Ambos formam o ritmo brasileiro e vai ser um casamento perfeito”, afirmou Alcedo, que revelou já ter proposta de empresas nacionais e estrangeiras para produzir o pedhuá antes mesmo da Copa das Confederações de 2013.

Fontes: G1 e Ministério do Esporte.

Glauber Queiroz/MEAlcedo Medeiros de Araújo e Carlinhos Brown mostram o Pedhuá e Caxirola.

Mulheres Negras!

Ouça Mulheres Negras – Musica compostas por Eduardo do Facção e Cantada por Yzalú:

Diamante de sangue:

Descubra como os diamantes produzem tormento para os africanos:

NOVA ÁFRICA – O BERÇO DA HUMANIDADE

Há 104 anos nascia Solano Trindade, o criador da poesia negra brasileira

Por Drielly Jardim

“A leitura dos seus versos deu-me confiança no poeta que é capaz de escrever Poema do Homem e O Canto dos Palmares. Há nesses versos uma força natural e uma voz individual, rica e ardente, que se confunde com a voz coletiva.”. Assim Francisco Solano Trindade, nascido em 24 de julho de 1908, em Recife-PE, foi descrito pelo escritor e poeta Carlos Drummond de Andrade.

Poeta, folclorista, pintor, ator, teatrólogo e cineasta, Solano Trindade fez uso de seu talento a favor da luta contra o racismo e ao estudo e difusão da cultura afro-brasileira, além de ser reconhecido por vários críticos, como o criador da poesia “assumidamente negra” no Brasil.

Filho de um sapateiro e de uma operária, Solano Trindade ajudou a organizar o I Congresso Afro-brasileiro, ocorrido em 1934 em Recife, além de fundar a Frente Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro Brasileiro, também no Recife. Na década de 1940, residiu no Rio de Janeiro e posteriormente, em São Paulo, transformou a cidade de Embu num centro cultural onde dezenas de artistas passaram a viver da arte, o que fez a cidade ser batizada com o nome de Embu das Artes.

Por não esconder que era lutador, grande defensor da liberdade e da cultura negra no país, Solano Trindade sofreu perseguições. Um de seus poemas mais conhecidos, “Tem Gente com Fome”, foi musicado em 1975 pelo grupo “Secos & Molhados”. A música foi proibida pela censura, sendo resgatada e gravada em 1980 por Ney Matogrosso, no álbum “Seu Tipo”. Mas, por causa desta música, em 1944, Solano foi preso e teve o livro “Poemas de uma Vida Simples” apreendido. Além disso, em 1964, um dos seus quatro filhos, Francisco Solano, morreu numa prisão da ditadura militar.

Entre suas publicações mais importantes estão: Poemas de uma vida simples 1944, Rio de Janeiro, e Cantares do Meu povo 1963, São Paulo, além de uma antologia chamada Poemas Antológicos lançada em 2008 e ilustrada por sua filha Raquel Trindade.

No teatro, foi Solano Trindade quem primeiro encenou a peça “Orfeu”, de Vinícius de Morais, em 1956, depois adaptada ao cinema pelo francês Marcel Cammus. Como ator, trabalhou nos filmes “Agulha no Palheiro”, “Mistérios da Ilha de Vênus” e “Santo Milagroso”.

Por onde passou, Solano incentivou e ajudou a construir inúmeras iniciativas culturais e políticas, dentre eles o Teatro Experimental do Negro, que levou para a Europa um teatro cheio de música, cores e poesia, com a influência de danças populares como o maracatu.

Solano Trindade faleceu no Rio de Janeiro, em 19 de fevereiro de 1974, aos 66 anos. Entretanto, deixou aos brasileiros um verso que prova que sua obra é imortal: “Me tornei cantiga determinadamente e nunca terei tempo para morrer”.

Obras – Confira abaixo o documentário ”Solano Trindade – O Vento Forte do Levante”, de Rodrigo Dutra, que tenta construir os caminhos e descaminhos de um dos maiores poetas brasileiros, e a letra da famosa poesia “Tem gente com fome”. Fonte

Tem gente com fome
Solano Trindade

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
pra dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiii

estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio do ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuu

Os Terreiros:

