Para ouvidos curiosos

Este artigo é para quem tem ouvidos, como os nossos, sempre a procura de novidades!

Para começar, Adnet visita a floresta de sons de Jobim e Villa-Lobos no CD ‘Amazônia’

Em um registro completamente diferente, continuamos com Baiana System:

“Inspirados pelo bandolim elétrico, Dodô e Osmar deram vida, na década de 40, a guitarra baiana. Mais de 70 anos depois, damos de cara e de ouvidos com o “Baiana System”, uma banda de dub-experimental-latino que mistura o que tem de mais tradicional na Bahia com o que existe de mais contemporâneo na música.

As influências passeiam pelas culturas brasileira, africana e jamaicana. Mas, acima de qualquer coisa, é música urbana: “Eu não gosto da ideia de resgate, porque referencia o passado. A guitarrinha precisa dialogar com o que está se produzindo hoje”, justifica Robertinho Barreto – o idealizador do projeto.

É ele quem comanda as cordas e, ao lado das bases trabalhadas e mixadas do DJ João Meirelles, faz nascer uma infinidade de possibilidades de improviso para os ritmos do sound system’s e para o vocal de Russo Passapusso. No baixo, o produtor do disco Marcelo Seco e, para trazer todas as lembranças da Bahia, o percussionista Wilton Batata.

Para reforçar as referências às manifestações populares da terra de Caymmi e Jorge Amado, como o Carnaval e as demais festas tradicionais baianas, Filipe Cartaxo ficou encarregado pelos grafismos que “cantam” a cidade e suas nuances cotidianas. E para florear ainda mais, o disco conta com a participação de Chico Corrêa, Lucas Santtana, Gerônimo, Roberto Mendes, Buguinha Dub e o mais constante parceiro do grupo, BNegão.

Fonte: Catraca Livre

Para terminar vamos de Yuri da Cunha:

Yuri da Cunha. O choro do semba que virou alegria

“A ligação à música era quase inevitável. É como se o destino fosse assim uma coisa escrita e certa, infalível e cheia de personalidade. Não é, mas como a excepção confirma a regra, então o Yuri da Cunha estava destinado a ser uma figura do universo musical.

O seu trajecto iniciou-se ainda na infância enquanto assistia aos ensaios do conjunto “Os Kwanzas”, onde o seu pai, Henrique da Cunha “Riquito”, era guitarrista. Mais tarde em Luanda, no bairro Rocha Pinto, em companhia dos seus primos e irmãos foi aperfeiçoando técnicas de voz e interpretação com o professor Manuel Costa “Makanha”.

Yuri da Cunha confirma a influência do contexto familiar. “Eu era pequeno e o meu pai levava-me aos concertos que eles faziam. Então desde essa altura comecei a perceber que gostava daquilo e foi por causa da ilusão, ou amor, que ganhei naquela altura com o meu pai, os amigos e o apoio da minha mãe e das minhas avós, que me tornei um pouco do que sou hoje”, recorda.

E deixa também uma revelação. A força do semba entrou na vida do artista… à força. Na força da obrigação familiar. “Nós (eu e os meus irmãos) éramos obrigados a ouvir o semba em casa. De outra forma ninguém ouvia música! Ou o semba ou o silêncio. Então hoje eu agradeço pelo que me fazia chorar naquela altura”.

Parece ter sido uma coisa meio paternalista, aquele conselho do mais-velho que termina sempre com um encolher de ombros juvenil, e com um adágio simples mas mais real do que o sol. “Um dia vais-te lembrar daquilo que estou a dizer”. É clássico. Mas o amor ficou. O semba é um caso de amor.

“Como disse atrás nós éramos obrigados a ouvir o semba. Então ficou o hábito”, reafirma o cantor. Hoje tem orgulho em dizer que foi “educado a gostar de semba”, frisa Yuri da Cunha, enquanto lembra o momento em que percebeu que a sua vida na música seria feita em comunhão de bens com um estilo que diz muito no coração dos angolanos. “Daí em diante comecei a trabalhar em volta disso e fui pegando as minhas maiores influências musicais que são ainda hoje Bonga, Artur Nunes, David Zé, Teta Lando, Carlos Burity e André Mingas e um pouco depois Bangão, Lulas da Paixão e hoje Paulo Flores. Muitos artistas né? (risos)”.

Yuri decidiu então juntar todas as referências, que acabaram por formar aquilo que chama “uma aquarela musical”. É nesta aquarela, neste conjunto de cores que identificam diferentes gerações de um país, que ousou se juntar aos estilistas angolanos Tekassala e Shunozz para criar um estilo de roupa para usar nas apresentações públicas.

“É desta conexão criativa que vem a ideia da roupa colorida. Como o semba era considerado a música dos kotas, e que não ficava bem aos jovens, eu quis contrariar a ideia – então juntei a dança moderna de Angola, que é o kuduro, e danças oriundas do Congo Democrático. Como sempre fui fã do Michael Jackson resolvi acrescentar algumas coisas do rei do Pop na área da dança”, explica.

A mistura, diga-se em abono da verdade, chega a ser explosiva. É quase impossível ignorar a força do ritmo batido de um semba-kuduro-com-congo-democrático-e-Michael-Jackson. Será também uma singularidade e um factor de distinção no cenário da “world music” – se quisermos fugir um pouco ao consumo interno.

Em 1994, Yuri da Cunha inscreve-se nos concursos de música infantil da Rádio Nacional de Angola (RNA) onde se destacou com a canção “Amigo”, da autoria do professor “Makanha”, tendo vencido o prémio de melhor canção infantil.

