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Entrevista do músico Tiago Sá

Tiago Sá é um músico, compositor e cantor brasiliense presente no Portfólio Zarpante. Ele lançou em 2012 seu disco de estreia ‘Reação da Alquimia’. Gravado no RJ com produção musical de Lucas Santtana e participações de Lucas Santtana, Marcelo Callado, Ricardo Dias Gomes, Léo Leobons e Lucas Vasconcellos, o disco apresenta 10 músicas de Tiago Sá. Conheçam um pouco mais sobre Tiago na entrevista abaixo.

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1 – Quem é Tiago Sá?

Músico, compositor, brasileiro, sol em peixes, ascendente em touro e lua em touro, amigo da alegria, da verdade e do amor.

2 – Qual foi o seu primeiro contato com a música?

Rodas de violão em que meus pais iam quando eu era criança.

3 – Como é trabalhar com música autoral em Brasília?

É muito difícil, pois não há lugares para música autoral em Brasília. Mas há o FAC Fundo de Apoio à Cultura, o artista que consegue se organizar pode concorrer e ter o seu projeto contemplado, como aconteceu comigo no fim de 2013.

4 – O que acha da Copa do mundo? Contra ou a favor?

Acho um evento bacana, que pode unir os povos por um momento. Mas acho uma pena como tem sido feito aqui no Brasil com muita corrupção e Mp.

5 – Como definiria seu som?

Música Brasileira Moderna

6 – O que acha da questão dos direitos autorais e dos downloads gratuitos?

Acho importante o criador ganhar o que tem por seu direito. Download gratuito pode ser uma forma de divulgação. Eu disponibilizei o meu disco para download gratuito no facebook https://www.facebook.com/tiagosamusica

7 – Algum ídolo musical dos outros países lusófonos?

Cesária Évora.

8 – Como é seu processo criativo? Começa por uma letra e depois o som ou vice e versa?

Tem hora que vem a letra, tem hora que vem a melodia, tem hora que vem tudo junto. Só me ponho a criar quando estou realmente inspirado. Não me forço a criar.

9 – Porque a escolha de ser um artista solo acompanhado por músicos pagos em vez de ter uma banda formada nesse sentido?

Não foi bem uma escolha, aconteceu naturalmente, no meu percurso não encontrei músicos que compartilhassem o meu universo criativo e tivessem sintonia além da música a ponto de formarmos uma banda. De outro lado isso me permitiu ter a direção estética do meu trabalho, como compositor acho isso particularmente interessante.

10 – O que lhe chamou a atenção em Zarpante e como tem sido sua experiência com a equipe?

Muito interessante essa plataforma unindo países lusófonos, principalmente através da música, a ampliar nossos horizontes e nosso intercâmbio. Tem sido uma experiência enriquecedora estar em contato com  Zarpante e espero estar muito mais próximo a partir desse ano de 2014.

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Zarpante ao vivo nos estúdios da RDPI

Zarpante foi mais uma vez entrevistado pela RDPI. Desta vez, ao vivo do estúdio número 24 da Rádio!

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Foi um prazer para nós conhecer pessoalmente o locutor Jaime F Carvalho, seu simpático companheiro Samuel Ornelas Castro! A conversa foi boa e, para quem não teve a chance de escutar ao vivo, fica aqui o registo de mais um momento de Zarpante na midia!

Lembramos que a RDPI é uma das únicas rádios mundiais a ter a capacidade (graças a satélites muito potentes) de transmitir para o planeta inteiro! Infelizmente, já faz 2 anos que não transmitem em ondas curtas! Isso é triste, pois infelizmente muita gente ainda não tem acesso a internet e é muito importante que essas  pessoas possam ter acesso à rádio graças às ondas curtas! Lembramos aliás que por lei, toda rádio portuguesa deveria transmitir em ondas curtas! A RDPI conta com todos nós para poder voltar a oferecer esse serviço de ondas curtas!

Para apoiar, basta assinar a petição pública online clicando aqui! 

Zarpante já assinou! e tu?

Leia também o ARGUMENTÁRIO PRÓ ONDA CURTA DA RDP.

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Ao vivo na RDPI

Fomos entrevistados ao vivo pelo pessoal da RDPI! Clique no “Play”abaixo e escute!

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Entrevista com Aleh Ferreira

O músico brasileiro Aleh Ferreira foi entrevistado por Zarpante! Além de ser um autentico mestre do swing, amigo e parceiro do site Zarpante e de seus integrantes, ele é um ser humano formidável!