A Estética do Terreiro

Com a proposta de se vislumbrar a materialidade dos “encantados” nos Pajés de Negro, religião praticada na Baixada Ocidental, borda oeste do Maranhão, nordeste do Brasil, este projeto retratou parte da vida material de entidades espirituais conhecidas sobretudo pelas práticas de cura. Tais práticas, ao contrário de outras manifestações religiosas, como o Candomblé, possuem um panteão de divindades (encantados) brasileiros, de origem “cabocla” (da mata, das águas doce ou salgada).
Encantados são espíritos de pessoas que um dia viveram, mas não morreram, ou, nas palavras de Prandi (2001) se “encantaram”, “passando a viver no mundo invisível, do qual retornam ao mundo dos homens no corpo de seus iniciados, em transe ritual. Manifestando-se assim na cabeça de seus filhos ou iniciados, ou nacroa(coroa), como se costuma dizer na mina, os encantados vêem à terra, descem naguma(terreiro) para dançar e conviver com os mortais, estabelecendo com todos os que comparecem aos terreiros relações de afeto e clientela.”
O substantivo – Pajé – que nomeia tanto o sujeito praticante quanto a religião por eles praticada, delineia a dimensão ontológica desta realidade, que possui na imagem dos “encantados” sua figura central.
A iconografia destes encantados é escassa. Não há praticamente “imagem” que os represente e poucos são/estão “materializados” na pintura ou na escultura, pois eles “são” o próprio local onde habitam, o animal que encarnam, ou o santo que os “abriga”, como por exemplo, João da Mata, um encantado que muitos afirmam ser o próprio São João Batista, ou a Princesa Doralice, que é uma “troirinha”.
Os terreiros, entretanto, simbolizam a presença dos encantados da “casa” através de pinturas variadas na parede de seus barracões ou ainda podemos encontra-los nos inúmeros objetos que fazem parte dos ritos, desde tambores e panas até cabaças e alimentos, ornamentos em louvor a este ou aquele encantado, como as bandeirolas e as coroas de flores. A própria pedra de assentamento, tão importante em todos os terreiros, é a expressão máxima da importância material nestes contextos.
Assim, da nossa curiosidade de fora surgiu este projeto, que através das imagens e das palavras busca sintetizar a importância da materialidade nos Pajés, inclusive através da linguagem/cantigas, pois ainda que pareça óbvia, a relação entre língua/imagem e “agentividade” está vinculada a questões mais amplas, como por exemplo, se somente humanos possuem agentividade e se seria esta intencional. Por outro lado, sendo objetos (e então repensamos toda a noção de categorias classificatórias) agentes, que tipos de objectos são estes, e como atuam?
Se a “agentividade” é atribuída também a objetos, portanto “coisas” aparentemente inanimadas, então uma discussão mais adequada sobre o tema se faz necessária. Procurando compreender este universo, eis nossa visão acerca da materialidade, expressa não somente em palavras/conceitos, mas sobretudo na visualidade, quase que metalinguisticamente.
O trabalho foi centrado nos terreiros dos municípios de Guimarães, Pinheiro, Cururupu e Central, localizados especialmente dentro de quilombos. Ali, entre panas e tambores, colares e defumadores, encantados descem à terra para bailar, curar e brincar. Afinal, este é um “brinquedo de cura!”.

A materialidade,a agencialidade e os encantados
Tendo um estatuto tradicionalmente desvalorizado em nossas sociedades, os objetos, como fonte de conhecimento têm-nos conduzido a uma perspectiva logocêntrica: os artefatos têm sido considerados como um conjunto coerente de sinais (J. Baudrillard), frutos de representações coletivas (R. Barthes).
Entretanto, quando vistos desde uma perspectiva não somente da materialidade, mas também da agencialidade, os objectos são sobretudo testemunhas privilegiadas de um “saber fazer”, de técnicas e inovações inscritas numa época e numa sociedade, igualmente frutos de atitudes e práticas, individuais e sociais às quais estão associados.
Assim, a noção de “cultura material” e as reflexões teóricas que hão suscitado entre antropólogos, etnólogos e outros pesquisadores para quem os objetos constituem uma fonte privilegiada de conhecimento, ultrapassam e muito a mera descrição de objetos, sendo de fato interessante observar, nestes contextos, as relações e práticas envolvidas entre estes e seus “usuários”, altamente imbricados aqui (cf Henare, Holbraad & Wastel (2007), (Daston, 2004).
Atualmente muito se tem falado do resgate do patrimônio imaterial, no entanto, a materialidade, nestas religiões, parece ser fundamental para a articulação entre o mundo de “lá” e o de “cá”. Mais que isso, questionar o que seja material ou imaterial é questão importante para começarmos a refletir sobre epistemologias pré concebidas e nem sempre coerentes com as etnografias.
Tratamos, neste ensaio, de conceituar “coisa” (objeto) como algo vazio que, longe de ser dado previamente, espera por sua ativação nos encontros empíricos. Neste sentido, uma abertura analítica torna-se necessária, pois sendo a gama de definições do que sejam “coisas” (ou materialidade) tão aberta, o significado destes conceitos compreende certamente a dimensão espiritual.
Para Ingold (2010) “conceitos” são inerentemente políticos e deste modo é pertinente para alguns distinguir objetos (e por que não, animais) de “humanos”, que, embora estejam num único mundo, apenas os últimos seriam passíveis de elaborações e agentividade.
Mas se seguimos esta linha de pensamento teríamos que os humanos são então “menos naturais”, se pensamos na dicotomia natureza/cultura.
Mas e os objetos, os animais, o mundo mineral e vegetal? Para evitar essa incoerente dicotomia, propomos aqui pensar no ambiente como uma zona de envolvimento mútuo, cujo relacionamento entre os seres se dá justamente por feixes, como luz, como ar, e caminhos. É este “ambiente” que procuramos retratar neste projecto, uma articulação da linguagem escrita e visual.
Ao capturar desenhos, imagens, objetos de uso pessoal dos encantados quando em seus “cavalos” (religioso que recebe a entidade em transe mediúnico), como os colares, as mantas, as panas, toda a parafernália utilizada para as “vistas”, a comida, os tambores e afins estaremos resgatando um conhecimento específico do universo religioso e todo um saber de práticas reelaboradas e consagradas.

