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Poemas eróticos recheados com ilustrações

Para começar 2014 em alta temperatura, que tal alguns poemas eróticos de Carlos Drummond de Andrade, acompanhados por ilustrações do Italiano Milo Manara?

– Do livro “O Amor Natural”:

“Oh! Sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Porque seremos mais castos
Que o nosso avô português?”
Manara

Manara

– Mimosa boca errante

Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.
Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?
Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.
Já sei a eternidade: é puro orgasmo.

– Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
de magnificar meu membro.
Sem que eu esperasse, ficaste de joelhos
em posição devota.
O que passou não é passado morto.
Para sempre e um dia
o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.
Hoje não estás nem sei onde estarás,
na total impossibilidade de gesto ou comunicação.
Não te vejo não te escuto não te aperto
mas tua boca está presente, adorando.
Adorando.
Nunca pensei ter entre as coxas um deus.

– Sob o chuveiro amar:

Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo — é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fonte?

– Sublime Puta

Ó tu, sublime puta encanecida,

que me negas favores dispensados
em rubros tempos, quando nossa vida
eram vagina e fálus entrançados,
agora que estás velha e teus pecados
no rosto se revelam, de saída,
agora te recolhes aos selados
desertos da virtude carcomida.
E eu queria tão pouco desses peitos,
da garupa e da bunda que sorria
em alva aparição no canto escuro
Queria teus encantos já desfeitos
re-sentir ao império do mais puro
tesão, e da mais breve fantasia.

– A castidade com que abria as coxas

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas
e tão estreita, como se alargava.
Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres
em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.
Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

– A lingua lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

 

– Sugar e ser sugado pelo amor

Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pleno
Que não pertence a mim nem te pertence
um gozo de fusão difusa transfusão
o lamber o chupar o ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.

– No corpo feminino, esse retiro

No corpo feminino, esse retiro
 a doce bunda – é ainda o que prefiro.
A ela, meu mais íntimo suspiro,
pois tanto mais a apalpo quanto a miro.
Que tanto mais a quero, se me firo
em unhas protestantes, e respiro
a brisa dos planetas, no seu giro
lento, violento… Então, se ponho e tiro
a mão em concha – a mão, sábio papiro,
iluminando o gozo, qual lampiro,
ou se, dessedentado, já me estiro,
me penso, me restauro, me confiro,
o sentimento da morte eis que o adquiro:
de rola, a bunda torna-se vampiro.

– A Bunda, que engraçada

A bunda, que engraçada.

Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai

pela frente do corpo. A bunda basta-se.

Existe algo mais? Talvez os seios.

Ora – murmura a bunda – esses garotos

ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas

em rotundo meneio. Anda por si

na cadência mimosa, no milagre

de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte

Por conta própria. E ama.

Na cama agita-se. Montanhas

Avolumam-se, descem. Ondas batendo

Numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz

Na carícia de ser e balançar.

Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,

Redunda.

Vejam também:

– A poesia do Marinheiro

– Paz no Futebol

 

 

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Sem medo do erotismo

Porque é que é só alguém tirar a roupa para todos escandarem que é pornografia? Zarpante vem mostrar que erotismo também é arte!

– Começamos com algumas aquarelas e nanquins da artista plástica Ana Verana:

– Em seguida vamos mostrar os trabalhos sensuais de dois fotógrafos franceses:

o primeiro é André Chabot e se define como “especialista em cemitérios e arte fúnebre”.

O segundo é o defunto jean francois jonvelle.

Galeria logo abaixo.

– Para quem insiste em dizer que erotismo não pode ser arte, e que o lugar desses artistas é no “underground”, vejam a seguir dois artistas brasileiros que já expuseram obras eróticas em grandes museus e galerias.

Sempre expondo entre Nova Iorque, Londres, e outras capitais mundiais, os brasileiros Kazuo-Okubo e Fernando Carpaneda não tem medo do erotismo!

Afinal, como diria o poeta Carlos Drummond de Andrade:

“A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.”

Para quem gostou, tem mais:

– Arte corporal

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Parabéns à cidade maravilhosa

Fundada por Estácio de Sá em 1º de março de 1565, o Rio de Janeiro completa 448 anos em 2013!

Zarpante não podia deixar de lembrar esta data e o presente é para vocês leitores! Vejam a seguir algumas músicas, algumas obras, e um belo poema em homenagem  ao Rio de Janeiro!