A música que faz é tão cheia de energia, e tão atual, que as vezes até esquecemos que o artista já leva uma certa bagagem nas costas e teve por exemplo a felicidade de integrar a mítica Banda Black Rio!

Aleh Ferreira / Foto: Gabriel Pedramarrom

 

A entrevista foi feita por email para agilizar o processo, mas as fotos que acompanham foram feitas em Paris, pelo fotógrafo brasileiro, Gabriel Pedramarrom!

Só resta degustar esta entrevista acompanhada pelas fotos especialmente feitas para a ocasião!

– Quem é Aleh Ferreira?

– “Não consigo vê-lo completo; só vejo as mãos (rsrs), só tenho palpites, mas é alguém que acorda todo dia sabendo que precisa melhorar, melhorar o quê? Ser uma pessoa melhor, fazer boas escolhas.

Ser uma pessoa melhor no que faz, aprender o “não” que liberta, se livrar do “sim” que vicia, perceber melhor o sentido da vida, quando ela fala alto ou sussurra, exercitar a paciência constantemente”

É uma infinidade de coisas que ele busca: saber terminar e sempre recomeçar.

– Quando e porque começou a fazer música?

-“A música me capturou. Embora não tenha nenhum músico na minha família, se ouvia muita música brasileira, e de tudo mais, nos anos 70, quando ainda era um menino.

Das velhas canções românticas, da era do rádio ao Tropicalismo, e ao soul dos anos 70, de James Brown, Stevie Wonder,Tim Maia e Michael Jackson. Do baião de Luiz Gonzaga à bossa nova de João Gilberto e Tom Jobim. Dos sambas inspirados de Cartola e Paulinho da Viola à diversidade melódica e genialidade metafórica das letras de Chico Buarque, Luiz Melodia, Jards Macalé, Gilberto Gil e Caetano Veloso, Gonzaguinha e muitos outros.

Ganhei meu violão aos 13 anos, porque deram o meu cão de estimação, pois íamos morar num apartamento. Fui aprendendo com os discos, autodidata mesmo. Mas, ao frequentar o ensino médio, eu não vislumbrava a música como carreira. Pensava em ser psicólogo, arquiteto, sociólogo. Pensei finalmente em cursar comunicação, na área de cinema. Foi quando eu percebi que já tava trabalhando como músico, pra pagar as minhas despesas básicas.Tocava na madruga e trabalhava no mesmo curso em que eu estudava, como “bolsista”. Dormia pouco, nestas idas e vindas, e não conseguia me preparar bem pra enfrentar uma federal, que era privilégio de poucos, na época.

Ao mesmo tempo que comecei a entrar no meio da música, comecei a me decepcionar com o academismo. Pensei até em cursar música, mas ouvia histórias sinistras, de alunos que eram suspensos da escola de música da UFRJ por tocarem Tom Jobim. Na época, não existia o curso de música popular, e quem fizesse música teria que cursar o erudito. Nada contra, mas já estava envolvido pelos primeiros ares da boêmia criativa carioca. Indo pra música popular, além de redescobrir e reinventar o Brasil em que eu acreditava, eu estava aprendendo sobre psicologia, sociologia, arquitetura, comunicação e cinema, através das obras e, num breve momento, com os boêmios inteligentes e bons de papo.”

– Quais são suas inspirações?

-“Estas que eu falei que ouvia, quando menino, e que ainda ouço até hoje, mas estou sempre atento a algo novo, a algo desconhecido. Isso me dá estímulos. Ver filmes e ler livros, também.”

– Samba preferido? Fado preferido? O que você escuta quando não está tocando?

-“Os sambas de Cartola, de Paulinho da Viola, de Zé Keti. Os fados que a Carminho canta, aquele do marinheiro é incrível (“Meu amor marinheiro”). Gosto muito do cd do Criolo. Sou fã mesmo. Ele teve uma boa sacada e é um exemplo único e contemporâneo de quem chegou ao “mainstream” brasileiro pelo talento. Tô voltando a ouvir soul-funk. Tenho apego a tudo que mescle a tradição e a modernidade.

Normalmente escuto o que pede o meu estado de espírito. Assim, tem dias em que a minha cabeça não quer ouvir nada, quer ouvir a matéria prima da música, sabe? O mistério do silêncio, que não é silêncio nenhum, é denso e fluente. Fico relaxado e, acompanhando esses sons da natureza original, normalmente vem uma música.