A terra dos encantados
A Baixada Ocidental é uma das zonas mais produtivas culturalmente, dentro do Maranhão. Guimarães (antiga Vila de São José), uma das primeiras cidades do Estado, foi porto de comércio agrícola que outrora era a porta de entrada – durante os séculos XVIII até meados do XIX – para a escravidão na Amazônia Legal brasileira.
Na zona rural, comunidades negras e terras herdadas desenvolveram práticas culturais que, desde a decadência dos engenhos e abolição do trabalho escravo, em 1888, tiveram continuidade com recursos da própria transmissão oral.
Retratando a materialidade dos encantados, tratamos de refletir acerca das relações entre a religiosidade local e as apropriações e reelaborações secularmente engendradas nestes locais, através de uma presença católica devidamente marcada seja pelos contatos locais com grupos indígenas (o próprio nome da religião: Pajé de Negros) e toda a importância das curas nestes contextos, sendo importante ressaltar por exemplo que a conversão do Manicongo, o Rei do Antigo Reino do Congo, depois do encontro com os portugueses, data de 1468 (cf Thornton, 2007) o que equivale a dizer que desde o século XV que os povos da área denominada Banto (Guthrie, 1968) conhecem e praticam, de forma reelaborada, o catolicismo de colonizadores portugueses, reinventando aqui a historiografia demográfica do lado de lá do Atlântico.
Neste projeto retratamos visualmente a vida social e material dos espíritos (encantados) nos terreiros de Pajés, assinalando a importância também das doutrinas (cantos) enquanto outra forma possível de materialidade.
As redes sociais entre religiosos e encantados se moldam e se fortalecem basicamente através das palavras (sobretudo cantada) quando estes «descem» na «crôa» (cabeça) de seus médiuns para dar consultas, cantar, afinar relações com os humanos. De tal sorte, a materialização dos encantados através da linguagem se dá de dentro (do mundo da encantaria) para fora, e necessita tanto do Pajé (o religioso) quanto da assistência para que as relações sociais se dêem.
Isto equivale a dizer que a linguagem tem autonomia, não sendo apenas um veículo de transmissão, (Reddy 1979), tampouco um veículo condutor de significado referencial (Goodwin, 1990).
Estas afirmações são evidenciadas através das marcas linguísticas existentes nas doutrinas e cantigas proferidas durante as visitas dos encantados aos terreiros dos Pajés. É a força da palavra, das doutrinas. A palavra-ação, a palavra mágica.
No meio do terreiro, materializando a firmeza da casa, recobrindo o buraco onde são enterrados os símbolos referentes ao caboclo de frente, também chamado guiaou patrão.
É a forma material da magnetização que serve também para proteger o ambiente, mostrando-se em forma de cruz ou estrela de cinco pontas e, especialmente em dias de pajelança ou cura, pode-se ver em seu centro uma vela acesa.
Com gostos peculiares e particulares (que vão desde alimentos, bebidas ou mesmo brinquedos e flores), agradando o encantado o Pajé busca sua proteção e seus favores.
Carregar a guia com as cores do caboclo é uma responsabilidade e ao mesmo tempo motivo de orgulho, pois demonstra que aquela pessoa foi escolhida pela entidade e tem como missão torná-la visível, materializando-a aos olhos de quem acompanha um ritual de pajelança. Colocá-la é vestir-se e revestir-se de uma espiritualidade única e indizível.
Fazendo parte do ritual de pajelança, os tambores conversam com as mãos hábeis dos “batazeiros”, chamando os encantados, que ‘descem’ para brincar ou praticar a cura de doenças espirituais ou materiais que acometem os de cá.
Já o chi-chi-qui das cabaças e maracás faz com que os espíritos se elevem e fluam sobre a cabeça de homens e mulheres do terreiro. Sua força é tamanha que vai alcançar outros lugares, enchendo de magia o ambiente ao seu redor.
Muitas vezes representados de forma pouco convencional, como uma bandeira, uma flor ou um navio, os encantados se materializam em desenhos pintados nos barracões. Sem uma iconicidade direta, somente os iniciados ou pessoas da comunidade são capazes de fazer a relação entre a figura e o significado.

“ Eu já fui uma Princesa
Hoje sou uma Rainha!
Sou filha de D. João
Sou princesa da Pedra Fina!”
“Doralinda da Mina de Ouro
Ela pode e manda amansar seu touro!”

“Sou uma moça encantada
Nas ondas do mar
Sou cigana
E vim passear”

“Rufa meu tambor, que eu quero baiar!”
“Rufa tambor
Rufa tambor, meu pai
Que moça bonita inda não baiou!”

“Pisa direito, pecador, e olha que o chão tem espinho!”

Concepção e texto: Ana Stele Cunha/Texto: Heridan Guterres/ Fotografías: Márcio Vasconcelos

Fonte: Buala

por Ana Stela de Almeida Cunha e Márcio Vasconcelos

Livro que reúne poesias de mulheres negras foi lançado em SP

sexta-feira, 26 / outubro / 2012 by Drielly Jardim

“Foi lançado na sexta-feira (26), o livro “Águas da Cabaça”, da poetisa Elizandra Souza. Com ilustrações de Salamanda Gonçalves e Renata Felinto, a obra faz parte do projeto ‘Mjiba – Jovens Mulheres Negras em Ação’ e reúne textos de sete mulheres negras em diferentes protagonismos.

A obra, que possui mais de 130 páginas, foi lançada na Ação Educativa, na região central de São Paulo (SP), em uma solenidade que teve como convidadas a Dj Vivian Marques, que embalou a noite poética nas pick-ups; a cantora Lívia Cruz, que fez um pocket show e o Ballet Afro Koteban, que se apresentou ao vivo.

O livro é a segunda ação do projeto que foi contemplado pelo VAI – Valorização de Iniciativas Culturais 2012, da Secretaria de Cultura do Municipal de São Paulo.”

– Disk racismo em Brasília!

A partir de 2013, um dispositivo de denúncia próprio deve contemplar a população negra do Distrito Federal. A Secretaria Especial de Promoção a Igualdade Racial (Sepir/DF) anunciou no Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra (20 de novembro) a criação do Disque Racismo, que tem previsão para começar a funcionar em março.