Algumas músicas:

 Poema:

Rio em flor de janeiro ( Carlos Drummond de Andrade)

A gente passa, a gente olha, a gente pára
e se extasia.
Que aconteceu com esta cidade
da noite para o dia?
O Rio de Janeiro virou flor
nas praças, nos jardins dos edifícios,
no Parque do Flamengo nem se fala:
é flor é flor é flor,
uma soberba flor por sobre todas,
e a ela rendo meu tributo apaixonado.

Pergunto o nome, ninguém sabe. Quem responde
é Baby Vignoli, é Léa Távora.
(Homem nenhum sabe nomes vegetais,
porém mulher se liga à natureza
em raízes, semente, fruto e ninho.)

Iúca! Iúca, meu amor deste verão
que melhor se chamara primavera.
Yucca gloriosa, mexicana
dádiva aos canteiros cariocas.
Em toda parte a vejo. Em Botafogo,
Tijuca, Centro, Ipanema, Paquetá,
a ostentar panículas de pérola,
eretos lampadários, urnas santas,
de majestade simples. Tão rainha,
deixa-se florir no alto, coroando
folhas pontiagudas e pungentes.
A gente olha, a gente estaca
e logo uma porção de nomes populares
brota da ignorância de nós todos.
Essa gorda baiana me sorri:
– Círio de Nossa Senhora… (ou de Iemanjá?)
– Vela de pureza, outra acrescenta.
– Lanceta é que se chama. – Não, baioneta.
– Baioneta espanhola, não sabia?
E a flor, que era anônima em sua glória,
toda se entreflora de etiquetas.

Deixemo-la reinar. Sua presença
é mel e pão de sonho para os olhos.
Não esqueçamos, gente, os flamboyants
que em toda sua pompa se engalanam
aqui, ali, no Rio flóreo.
Nem a dourada acácia,
nem a mimosa nívea ou rósea espirradeira,
esse adágio lilás do manacá,
esse luxo do ipê que nem-te-conto,
mais a vermelha aparição
dos brincos-de-princesa nos jardins
onde a banida cor volta a imperar.

Isto é janeiro e é Rio de Janeiro
janeiramente flor por todo lado.
Você já viu? Você já reparou?
Andou mais devagar para curtir
essa inefável fonte de prazer:
a forma organizada
rigorosa
esculpintura da natureza em festa, puro agrado
da Terra para os homens e mulheres
que faz do mundo obra de arte
total universal, para quem sabe
(e é tão simples)
ver?

Artes plásticas:

Favela no Rio de Janeiro

Favela no Rio de Janeiro

Rio-de-Janeiro-1923-Tarsila-do-Amaral

Rio-de-Janeiro-1923-Tarsila-do-Amaral

Confira também a programação prevista para quem estiver na cidade!

9h – Apresentação da Banda da Sarca e de personagens infantis pelas ruas do Centro;

11h – Apresentação da Banda Marcial Dragões Iguaçuanos do Colégio Novo Horizonte;

12h – Chegada da imagem peregrina de São Sebastião conduzida pelo Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta;

13h – Corte do bolo de 44,8 metros pelo prefeito Eduardo Paes e homenageados;

14h – Banda do Cordão da Bola Preta;

16h – Baile popular com a Orquestra Bianchini.

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Zarpante e Carlos Drummond de Andrade

Quantos sites de financiamento coletivo vocês conhecem que tenham um de seus fundadores que seja familiar de um dos maiores mestres da poesia brasileira?

Statue of brazilian poet Carlos Drummond de An...

Statue of brazilian poet Carlos Drummond de Andrade, in front of Associação Cultural in Itabira, Minas Gerais, where he was born. Detail. (Photo credit: Wikipedia)

Pois é, além de ser o único site de financiamento coletivo dedicado a projetos criativos e sociais lusófonos, Zarpante tem também o orgulho de ter como um de seus fundadores,  Henrique Moretzsohn de Andrade, um familiar de Carlos Drummond de Andrade…

Quantos sites brasileiros ou portugueses podem dizer isto?

Agora que vocês já sabem, que tal degustar um poema do mestre?

Em face dos últimos acontecimentos – Carlos Drummond de Andrade

Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
Que o nosso avô português?

Oh ! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros,
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.

A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).

Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
Fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados
que o melhor é ser pornográfico.

Propõe isso a teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?

– O Carnaval visto por Carlos Drummond de Andrade.

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Poesias de Carnaval

O Carnaval passou e o mundo não acabou!