Onde eu moro é bom fazer isto, pois ouvem-se crianças, um carro distante, o vento, pássaros, uma música trazida pelo vento e distorcida, que você ouve em outro tempo.”

Aleh Ferreira / Foto de Gabriel Pedramarrom

– Como define seu estilo musical?

-“MPBSOULSAMBAGROOVE: esse foi o nome do meu primeiro cd solo, o que tem ‘Dona da banca”, e eu escolhi este nome, porque as pessoas viviam me fazendo esta pergunta e eu tinha, e tenho ainda hoje, uma certa dificuldade de responder. A mesma dificuldade de me rotular e de o mercado e a indústria cultural entenderem o que eu quero, ou qual é o meu sabor.

Esses obstáculos me impulsionam na busca de música “boa”, ou seja, uma música que transcenda, que cause um estranhamento e, ao mesmo tempo, se sinta como familiar, peculiar. Uma música que seja com clichês ou com metáforas, ou que abuse em simbolismos, mas que mexa com o inconsciente coletivo.

Não sei se essa música precisa ser de um determinado estilo, mas busco essa música dentro e fora de mim.

Claro, tem algo constante, que é o “Swing”. Isso eu sei que vem no meu DNA. Herdei da minha mãe.

Minha música vem do berço da cultura afro-brasileira, com a influência das harmonias europeias, do samba-choro, dos empréstimos modais do Marvin Gaye e do Stevie Wonder, e muito tambor, enquanto dormia e o terreiro ressoava, trazendo as vibrações musicais milenares dos orixás.”

– Como é seu processo de criação? Como são as etapas?

-“Ouço aquele silêncio, vem uma melodia na cabeça, vou pro gravador, canto, pego o violão, toco, esqueço do mundo, enxergo as palavras do som, escrevo, e aí começa aquela dor, aquele limite a ser transposto, quando vejo, passou, que dor que nada, a música tá boa, ou tsk tsk ainda não, ou, caramba! Fui eu que fiz isto?

Foi assim com “O Sonhador”:

percebi que a música era boa, logo nos primeiros compassos, mas não estava pronta, era a canção que eu sonhava, quase que buarquiana. Então, senti uma responsa e ela ia saindo, e aquela dor, e aí, 30 minutos depois, lá estava ela pronta. É estranho falar assim, mas desta, modéstia à parte, eu gostei, mas não são todas as de que eu gosto assim.

Esse é o processo que eu prefiro. Tem outros processos: melodia pra letra pronta, escrever uma prosa, ir cantando e transformando em verso, e as músicas de encomenda, como Cyber cabaret pro longa-metragem “Elvis e Madonna.”

– Fale um pouco de sua relação com a Europa (suas ultimas vindas, suas próximas vindas, seu público e seus planos)?

-“Embora tenha um tempo na estrada, comecei as viagens para o exterior nos últimos dois anos. A primeira foi para a África do Sul, na Copa de 2010, com a Banda Black Rio. No mesmo ano, fui para a Inglaterra, a convite da Universidade de Oxford, para um show de encerramento de uma semana literária brasileira. Aproveitei e fiquei uns dias em Londres, fiz algumas Gigs, alguns amigos, e fui conhecer Paris e fazer um show informal na Cité Universitaire. Estas aparições me renderam um retorno seis meses depois, quando cantei num evento alternativo em Londres, o Makumba Fest, e fiz um show em Paris, no Studio de L’Ermitage. Ambos os eventos pra umas 300 pessoas. Passei também pelo Favela Chic, convidei a Thais Gullin pra dar uma canja. Conheci até o Chico Buarque.

Então, toda essa experiência já estava saindo do campo do superficial, e pensei: vou continuar este investimento no exterior, meu cd está sendo distribuído aqui na Europa, e tem este imenso circuito de festivais.

Então retornei em 2012, fiz várias Gigs em Londres. Planejo, inclusive, gravar um disco de afro-brazilian beat, com um músico produtor que conheci lá. Fiz o Summerset House Festival, no evento na Casa Brasil, no período dos Jogos Olímpicos. Retornei a Paris, pra mais um show no Favela Chic, fui à Dinamarca me apresentar lá no Brasil Tropicália, e finalizei cantando na primeira tournée européia, com a Banda Black Rio, na qual passamos por Paris (New Morning), Amsterdam (Paradiso) , Bélgica (Antuérpia) e Londres (Ronnie Scoot’s).