O número ainda não foi definido, mas vai ser específico para as demandas raciais. O propósito da Secretaria é incentivar as denúncias e acompanhar o andamento de cada uma delas. Com isso, além de atender melhor as vítimas de discriminação, reduziria o problema da falta de dados concretos sobre o tema.

Para o presidente da Fundação Cultural da Palmares, Eloi Ferreira de Araujo, o Disque Racismo será uma ferramenta muito importante porque vai ao encontro da construção de uma sociedade livre do racismo e do preconceito racial.

Segundo Eloi, é preciso punir, com o rigor da lei, todas as manifestações racistas e de intolerância religiosa praticadas em face das religiões de matriz africana, além do racismo institucional, que impede a população negra brasileira de exercer plenamente sua expressão de identidade nacional e cidadania, e ao mesmo tempo impossibilita o acesso de negros e negras aos altos escalões dos órgãos públicos e dos grandes postos de trabalho nas empresas privadas.

“Esta iniciativa do Governo do Distrito Federal cumprirá um papel muito importante na igualdade entre todos os brasilienses, dando destaque para que todos acessem aos bens econômicos e culturais desta bela cidade que é Brasília”, disse o presidente da FCP.

O secretário de Promoção de Igualdade Racial, Viridiano Custódio de Brito, afirma que o Disque Racismo será um serviço para receber denúncias e orientar como as vítimas de preconceito podem agir. A ideia é que a pessoa tenha assistência jurídica e psicológica. “Muitas vezes, as pessoas não têm orientação para denunciar. Nós temos planejamento para ter corpo técnico capaz de acompanhar o caso do início ao fim”, afirma Custódio.

Na opinião dele, a partir do momento em que a publicidade em torno do número começar a veicular, as denúncias vão crescer e os agressores se sentirão intimidados a cometerem os crimes de racismo.

Capacitação – A central de telefonia terá sede na Companhia de Planejamento do DF (Codeplan), que vai ceder também a tecnologia necessária. Depois do anúncio do Disque Racismo, terá início a fase de capacitação dos profissionais. Pelo menos 15 devem ser treinados para o atendimento. Um protocolo vai ser criado na primeira ligação da vítima e, a partir dele, os profissionais envolvidos terão detalhes do caso. “Quem sofre uma violência dessas quer uma resposta imediata. O serviço vai ser disponibilizado para dar essa agilidade às vítimas”, assegura o secretário.

Presidente do Conselho de Defesa dos Direitos dos Negros e Negras, Lucimar Alves Martins lembra que o Disque Racismo é um dispositivo usado em outras unidades da Federação, como São Paulo e Rio de Janeiro, e que pode ter um efeito positivo no DF. “A ouvidoria da Sepir recebe situações de vídeos, programas, propagandas injuriosas. O telefone vem para tratar aquilo que atinge a pessoa na convivência diária dela, em situações diretas de preconceito”, detalha Lucimar. A presidente do conselho defende que o racismo destrói a autoestima das pessoas e, dessa forma, tem especificidades que devem ser levadas em conta.

Libânio Alves Rodrigues é promotor de Justiça do Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) e integra o Núcleo de Enfrentamento à Discriminação (NED). De acordo com ele, a ferramenta pode evitar que as pessoas percam os prazos para representar ação criminal. “A grande peneira dessa história é a polícia, que trata o crime como questão de vizinhança. Esse filtro acaba reduzindo as denúncias e não chega ao ponto de registrar a ocorrência”, avalia o promotor. Libânio levanta hipóteses para explicar o baixo índice de aplicação de penas aos agressores. Para ele, muitos dos casos acabam não chegando ao MP, que pode ajuizar ação penal.

Entre 2010 e junho deste ano, 120 ocorrências de crimes relacionados ao preconceito foram registradas no DF, sendo 113 só de injúria racial. Os dados são da Secretaria de Segurança Pública. Em 2012, 31 ocorrências de injúria racial e quatro de discriminação racial foram registradas na Polícia Civil.

Conscientização – O Dia Nacional da Consciência Negra é dedicado à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. Ainda que o ponto alto da celebração aconteça na data da morte de Zumbi dos Palmares, diversas atividades são realizadas ao longo do mês de novembro.””

Fonte: Correio Braziliense

– Ministério da Cultura lança editais para criadores e produtores negros:

“Neste 20 de novembro – Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra – , a ministra da Cultura, Marta Suplicy, lançou editais voltados a produtores e criadores negros, em cerimônia que aconteceu no Museu Afro Brasil, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

Segundo a ministra, o lançamento dos editais, em parceria com a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), será apenas o primeiro passo de tudo que o Ministério da Cultura está criando em ações afirmativas. “A parte mais forte e enraizada da nossa cultura vem da cultura africana. Nós temos que preservar isso e tornar mais visível”, defendeu Marta.

Marta também falou sobre os próximos passos que o MinC dará na direção da criação de ações afirmativas: “É a primeira vez que o Ministério da Cultura tem ação afirmativa nesse sentido. Então vamos ver como isso vai caminhar, corrigir o que não tiver funcionando e ampliar o que estiver funcionando”.

A ministra também aproveitou a cerimônia de lançamento dos editais para assinar a portaria 148/2012 que institui um grupo de trabalho para viabilizar as diretrizes básicas para elaboração do projeto executivo, construção e funcionamento do Museu Nacional Afro Brasileiro de Cultura e Memória.

Estiveram com a ministra Marta Suplicy no lançamento dos editais a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Luiza Bairros; o presidente da Fundação Cultural Palmares, Eloi Ferreira de Araujo; o presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), Galeno Amorim; a coordenadora da Secretaria do Audiovisual (SAv), Lina Távora; o presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte), Antonio Grassi; o secretário de cultura do Estado, Marcelo Mattos Araujo; e o diretor-curador do Museu Afro Brasil, Emanuel Araújo.