Aproveitando a volta ao normal pós-carnavalesca, que tal ler alguns poemas do mestre Carlos Drummond de Andrade sobre o assunto? Porque, afinal, existe, sim, cultura em torno do Carnaval: basta procurar…

Drummond

Drummond

O outro carnaval – Carlos Drummond de Andrade

Fantasia,
que é fantasia, por favor?
Roupa-estardalhaço, maquilagem-loucura?
Ou antes, e principalmente,
brinquedo sigiloso, tão íntimo,
tão do meu sangue e nervos e eu oculto em mim,
que ninguém percebe, e todos os dias
exibo na passarela sem espectadores?

Um homem e seu carnaval – Carlos Drummond de Andrade

Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.

O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.

Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.

Vejam também:

– Seleção musical para seu carnaval!

– Do mesmo poeta.

– Podcast Zarpante em homenagem ao Vinicius de Moraes!

– Poesias contra o fascismo.

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Que venha 2013!

Zarpante deseja um ótimo ano novo a todos os nossos amigos, parceiros e leitores!

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O que importa não é a virada, e nem como passaremos essa noite, mas sim o que iremos fazer realmente para ter um ano melhor que o que passou!

Vejam abaixo um poema de Carlos Drummond De Andrade sobre o tema:

Receita de Ano Novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Texto extraído do “Jornal do Brasil”, Dezembro/1997.

 

 

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Boas festas

Zarpante deseja a todos um feliz natal e um próspero ano novo!

Nossos votos para todos os amigos e parceiros!

Nossos votos para todos os amigos e parceiros!

Aproveite para entrar em nosso site e ajudar o projeto Tarrafal – um Campo em Morte Lenta. 

Um projeto sério que vai ajudar a preservar uma parte tão esquecida da história de Cabo Verde!

Tanto o projeto quanto Zarpante precisam realmente de sua ajuda! Natal é época de solidariedade: vamos incentivar a produção artística e cultural de nossos países! Entre no link acima e contribua com o que puder. Sua participação faz toda a diferença!

Que tal agora algumas músicas para o Natal? Tem para todos os gostos:

E para quem goste de ler:

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE – Os Animais do Presépio

Salve, reino animal:
todo o peso celeste
suportas no teu ermo.
Toda a carga terrestre
Carregas como se
fosse feita de vento.
Teus cascos lacerados
na lixa do caminho
e tuas cartilagens
e teu rude focinho
e tua cauda zonza,
teu pelo matizado,
tua escama furtiva
as cores com que iludes
teu negrume geral,
teu vôo limitado,
teu rastro melancólico,
tua pobre verônica
em mim, que nem pastor
soube ser, ou serei,
se incorporam num sopro.
Para tocar o extremo
de minha natureza,
limito-me: sou burro.
Para trazer ao feno
o senso da escultura,
concentro-me: sou burro.
A vária condição
por onde se atropela
essa ânsia de explicar-me
agora se apascenta
à sombra do galpão
neste sinal: sou anjo.

MÁRIO QUINTANA – Poesia de Natal

“Nossa senhora
Na beira do rio
Lavando os paninhos
Do bento filhinho…
São João estendia,
São José enxugava
e a criança chorava
do frio que fazia
Dorme criança
dorme meu amor
que a faca que corta
dá talho sem do”
(de uma cantiga de ninar)
Tudo tão vago…Sei que havia um rio…
Um choro aflito…Alguém cantou, no entanto…
E ao monótono embalo do acalanto
O choro pouco a pouco se extinguiu…
O menino dormira…Mas o canto
Natural como as águas prosseguiu…
E ia purificando como um rio
Meu coração que enegrecera tanto…
E era a voz que eu ouvi em pequenino…
E era Maria junto à correnteza,
Lavando as roupas de Jesus Menino…
Eras tu…que ao me ver neste abandono
Daí do céu cantavas com certeza
Para embalar inda uma vez meu sono!…

VINICIUS DE MORAES – Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO – Natal