Minhas metas agora são chegar a Portugal e também fazer um disco pra Europa, gravado na Europa, com participações de artistas europeus.”

Aleh Ferreira / Foto: Gabriel Pedramarrom

– E no Brasil ?

-“Fazer o DVD Aleh+Samba e meu novo cd pra 2013.”

– Você nos apresentou o filme RIP, bem como o curta Remixofagia. Gostaríamos de conhecer seu ponto de vista sobre as novas formas de difusão musical e sobre os direitos autorais. Como isso influencia seu trabalho?

-“Quando gravei meu primeiro disco solo, a realidade da indústria era diferente da do meu primeiro cd, com o BANTUS. No momento em que eu consegui um sucesso, através da mídia alternativa, a indústria estava em crise, com o advento da digitalização: gravadoras fechando, muita gente sendo mandada embora. Esse era o cenário, e eu com um cd cheio de samples: Zé Keti, Cartola, Martinho da Vila. Eu e muitos músicos da época não tínhamos total noção do que acontecia. Muita gente sampleava a torto e a direito.

Estava na gravadora independente (Nikita), fui atrás das autorizações e consegui. Dona da Banca foi um sucesso, o cd não vendeu muito. Foi um paradoxo: mídia espontânea bombando, outros valores brotando.

Logo depois, o D2, pela Sony, fez o “À procura da batida perfeita”, cheio de samples, e um dos maiores sucessos de público e crítica na época.

Com o Remixofagia, eu percebi que, até aquele momento, o Brasil era muito democrático, no que diz respeito à propriedade intelectual. Isto porque está no cerne da nossa cultura a “antropofagia”. Comemos literalmente a carne dos europeus, durante uns 250 anos, no mínimo, até eles completarem o processo caótico de colonização, e isto deixa um rastro na nossa cultura, que se reflete, anos depois, na nossa criação. Devolvemos com originalidade o que vem de fora, como num movimento inverso, que
começou no Tropicalismo. Chamo esse movimento inverso de “Regorgitofagia”.

Os DJs dos anos noventa salvaram a crise criativa musical, resgatando levadas, produzindo, “loopeando” e “sampleando” direto, e aí veio o acid jazz. Redescobriram a Banda Black Rio em Londres e, no Brasil, o preço do vinil TIM MAIA RACIONAL, que era uma joia rara, subiu muito. Ouvi dizer que teve gente que pagou 1000 pratas nesse vinil.

Os anos noventa foram importantes, no sentido da valorização do retro. Foi o que segurou essa crise criativa musical, até as torres gêmeas caírem. Então vieram a digitalização e a explosão tecnológica, que deram informação pra quem não poderia comprar nunca. Mais informação, mais recursos, menos grana, pois a globalização não globaliza o capital e, quanto menos grana, mais criatividade e mais experiências e mais regurgitofagia, até chegarmos ao “mashup”. Muito interessante tudo isto.

Por um outro lado, o autor fica obrigado a se interpretar, pois a possibilidade de seus direitos fonomecânicos minguarem é crescente, e ele tem de ir pra estrada, pois vive de música e não pertence à elite da “alta cultura musical das capitais do capital”.

Me parece que, hoje em dia, no Brasil, já temos os primeiros sinais de vida deste mercadão. Mas isto ainda é pra poucos. Como disse o Rômulo Fróes. Nos últimos dez anos, o artista que pertencia à era do vinil corria em busca do sucesso, e o de hoje, o da era do download, foge do fracasso. Não vejo isto como pessimismo e sim como uma visão realista, pois a era do download não é romântica.”

– Qual é sua concepção da lusofonia? Curte sons de outros países de língua portuguesa? Poderia nos citar alguns exemplos?

-“Cesária Évora, Carminho. Paulo Flôres,Tcheka. Preciso conhecer mais. Me tornei um sócio colaborador de Zarpante, também com este intuito: difusão da cultura lusófona.”

– Você não acha que os artistas desses diferentes países deveriam co-produzir mais projetos juntos, mesmo estando geograficamente distantes?

-“O melhor a se fazer, neste momento “transcaótico” que passamos, são estas interações: esta é a melhor herança dos tempos globais. Nunca o homem reuniu, criou tantos recursos e ferramentas, pra que realmente haja uma evolução completa.