Em defesa das políticas afirmativas – A ministra da Cultura defendeu as políticas de cotas sendo adotadas pelo MinC, amparadas em decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e em consonância com ações também do governo federal: “São medidas das quais se espera que só passem a não existir quando tivermos equidade de oportunidade para todas as raças”.

A ministra também rebateu argumentos sobre a política de cotas que acusam a medida de gerar maior preconceito: “Preconceito é negro não ter acesso. É ter talento e não poder expressar esse talento. Na hora em que se dá a oportunidade, se está exatamente quebrando a barreira do preconceito”, argumentou a ministra.

A ministra da Secretaria de Políticas de Promoção de Igualdade Racial, Luiza Bairros, falou sobre a importância de iniciativas dessa natureza para valorizar os talentos que já existem. “Essa decisão do MinC será certamente repercutida nas políticas culturais feitas também pela iniciativa privada. Estou emocionada com as possibilidades que estão se abrindo neste 20 de novembro”.

Para Luiza Bairros, “as artes negras muitas vezes são lidas como folclore. Algo que não tem relação direta com dinâmica atual da sociedade. À medida em que fizermos esses editais, eles darão visibilidade a formas de expressão que dialogam com o Brasil de hoje, com o passado e apontam para possibilidade da cultura se fortalecer em sua adversidade.”

O presidente da Fundação Cultural Palmares, Eloi Ferreira, classificou o lançamento dos editais como um dos atos mais marcantes desde 1888. “A população negra começa agora a assumir o protagonismo para poder fazer a mudança na história desse país e a cultura é instrumento fundamental para isso”.

Os editais – O MinC lançou os editais, num valor próximo de R$ 9 milhões, por meio da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), Fundação Nacional de Artes (Funarte) e Secretaria do Audiovisual (SAv), em parceria entre a Fundação Palmares e Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR/PR).

Com os editais, espera-se formar novos escritores, elevar o número de pesquisadores negros e de publicações de autores negros, incentivar pontos de leitura de cultura negra em todo o país; também premiar curtas dirigidos ou produzidos por jovens negros, na faixa de 18 a 29 anos; investir em criação, produção e fazer com que artistas e produtores negros ocupem palcos, teatros, ruas, escolas e galerias de arte de todo o país.

Fundação Biblioteca Nacional – “Vamos abrir um Ponto de Leitura em cada capital do Brasil. Eles terão oficinas de formação de produtores e criadores negros com a duração de dois meses. Após essas oficinas serão publicadas as criações literárias desses escritores”, afirmou Galeno Amorim, presidente da FBN.

Em um valor total de R$ 4 milhões, a FBN lançou três editais para ampliar o acesso à literatura já existente de autores negros, fomentar o surgimento de novos escritores e pesquisadores e dar visibilidade para suas criações e pesquisas, incentivando a produção de publicações na forma de livros, em meio impresso e/ou digital.

Acesse os editais na página da FBN.

Secretaria do Audiovisual – A Secretaria do Audiovisual, representada na cerimônia pela coordenadora da secretaria, Lina Távora, vai premiar, por meio do Edital Curta-Afirmativo, seis curta-metragens dirigidos ou produzidos por jovens negros, na faixa etária de 18 a 29 anos.

Cada curta terá o investimento de R$ 100 mil. Segundo Lina, “o edital valorizará a juventude em suas particularidades”. A temática dos curtas é livre, não precisando, necessariamente, relatar questões étnicas.

Acesse o edital na página da Sav

Funarte – Além de homenagear um dos maiores artistas negros da história de nosso país em seu nome, o Prêmio Funarte Grande Otelo investirá em criações e produções que contemplem toda uma diversidade de expressões artísticas. Segundo o presidente da fundação, Antonio Grassi, serão quatro prêmios de R$ 200 mil, 12 prêmios de R$ 150 mil e 17 prêmios de R$ 100 mil.

O objetivo é que artistas e produtores negros ocupem palcos, teatros, ruas, escolas, galerias de arte de todo o país. Para isso, a Funarte vai fomentar 33 projetos nas categorias artes visuais, circo, dança, música, teatro e preservação da memória visando estimular a pesquisa, a preservação de acervos e a reflexão sobre a produção artística negra no Brasil, como forma de combater o preconceito.

Acesse os editais na página da Funarte.

Museu Afro Brasil – O museu onde foi realizada a cerimônia de lançamento dos editais, situado no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, existe desde 2004, e foi criado, por decreto, pela então prefeita de São Paulo, Marta Suplicy.

Durante sua fala, Marta ressaltou a importância da atuação do curador Emanuel Araújo na condução do museu. “Esse museu existe por causa dele” disse a ministra em referência a Emanuel. Para Marta, a grande riqueza do Museu é sua capacidade de estar o tempo todo trazendo coisas novas.”

Fonte: Fundação Palmares

– Reflexões sobre o racismo no Brasil

Esse artigo de Fatima Tardelli trata de forma aprofundada um assunto de extrema importância: o   no Brasil. O artigo causa profunda reflexão sobre temas que precisam ser abordados:

– A negação sistemática do racismo, o racismo disfarçado, as manifestações nas redes sociais sobre a impossibilidade de um branco ‘bonito’ ser mendigo (caso do mendigo ‘gato’ de Curitiba), o racismo no humor, a falsa ideia de muitos de que no Brasil não há racismo, os padrões de beleza como perpetuadores do racismo, o caso do ministro Joaquim Barbosa.