Divertido e bem-humorado, o cantor angolano destaca que “o princípio foi muito difícil”. “Era insultado, chamado de palhaço – que hoje acho que sou um pouco; comecei a reparar nisso com a ajuda do Paulo flores. Era chamado de provinciano (risos). Mas a intenção e a minha perspectiva era maior do que qualquer insulto. Acreditava que o semba não era música de velhos e que eu tinha uma missão a cumprir. Foram várias as vezes que chorei mas sabia que sorriria mais adiante”, assume sem titubear.

Esse sorriso aumentou na medida do reconhecimento nacional e internacional. A força do talento ajudou o crescimento daquele que é, hoje em dia, considerado o estilo musical angolano mais respeitado em todo o mundo. “Pode, eventualmente, não ser o mais ouvido”, continua, mas “é o mais respeitado – e ver jovens a falar e até a cantar o semba com emoção é uma grande alegria”.

Em 1996, seguiu para Lisboa (Portugal), onde gravou o seu primeiro trabalho discográfico intitulado “É tudo Amor”, nos estúdios da produtora Valentim de Carvalho. Nesse ano arrebatou o prémio da Rádio Televisão Portuguesa (RTP) para o melhor vídeoclip e de melhor música do ano dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) na Holanda. O lançamento do seu segundo disco intitulado “Eu”, em Janeiro de 2005, permitiu-lhe confirmar o sucesso de temas que o colocaram na ribalta.

No disco “Eu”, Yuri da Cunha apresenta treze temas em estilos como o semba, rumba e kizomba, cantados em português e kimbundo, dos quais as músicas “Homem é bom”,” Njila”,” Simão”, “Kalundu” e “Está doer” foram grandes sucessos na rádio e discotecas, atingindo vendas muito significativas. “Eu” venceu o “Top Rádio Luanda 2006” nas categorias de disco do ano, melhor produção discográfica , melhor semba e melhor kizomba 2006 e ficou em segundo lugar no Top dos Mais Queridos realizado pela Rádio Nacional de Angola.

Nos últimos anos começou o assalto, no bom sentido, aos ouvidos internacionais. Eros Ramazzoti, o famoso romântico italiano não ficou indiferente. E convidou-o para participar na sua digressão mundial, em 2009. Também nessa altura assinou um acordo com a Sony Music para a comercialização e divulgação da sua música. Em Portugal, encheu salas históricas como o Coliseu dos Recreios e o Campo Pequeno, em Lisboa.

O que recorda com mais saudades destas apresentações? – perguntámos. “O carinho de cada momento que aquela gente me dá com a sua presença, a vibração de todo o público e o facto de eu perceber, quando estou em palco, que aquela gente gosta de mim”.

Também ganhou reconhecimento no Brasil, um país irmão que tem grande consideração pelos ritmos agitados, pela dança e pela alegria da vida. Uma descrição que, mesmo contra alguns cépticos (e ressalvando as naturais distâncias), assenta bem no povo angolano. O cantor já participou por diversas vezes no Carnaval da Bahia onde actuou com artistas locais. Yuri da Cunha recorda esses momentos com afecto.

“Para mim, tocar na Bahia é estar perto de gente que eu gosto. E que há muitos anos tem uma ligação cultural com Angola muito forte. Eles vibram com aquilo que sai de Angola. Não saberei dizer porque os outros artistas angolanos se sentem à vontade lá mas eu sinto-me super bem. Cada vez mais. Também porque fiz amigos maravilhosos como a Daniela Mercury, o pessoal do Olodum, entre outros”.

“Kuma Kwa Kie”, o terceiro e último disco de Yuri da Cunha (o próximo será lançado ainda durante 2012, em princípio), comporta 13 músicas, gravadas em Angola, Portugal e França. O álbum contou com a participação inédita do falecido músico Man-Ré e de Gabriel Tchiema. Na produção, contou com a colaboração de Carlitos Chiemba, Lito Graça, Quintino, Heavy C, Hélio Cruz e Pitchou, e conta com temas na linha melódica do semba, kizomba e kintuene numa grande fusão musical. “Kuma Kwa Kié “ tornou-se rapidamente num dos álbuns mais comercializados em Angola, tendo vendido mais de vinte mil cópias num só dia. Foi, de facto, um enorme sucesso que ainda hoje agita facilmente as pistas de dança.

Por outro lado, o artista nunca escondeu o seu gosto pelo kuduro. É verdade que as características deste estilo musical angolano assentam bem na imagem de Yuri da Cunha. Fazem um bom casamento. Mas ele foi mais adiante – tem sido um grande divulgador da juventude.

“Sou angolano”, começa por dizer, “por isso” se sentir que pode contribuir em algo que venha a beneficiar o pais então vai fazê-lo. “A atracção pelo kuduro está na forma como a malta recria o estilo e como contagia quem o ouve. Só acho que pela dinâmica que tem, o espaço que ganhou deve ser mais musical: para que músicos e pessoas com outra instrução musical possam também gostar do kuduro como eu gosto. Acho que é chegado o momento de parar e usar a ciência musical junto deste estilo para que não sejamos vistos simplesmente como animadores de um conteúdo percussivo”, reconhece.

Ganhando cada vez mais maturidade e experiência internacional, Yuri da Cunha participou no Festival África Day, em Joanesburgo (África do Sul), onde foi considerado um dos melhores momentos do evento, tendo até merecido honras de capa no jornal sul-africano City Press.”

Artigo publicado na Revista Austral.

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