O momento é este, e os artistas, de todas as áreas, estão percebendo isto. Já circulam na rede esses ventos. Estar conectado não é ser mimetizado por esta tela, fazendo contatos virtuais apenas. Pra que a conexão se complete e seja verdadeira, é preciso ir até o contato, esteja onde estiver e, de preferência, de culturas diferentes. A lusofonia tem muito a dar neste aspecto.”

Aleh Ferreira / Foto: Gabriel Pedramarrom

 

 

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Compartilhando textos

Quer ler? Está sem ideias?

Sugerimos os três textos seguintes:

– O primeiro texto é uma entrevista de Stela Barbieri para o Blog Acesso:

“Segundo dados do IBGE apontados pelo Ministério da Cultura – MinC, 92% dos brasileiros nunca frequentaram museus e 93% nunca foram a exposições de arte. Tal é a dimensão do desafio dos programas educativos de museus e exposições cujo papel, para além da formação de público, é aproximar as pessoas do universo da arte.

Para Stela Barbieri, curadora do Educativo Bienal, da Bienal de São Paulo, o acesso à arte está totalmente ligado à cidadania. Segundo ela, a arte, presente no cotidiano de todas as pessoas, é imprescindível para a construção de uma sociedade mais justa; e é sobre isso que a arte contemporânea fala: nosso tempo e nossas urgências. Confira, abaixo, a entrevista concedida por Barbieri ao Acesso.

Acesso – As estatísticas mostram um público afastado de museus e exposições. Qual seria o papel dos educativos na tarefa de reverter esse quadro?
Stela Barbieri – O papel dos educativos das instituições culturais é, justamente, aproximar as pessoas do universo da arte, enfatizando, principalmente, a formação de professores e educadores sociais, profissionais que efetivamente atuam no ensino da arte. Esses educadores são os grandes responsáveis por levar a arte à escola. Produzimos conteúdo, materiais educativos, encontros de formação, temos a intenção de dar subsídios para que esses educadores possam atuar. Infelizmente, nas escolas, há pouco material disponível para pesquisa sobre arte. Porém, não cabe apenas aos educativos das instituições culturais a produção de material gratuito sobre arte e, mais especificamente, como é o nosso caso, sobre arte contemporânea. Acredito que, como um todo, a educação precisa ser valorizada e a percepção de que a arte está diretamente vinculada ao nosso cotidiano é imprescindível para a construção de uma sociedade mais justa.

Acesso – Por isso, a arte é imprescindível, também, na própria educação?
S. B. – O artista e educador Robert Filliou, que tem algumas obras expostas na 30ª Bienal, falava que a arte é o que faz a vida ser mais interessante que a arte. Acho que ele tem razão: a arte nos sensibiliza para a vida, nos faz prestar atenção às filigranas, aos pequenos detalhes, àquilo que pode tantas vezes passar despercebido. Isso acontece com todos, indivíduos e grupos: olhar para a arte, conversar sobre o que ela desperta em cada um de nós e ao nosso redor, nos dá a possibilidade de perceber outras formas de atuação.

Acesso – Qual a importância da formação de professores e educadores sociais?
S. B. – A relação com os professores e educadores sociais é importantíssima, pois são eles que levam a arte à escola no dia a dia. Gostaríamos de poder visitar todas as escolas e ONGs, mas isso não é viável, então, por meio de seus professores e educadores, estamos conseguindo estar cada vez mais próximos de um maior número de escolas e organizações. A intenção da Bienal é estar em vivo contato e é durante as formações, seminários ou durante a própria exposição, nas visitas, que acontece o olho no olho, o encontro, por meio do diálogo e da experiência. Acreditamos que essa troca é o mais importante, porque é nosso desejo que as crianças, os adolescentes, os adultos, os idosos, todas as pessoas com quem esses professores e educadores trabalham, sejam tocadas de alguma forma.