Trechos do artigo “Do mendigo de Curitiba e do racismo sutilmente disfarçado”

“(…) o negro saiu da Senzala para ficar preso numa condição de miserabilidade e exclusão, tendo assim permanecido até os dias de hoje. Claro que toda vez que alguém aponta isso aparecem aqueles que dizem ‘não é bem assim, basta esforço, veja o Joaquim Barbosa’. Pois é: usar alguns exemplos estatisticamente irrelevantes JAMAIS mudarão um cenário em que a maioria das pessoas negras vive em exclusão”.

“Apesar de muitos usarem esses mesmos argumentos (não se esforçam o suficiente) todo mundo conhece os padrões (brancos com mais oportunidades), afinal, não é esse padrão que levou muitos a se ‘surpreenderem’ com um branco mendigo? Se assim não for, porque então não assumiram imediatamente (como fariam se o mendigo fosse negro) que o mendigo branco é mendigo porque ‘não se esforçou o suficiente’?

“(…) antes de dizer ‘tudo é racismo, tudo é homofobia, vocês estão ficando histéricos’, pense se o problema está em quem enxerga o racismo/homofobia/misoginia em tudo ou naqueles que não enxergam isso em NADA”.

Leia o artigo na íntegra no blog Bule Voador 

– MULHERES AFRICANAS – A REDE INVISÍVEL

– Ponto de chegada de escravos pode se tornar Patrimônio da Humanidade

Max Miliano Melo

Publicação: 27/08/2012 19:21 Atualização:

“As pedras, os prédios e os monumentos do Cais do Valongo, na região portuária do Rio de Janeiro, são testemunhas de um dos capítulos mais cruéis da história da humanidade. Pelo local, entraram no Brasil mais de 1,5 milhão de escravos trazidos da África, despidos de seus pertences e suas raízes para trabalhar de maneira forçada no Brasil. A área na capital fluminense — que abrigava o Cemitério dos Pretos Novos, onde os escravos que não resistiam à viagem e morriam antes de serem comercializados eram enterrados — poderá se tornar, nos próximos anos, o primeiro ponto do país reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade devido a sua importância para a memória da cultura afrobrasileira.

A iniciativa de inscrever o sítio para análise da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), encabeçada por entidades de promoção dos direitos e da cultura dos negros, faz parte de um movimento de resgate da história do período em que a cor da pele podia transformar homens em mercadorias. A região do Valongo esteve durante mais de um século abandonada, até que, nos últimos anos, as obras do projeto Porto Maravilha, que está reurbanizando a região portuária do Rio, esbarraram nesse sítio arqueológico de singular valor histórico.”

Fonte: Diário de Pernambuco

– O feminismo negro de Paulina Chiziane (Concl.)

“Paulina recusa o rótulo de romancista, definindo-se apenas como contadora de histórias, inspirada naquilo que ouviu, quando criança e adolescente, da boca dos mais velhos à volta da fogueira. É o que faz em seu romance Niketche, nome que define uma dança de iniciação sexual feminina da Zambézia e de Nampula, no Norte do país, região predominantemente macua, onde está a Ilha de Moçambique, primeira capital das possessões portuguesas da África Oriental e local de desterro do poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), por onde passaram também em épocas diversas os poetas Luís de Camões (c.1524-1580) e Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805).

Maputo, Quarta-Feira, 26 de Dezembro de 2012:: Notícias

É de lembrar ainda que na Zambézia, de que fala Chiziane, nas décadas de 30 a 50, ainda praticava-se o muhito que era uma cerimónia da puberdade feminina da região dos lomués (alguns deles, entre 1800 a 1840, foram levados para Santa Catarina e São Paulo como escravos), que etnolinguisticamente pertencem ao grupo dos macuas que também foram levados para o Brasil e espalhados da Bahia a Montevidéu, ao final do século XVIII, ápice do comércio negreiro na Ilha de Moçambique em direcção ao Sul da América. Essa cerimónia antiga, o muhito, consistia em preparar a jovem mulher para servir o homem (macho alfa) em plenitude quer no prazer sexual quer na alimentação.

O romance conta a história de amor entre Rami, mulher do Sul e de nível social superior à da imensa maioria das mulheres do país, e Tony, alto funcionário da polícia em Maputo. Casada há vinte anos de papel passado e aliança no dedo e mãe de muitos filhos, Rami, desprezada pelo marido, desconfia de aventuras extraconjugais de Tony. Então, descobre que o marido tem mais quatro mulheres e muitos filhos. Vai à casa de cada uma das rivais, às vezes sai no braço com elas, mas, no final das contas, trava amizade com todas a ponto de, em certo dia, reuni-las em sua casa para fazer uma festa-surpresa ao marido.

A iniciativa, porém, desperta a ira da sogra de Rami, para quem a monogamia é um sistema desumano que marginaliza uma parte das mulheres, privilegiando outras, “que dá teto, amor e pertença a umas crianças, rejeitando outras, que pululam pelas ruas”. Diz a sogra: “O meu Tony, ao lobolar cinco mulheres, subiu ao cimo do monte. Ele é a estrela que brilha no alto e como tal deve ser tratado. E tu, Rami, és a primeira. És o pilar desta família. Todas estas mulheres giram à tua volta e te devem obediência. Ordena-as”. (CHIZIANE, 2002, p. 125).

Lobolo é o dote que o homem dá à mulher ao casar, mas lobolar aqui serve também para definir o ato de quem sustenta um lar. Ao conhecer suas rivais, Rami vai entrar em contacto com séculos de tradição e de costumes, a crueldade da vida e também com a diversidade de mundos e culturas que convivem em Moçambique.