Natal é uma época difícil para cronistas. 
Eles não podem ignorar a data e ao mesmo tempo 
não há mais maneiras originais de tratar do assunto.
Os cronistas, principalmente os que estão no métier há tanto tempo, que ainda usam a palavra métier – já fizeram tudo que havia para fazer com o Natal. Já recontaram a história do nascimento de Jesus de todas as formas: versão moderna (Maria tem o bebê numa fila do SUS), versão coloquial (“Pô, cara, aí Herodes radicalizou e mandou apagá as pinta recém-nascida, baita mauca”), versão socialmente relevante (os três reis magos são detidos pela polícia a caminho da manjedoura, mas só o negro precisa explicar o que tem no saco) versão on-line (jotace@salvad.com.bel conta sua vida num chat sitc), etc.
Papai Noel, então, nem se fala. Eu mesmo já escrevi a história do casal moderno que flagra o Papai Noel deixando presentes sob a árvore de Natal, corre com o Papai Noel e não conta nada da sua visita para o filho porque querem criá-lo sem qualquer tipo de superstição várias vezes.
Poucos cronistas estão inocentes de inventar cartas fictícias com pedidos para o Papai Noel: patéticas (paz para o mundo, bom senso para os governantes), políticas (“Só mais um mandato e eu juro que acerto, ass. Fernando”) ou práticas (“Algo novo para escrever sobre o Natal, por amor de Deus!”).
Já fomos sentimentais, já fomos amargos, já fomos sarcásticos e blasfemos, já fomos simples, já fomos pretensiosos – não há mais nada a escrever sobre o Natal! Espera um pouquinho. Tive uma idéia. Uma reunião de noéis! Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel. Acho que sai alguma coisa.
Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel estão reunidos… onde? Na mesa de um bar? Papai Noel não freqüenta bares para não dar mau exemplo. Pelo menos não com a roupa de trabalho. No Pólo Norte? Noel Coward, acostumado com o inverno de Londres, talvez agüentasse, mas Noel Rosa congelaria. Não interessa onde é o encontro. Uma das primeiras lições da crônica é: não especifica. Noel Rosa, Noel Coward e Papai Noel estão reunidos em algum lugar. Os três conversam. Noel Rosa – Ahm… Sim… Hmm…
Noel Rosa diz o quê?
Noel Rosa – E então?
Noel Coward e Papai Noel se entreolham. Papai Noel cofia a barba. Ninguém sabe, exatamente, o que é “cofiar”, mas é o que Papai Noel faz, enquanto Noel Coward olha em volta com evidente desgosto por estar em algum lugar. Preferia estar em outro. A todas essas eu penso em alguma coisa para eles dizerem.
Noel Rosa (tentando de novo) – E aí?
Papai Noel – Aqui, na luta.
Noel Coward – What?
Esquece. Não há mais nada a escrever sobre o Natal.
Salvo isto, se dão vênia: que seu Natal em nada lembre o da Chechênia.
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Mais uma farofa lusófona!

Continuando a saga das farofas de língua portuguesa, eis a nossa segunda receita! Misture uma dose de Carlos Drummond  De Andrade com uma pitada de Clarice Lispector, adicione um pouco de Tom Zé picadinho e uma colher de Vulgo Fanho com seu som periférico. Esquente tudo com em uma frigideira com palavras de Jorge Humberto e tempere com Rodrigo Costa Félix a gosto! Agora basta saborear!

Quadrilha. De Carlos Drummond De Andrade.
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Sinto Saudades…
Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades…
Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei…
Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser…
Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro…
Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser…
Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.
Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!
Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!
Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!
Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.
Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências…
Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!
Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!
Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,
Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.
Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que…
não sei onde…
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi…
Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês…
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.
Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados…
para contar dinheiro… fazer amor…
declarar sentimentos fortes…
seja lá em que lugar do mundo estejamos.
Eu acredito que um simples
“I miss you”
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.
Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.
E é por isso que eu tenho mais saudades…
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.
Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência…
Clarice Lispector

Clique no link abaixo para baixar um podcast muito legal sobre Tom Zé!

http://brnuggets.blogspot.fr/2012/05/para-quem-perdeu-segue-para-download-o.html

 

‘Mindel nha bêrce, nha terra mãe’, de Jorge Humberto

Mindel nha bêrce nha terra mãe
Spêra dxame bêm sabê dêss dor
Dor d’quem mi ê
E sodad d’quem nunca m’ fui
Carrêgàme el sima Crist carrêga cruz

Na simplicidad dum criatura
Mi ê mais um nêss univêrse grande e infinito

Dum jota grande tra um jutinha
Mi d’criancinha
Na variêdad scrivid nha nome
Pa nha fantasia

Mindel nha bêrce nha terra mãe
Dzêm na mund casta d’dor ê êss
Dor d’quem mi ê
E sodad d’quem nunca m’fui
Carrêgàme el sima Crist carrêga cruz

 

Dum cara grande tra um carinha
Mi d’criancinha
Na variêdad sô scrivid nha nome
Pa nha fantasia

Mas enquanto terra for terra
M’ta sabê tambê paga nha dor
Paga nha dor, paga nha dor

Jorge Humberto

 

 

 

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