Acesso – Quais os desafios de fazer a curadoria do educativo de uma mostra como a Bienal de São Paulo? Existe a preocupação de desmitificar a arte contemporânea como linguagem pouco acessível ou difícil?
S. B. – Acredito que esse é o grande desafio: tentar aproximar as pessoas da arte contemporânea e, de certa forma, desmitificá-la. Ela fala de nosso tempo, de nossas urgências. Os artistas discutem as mesmas coisas que todos nós, aquilo que vivemos, nosso cotidiano e, ainda assim, isso é visto como algo difícil, complicado. Nossa intenção é aproximar, é colaborar de alguma forma para que as pessoas tenham acesso e possam ser tocadas pelas poéticas dos artistas em conexão com suas próprias vidas e experiências. Tentamos sempre fazer essa relação entre a arte e a vida: ao falar de arte contemporânea, estamos falando de memórias, de experiências, de alegrias, de tristezas, daquilo que faz parte da vida de todos e de cada um.

Acesso – E como o acesso à linguagem se traduz em acesso à cidadania?
S. B. – O acesso à arte está totalmente ligado à cidadania. Conhecer a cidade, suas instituições culturais e espaços é fundamental para qualquer cidadão. Às vezes, recebemos crianças, jovens e adultos que nunca estiveram no Parque do Ibirapuera ou mesmo em um museu da cidade. Fazemos um grande movimento para que o maior número de pessoas possível venha à Bienal, tenha contato com os trabalhos, e nos colocamos à disposição para conversar sobre eles, seja durante a visita ou antes da abertura da exposição, nos Encontros de Formação.

Acesso – Como funcionam os encontros e visitas orientadas?
S. B. – Este ano, atendemos mais de 18 mil pessoas nesses encontros e temos agendadas, até o momento, visitas para 150 mil alunos. Atendemos todos os públicos, falamos com todos aqueles que demonstram qualquer interesse em conversar conosco: falamos sobre arte, com arte. Nas visitas orientadas, os alunos são organizados em grupos de 20.

Acesso – Qual é a principal função desses encontros e visitas?
S. B. – Os encontros e visitas são meios para refletir sobre a vida e a arte contemporânea, a partir das obras, artistas e conceitos, o que também possibilita às pessoas uma aproximação maior com o que pensam e com o que outros pensam, com modos de vida, crenças, dogmas, saberes e não saberes, enfim, com tudo aquilo que faz de cada pessoa um indivíduo particular e único.”

Bernardo Vianna / blog Acesso

– O segundo texto é do francês Jean-Jacques Rousseau:

Sobre a Preguiça

É inconcebível a que ponto o homem é naturalmente preguiçoso. Dir-se-ia que ele só vive para dormir, vegetar, ficar imóvel; ele mal consegue se dispor a fazer os movimentos necessários para se impedir de morrer de fome. Nada mantém tanto os selvagens no amor do seu estado que essa deliciosa indolência. As paixões que tornam o homem inquieto, previdente, ativo, só nascem na sociedade. Nada fazer é a primeira e a mais forte paixão do homem, depois da de se conservar. Olhando-se bem, vê-se que, mesmo entre nós, é para chegar ao repouso que cada qual trabalha; é a própria preguiça que nos torna laboriosos.

– O terceiro é sobre um ritmo musical brasileiro:

SAMBA DE COCO RAÍZES DE ARCOVERDE

“O Samba de Coco Raízes de Arcoverde mantém a tradição do coco na forma mais pura e original. Com influência das culturas negra e indígena, o grupo representa o amor pelas raízes culturais entre duas famílias, pois para os Gomes e os Calixto, o samba de coco é mais do que música, é um modo de vida.
Era 1916 quando as tataravós das irmãs Lopes começaram a cantar e dançar o samba de coco em Arcoverde, cidade chamada de Portal do Sertão. Em 1947, a família foi morar no Cruzeiro, bairro simples de Arcoverde, onde surgiu o Samba de Coco das Irmãs Lopes de Arcoverde. Dona Joventina Lopes e seus 15 filhos deram início a essa tradição na cidade, e em meados dos anos 50, Ivo Lopes, um dos filhos de Joventina, assumiu a linha de frente do grupo, junto às irmãs. Posteriormente o Mestre Biu Neguinho, Tonho Moura, Zé Feitosa, Romeiro, Cícero Gomes e outros amigos se juntaram ao grupo. Ivo Lopes faleceu e suas irmãs, as Irmãs Lopes (também membros da família Gomes) deram continuidade ao samba de coco, dando origem em 1992, junto à família Calixto, ao Samba de Coco Raízes de Arcoverde.