É difícil entender estes pensamentos sem conhecer a dimensão da tragédia africana. Em país de poucos homens – milhares morreram na guerra, muitos ficaram mutilados, outros tantos emigraram -, as mulheres, aparentemente, aceitam dividir seus maridos umas com as outras, embora a poligamia venha de tempos já perdidos, quando os cultores do Islã desceram a África e disseminaram suas crenças e costumes.

Em alguns lugares de Moçambique, como na província sulista de Gaza, é comum que a mulher atenda ao chamado do marido de imediato, largando tudo o que está fazendo. Mais: quando o marido chama, ela não pode responder de pé. (CHIZIANE, 2002, p. 128). Também é difícil entender esta conversa sobre violência na família em que o imaturo Tony, fruto típico de uma sociedade patriarcal (CORREA, 2004), justifica a sua condição de polígamo: “Nunca maltratei a Lu, bati nelas algumas vezes, apenas para manifestar o meu carinho. Também te bati algumas vezes, mas tu estás aí, não me abandonaste para lugar nenhum. A minha mãe sempre foi espancada pelo meu pai, mas nunca abandonou o lar. As mulheres antigas são melhores que as de hoje, que se espantam com um simples açoite (…)”. (CHIZIANE, 2002, pp.282-283).

Ou entender o conformismo de Rami: “(…) Transmito às mulheres a cultura da resignação e do silêncio, tal como aprendi da minha mãe. E a minha mãe aprendeu de sua mãe. Foi sempre assim desde tempos sem memória (…). (CHIZIANE, 2002, p. 254).

IV

Para as seguidoras de Simone de Beauvoir (1908-1986) e Flora Tristán (1803-1844), tudo isto, certamente, parece estranho, mas é a forma que Paulina encontrou de denunciar o sofrimento das mulheres africanas, subvertendo os valores tradicionais. Isso não significa que partilhe integralmente dos valores das feministas brancas. A dita civilização branca já levou tanto sofrimento à África que qualquer ideia, mesmo emoldurada por valores humanitários, sempre é recebida com desconfiança. E não poderia ser diferente.

O trágico é que o grito de Paulina, dificilmente, será ouvido ou compartilhado pelas mulheres de Moçambique, pois os escritores africanos escrevem para o leitor branco de fora de seus países que pode comprar seus livros, já que, em razão dos altos índices de analfabetismo e dos baixos níveis socioeconómicos, as tiragens nos países africanos de língua portuguesa são ínfimas, o que não significa que em Portugal e no Brasil sejam muito superiores.

Em Balada de amor ao vento (1990), seu primeiro romance, Paulina recupera as histórias dos rongas e dos chopes, que ouviu em sua infância, quando ficava a escutar a avó contar casos ao pé da fogueira. Os rongas, o povo do Sol Nascente, chegaram à região de Maputo há mais de 700 anos, procedentes dos Grandes Lagos. O povo chope veio da província de Gaza e da província de Inhambane, falando línguas bantu, da família Niger-Congo. Essas populações já estavam à beira da baía de Maputo quando os portugueses chegaram em 1502 à Terra dos Mpfumos (Grande Maputo), com o navegador Luís Fernandes à frente, numa caravela perdida de um comboio que seguia rumo à Índia (CRAVEIRINHA, 2002, p. 20).

As duas línguas que compõem este grupo são o XiChope, falado principalmente nos distritos de Inharrime e Zavala e no posto administrativo de Chidenguele, e o biTonga, falado na cidade de Inhambane e nos distritos de Maxixe e Jangamo. Estas são as origens de Paulina. Uma das histórias de sua gente é a de Sarnau, a jovem que descobriu que amava Mwando, um rapaz que estava encaminhado para ser padre. Como o namoro não prosperava, cada um vai para um lado e Sarnau acaba virando uma das mulheres do rei das terras de Mambone.

Paulina conta a história desse relacionamento, da juventude à idade madura, suas alegrias e sofrimentos, até a separação dolorosa e o reencontro. Mas, antes de tudo, trata do conflito vivido por uma moçambicana entre o mundo moderno e o mundo tradicional, a África arcaica, seus valores eminentemente machistas em que a mulher só existe para servir ao homem e constituir seu objecto de desejo.

Depois de casada e bem casada, Sarnau vê Mwando reaparecer e vive outro romance. Perseguidos, acabam de novo separando-se. Mwando, depois de se envolver com a mulher de um sipaio (soldado), foi deportado para Angola, onde passou quinze anos a plantar cana e café. Um filho de Sarnau, gerado por Mwando enquanto ela era rainha, acaba coroado rei, depois da morte do presumível pai, enquanto a mãe é obrigada a cumprir um destino de prostituição para sobreviver.

Este é um livro feminista, mas feminista à maneira africana: não é uma obra que desafie o estatuto da mulher africana ou moçambicana. Aliás, usar termos como africana e moçambicana é correr o risco das generalizações. No próprio Moçambique, há flagrantes diferenças: o Norte é uma região matriarcal, onde as mulheres têm mais liberdade, enquanto o Sul e o Centro são regiões patriarcais, extremamente machistas. E a narrativa de Balada de amor ao vento ocorre em Gaza, a mais machista de Moçambique, onde a mulher, além de cozinhar e lavar, para servir uma refeição ao marido tem de fazê-lo de joelhos.

V

Portanto, este livro traz o olhar do feminismo negro, que é diferente do feminismo branco, porque muito mais trágico. Ou alguém duvida que a mulher negra sempre foi muito mais oprimida e massacrada que a branca, que vive do suor de seu próprio rosto há muito mais tempo, que responde por sua própria família desde épocas imemoriais, embora fuja à luz da razão discutir gradações de violência?

Basta ler Barrocas famílias: vida familiar em Minas Gerais no século XVIII, de Luciano Figueiredo, para se perceber que o papel da mulher – e, mais ainda, da mulher negra – sempre foi esquecido nos livros de História do Brasil, como se a colonização e a ocupação do território tivessem resultado apenas da acção do homem (FIGUEIREDO, 1997, p.16). E que teriam sido raras as mulheres europeias que migraram para o Brasil e para a América hispânica, até porque nos séculos XVI, XVII e ainda XVIII havia muitas restrições à presença feminina a bordo de embarcações.

E, portanto, foram indígenas as mulheres que acolheram o afecto não só dos primeiros colonizadores como de tantos outros que continuaram a chegar ao Novo Mundo, bem como o fizeram as africanas e as miscigenadas, anos mais tarde, constituindo uniões consensuais e o concubinato, práticas contra as quais de pouco valia o pífio combate moralizante empreendido pela Igreja. Foi dessa população mestiça que nasceu, inclusive, a elite económica brasileira que nunca foi branca, embora sempre tenha procurado se passar por tal.

Por isso, as poucas mulheres idealizadas por nossa poesia arcádica oitocentista, como Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, e Bárbara Eliodora, de Alvarenga Peixoto (1744-1793), só foram incensadas pelo Romantismo do século XIX porque eram brancas, enquanto a negra Francisca Arcângela Cardoso, que deu quatro filhos ao mavioso Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) e lhe inspirou vários poemas, está esquecida até hoje.

Tal como na África a mulher negra na América também buscou suas próprias estratégias de sobrevivência, desempenhou papéis económicos, criou os filhos e protagonizou muitas histórias – que, com certeza, estão à espera do talento de uma Paulina Chiziane brasileira para contá-las como se conta histórias à beira da fogueira e seguir uma tradição iniciada pela maranhense Maria Firmina dos Reis (1825-1917), a primeira romancista negra do Brasil”

Fonte: Moçambique para todos

O tango nasceu num bairro de descendentes de escravos africanos na Argentina

Elena Arsuaga

Partituras, discos e fotografias originais de época e em sua maior parte inéditas cedidas para a ocasião formam o percurso feito nas últimas décadas do século 19 e analisa o candombe, “a música e o baile distintivos e emblemáticos desta comunidade”, e a música de carnaval, que para Círio desenham o contexto no qual nasceu o tango.

A exposição aprofunda na presença de afroargentinos nos diferentes períodos do tango como gênero, a partir da figura de Rosendo Mendizabal, “um marco indiscutível” nas origens do tango, opina o especialista.

“Joia”

A maior “joia” da mostra, instalada no museu Casa Carlos Gardel, é uma partitura original de 1897 de “El Entrerriano”, uma das mais importantes composições de Mendizabal, cuja publicação marcou para Círio a origem da “Guardia Vieja” como período estilístico do tango.

A exposição destaca também as figuras do compositor e músico Ruperto Leopoldo Thompson, quem introduziu o chamado estilo “canyengue”, e do pianista e compositor Horacio Salgán, cujo tango “A fuego brando” foi “o germe de todo o movimento estético de Astor Piazzolla e sua escola”, assegura o antropólogo.

Outro dos compositores destacados na mostra é Enrique Maciel, cuja valsa “La pulpera de Santa Lúcia”, de 1929, é de acordo com Círio “o hino, a obra emblemática das valsas crioulas”.

“Desde a origem do tango até o presente sempre houve músicos, compositores e dançarinos negros”, explica à Efe Horacio Torres, diretor do museu, quem lembra que dois dos seis guitarristas de Gardel eram afroargentinos.

Completam a mostra partituras e discos de compositores brancos como Sebastián Piana e músicos como Alberto Castillo, que tratam a partir de diferentes perspectivas a temática da negritude.

Círio considera que o inovador desta proposta é que “nunca antes a comunidade afroargentina tinha sido consultada e estudada, não havia sido dada uma oportunidade, espaço para uma palavra, voz e o voto a esta parte da história”.

Para ele, “no melhor dos casos que escreveram a favor desta teoria sempre o fizeram com base unicamente em documentos escritos por brancos, o que tornava a abordagem parcial.

“Esta questão foi mal estudada por falta de provas, mas fundamentalmente pela curta visão europeísta, resultante de como pensam os argentinos como nação”, em cuja construção da identidade “se enfatizou um projeto branco europeu e cobriu-se com um manto de esquecimento as outras tradições culturais anteriores, como a negra e a aborígine”, conclui.”

Serviço:

“LA HISTORIA NEGRA DEL TANGO”

Onde: Museu Casa Carlos Gardel (Jean Jaurés, 735, Abasto, Buenos Aires, Argentina)

Fonte: Combate Racismo Ambiental

Conheça também outras páginas do nosso blog:

– Angola

– Cabo Verde

– Guiné-Bissau

6 pensamentos sobre “Africanidade!

  1. maria celia correa machado disse:

    MUITO BACANA. PARABENS. PRECISAMOS MOSTRAR PRAS CRIANÇAS E JOVENS A IMPORTANCIA E A CONTRIBUIÇÃO DESSE POVO SOFRIDO E SACRIFICADO.

    • zarpante disse:

      Obrigado pela parte que nos toca!
      Concordamos plenamente com seu ponto de vista!
      Participe amiga, compartilhe, comente e proponha temas para que nosso blog possa corresponder cada vez mais às suas expectativas.

  2. Cristian disse:

    Eu Como criança Adorei tudo 🙂

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