Os irmãos Calixto, Luiz (Lula), Damião e Francisco (Assis), nascidos em Sertânia, no sertão pernambucano, chegaram em Arcoverde por volta de 1952. Assis Calixto (foto), um dos principais autores das loas (músicas) do grupo, já possua uma vivência com o coco alagoano e maranhense, por ter tido contato com alguns cantores. O irmão Lula Calixto foi quem criou o trupé, um tamanco de madeira que serviu para dar força às pisadas do samba de coco, característica do Samba de Coco Raízes de Arcoverde. Cícero Gomes, que começou com as Irmãs Lopes, explica que no início só existia o ganzá, e que nos anos 1970 foram introduzidos o pandeiro, o surdo e o triângulo. Antes de o trupé ser inventado, o que se dançava era um samba de coco com pisada menos rápida, chamado por eles de Mazurca.
A Mazurca antecedeu o ritmo acelerado do trupé, e assim como o samba de coco feito com roda, aquele conhecido por Selma do Coco por exemplo, difere muito do coco feito pelo Raízes de Arcoverde. Vejamos os porquês: antes do trupé, o ritmo era tocado basicamente pelo ganzá, e antes disso, era tocado com um maracá, o que explica sua origem indígena. No litoral, sempre se usou mais tambores e congas, além da zabumba, numa dança mais solta e com menos pisada. Para a sonoridade de tambor, o Samba de Coco Raízes de Arcoverde usa um bombo e, de maneira autoral, o trupé. Este instrumento foi para eles uma evolução do ritmo, sendo o diferencial do coco feito pelo grupo – o pandeiro é então usado de maneira menos acelerada, com marcação feita pelo trupé e triângulo, e com a resposta (coro feminino).
O xaxado, o samba de roda e ritmos indígenas são fortes influências no coco feito pelo grupo. As letras compostas por Assis, Damião e pelo falecido Lula Calixto, além de Cícero Gomes, são um retrato da vida simples do povo sertanejo, cantando os animais, a natureza, a alegria ou os sofrimentos, o amor e a religiosidade do povo simples, trazendo muitas lembranças de vida. Também há duas categorias de dança no Samba de Coco Raízes de Arcoverde: o coco trocado, quando se dança em parelha de mãos dadas, indo para um lado diferente do acompanhante, e o coco de lenço, onde cada parceiro segura um lenço, fazendo os mesmo movimentos da outra categoria.
Apesar de ter surgido em 1992, nessa época ainda junto às irmãs Lopes, que hoje fazem trabalho separadamente, o Samba de Coco Raízes de Arcoverde só ficou conhecido em 1996, quando começou a viajar para fazer apresentações. O grupo já viajou para Bélgica, França, Itália, além de várias cidades brasileiras. Em 2005, a caravana foi selecionada no projeto Rumos da Música, do Itaú Cultural, que dá espaço para a produção contemporânea de arte e cultura do Brasil.
Em 1999, Lula Calixto falece, aos 57 anos. Todos os anos a família recebe amigos e visitantes para comemorar o aniversário do mestre, no mês de Novembro, o que originou em 2005 o Festival Lula Calixto. A primeira edição do festival ocorreu em frente à casa da família, sem patrocínios, com a presença das Irmãs Lopes, Grupo Afoxé Oyá Alaxé, entre outros. Atualmente, o evento ganhou grande repercussão e passou a ser um evento importante na cidade de Arcoverde, com oficinas, palestras, palcos para apresentações de grupos e artistas de várias regiões.
O grupo tem 3 CDs gravados. O primeiro “Samba de Coco Raízes de Arcoverde”, lançado em 2000, tem 12 faixas, entre os sucessos Seu Maia, Loruá, Acorda Criança e A Caravana não morreu. O segundo CD, intitulado “Godê Pavão”, de 2003, possui 15 faixas, entre elas: Abelha Aripuá, Galinha Zabelê e Despedida de amor.  Em 2010, com a contemplação do Prêmio Circuito Funarte de Música Popular, pela Funarte e Ministério da Cultura, o grupo lançou “A caravana não morreu”, com 12 faixas.
A casa de Lula Calixto hoje é a sede do grupo e pequeno museu do Samba de Coco Raízes de Arcoverde. Damião Calixto e Assis Calixto estão à frente do Samba de Coco Raízes de Arcoverde, junto aos filhos, irmãos e sobrinhos, preservando o ritmo e a poesia do coco de trupé.”

FONTE: http://novopernambucolismo.blogspot.com.br/2012/03/samba-de-coco-raizes-de-arcoverde.html

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