Entrevista com Aleh Ferreira

O músico brasileiro Aleh Ferreira foi entrevistado por Zarpante! Além de ser um autentico mestre do swing, amigo e parceiro do site Zarpante e de seus integrantes, ele é um ser humano formidável!

A música que faz é tão cheia de energia, e tão atual, que as vezes até esquecemos que o artista já leva uma certa bagagem nas costas e teve por exemplo a felicidade de integrar a mítica Banda Black Rio!

Aleh Ferreira / Foto: Gabriel Pedramarrom

 

A entrevista foi feita por email para agilizar o processo, mas as fotos que acompanham foram feitas em Paris, pelo fotógrafo brasileiro, Gabriel Pedramarrom!

Só resta degustar esta entrevista acompanhada pelas fotos especialmente feitas para a ocasião!

– Quem é Aleh Ferreira?

– “Não consigo vê-lo completo; só vejo as mãos (rsrs), só tenho palpites, mas é alguém que acorda todo dia sabendo que precisa melhorar, melhorar o quê? Ser uma pessoa melhor, fazer boas escolhas.

Ser uma pessoa melhor no que faz, aprender o “não” que liberta, se livrar do “sim” que vicia, perceber melhor o sentido da vida, quando ela fala alto ou sussurra, exercitar a paciência constantemente”

É uma infinidade de coisas que ele busca: saber terminar e sempre recomeçar.

– Quando e porque começou a fazer música?

-“A música me capturou. Embora não tenha nenhum músico na minha família, se ouvia muita música brasileira, e de tudo mais, nos anos 70, quando ainda era um menino.

Das velhas canções românticas, da era do rádio ao Tropicalismo, e ao soul dos anos 70, de James Brown, Stevie Wonder,Tim Maia e Michael Jackson. Do baião de Luiz Gonzaga à bossa nova de João Gilberto e Tom Jobim. Dos sambas inspirados de Cartola e Paulinho da Viola à diversidade melódica e genialidade metafórica das letras de Chico Buarque, Luiz Melodia, Jards Macalé, Gilberto Gil e Caetano Veloso, Gonzaguinha e muitos outros.

Ganhei meu violão aos 13 anos, porque deram o meu cão de estimação, pois íamos morar num apartamento. Fui aprendendo com os discos, autodidata mesmo. Mas, ao frequentar o ensino médio, eu não vislumbrava a música como carreira. Pensava em ser psicólogo, arquiteto, sociólogo. Pensei finalmente em cursar comunicação, na área de cinema. Foi quando eu percebi que já tava trabalhando como músico, pra pagar as minhas despesas básicas.Tocava na madruga e trabalhava no mesmo curso em que eu estudava, como “bolsista”. Dormia pouco, nestas idas e vindas, e não conseguia me preparar bem pra enfrentar uma federal, que era privilégio de poucos, na época.

Ao mesmo tempo que comecei a entrar no meio da música, comecei a me decepcionar com o academismo. Pensei até em cursar música, mas ouvia histórias sinistras, de alunos que eram suspensos da escola de música da UFRJ por tocarem Tom Jobim. Na época, não existia o curso de música popular, e quem fizesse música teria que cursar o erudito. Nada contra, mas já estava envolvido pelos primeiros ares da boêmia criativa carioca. Indo pra música popular, além de redescobrir e reinventar o Brasil em que eu acreditava, eu estava aprendendo sobre psicologia, sociologia, arquitetura, comunicação e cinema, através das obras e, num breve momento, com os boêmios inteligentes e bons de papo.”

– Quais são suas inspirações?

-“Estas que eu falei que ouvia, quando menino, e que ainda ouço até hoje, mas estou sempre atento a algo novo, a algo desconhecido. Isso me dá estímulos. Ver filmes e ler livros, também.”

– Samba preferido? Fado preferido? O que você escuta quando não está tocando?

-“Os sambas de Cartola, de Paulinho da Viola, de Zé Keti. Os fados que a Carminho canta, aquele do marinheiro é incrível (“Meu amor marinheiro”). Gosto muito do cd do Criolo. Sou fã mesmo. Ele teve uma boa sacada e é um exemplo único e contemporâneo de quem chegou ao “mainstream” brasileiro pelo talento. Tô voltando a ouvir soul-funk. Tenho apego a tudo que mescle a tradição e a modernidade.

Normalmente escuto o que pede o meu estado de espírito. Assim, tem dias em que a minha cabeça não quer ouvir nada, quer ouvir a matéria prima da música, sabe? O mistério do silêncio, que não é silêncio nenhum, é denso e fluente. Fico relaxado e, acompanhando esses sons da natureza original, normalmente vem uma música.

Onde eu moro é bom fazer isto, pois ouvem-se crianças, um carro distante, o vento, pássaros, uma música trazida pelo vento e distorcida, que você ouve em outro tempo.”

Aleh Ferreira / Foto de Gabriel Pedramarrom

– Como define seu estilo musical?

-“MPBSOULSAMBAGROOVE: esse foi o nome do meu primeiro cd solo, o que tem ‘Dona da banca”, e eu escolhi este nome, porque as pessoas viviam me fazendo esta pergunta e eu tinha, e tenho ainda hoje, uma certa dificuldade de responder. A mesma dificuldade de me rotular e de o mercado e a indústria cultural entenderem o que eu quero, ou qual é o meu sabor.

Esses obstáculos me impulsionam na busca de música “boa”, ou seja, uma música que transcenda, que cause um estranhamento e, ao mesmo tempo, se sinta como familiar, peculiar. Uma música que seja com clichês ou com metáforas, ou que abuse em simbolismos, mas que mexa com o inconsciente coletivo.

Não sei se essa música precisa ser de um determinado estilo, mas busco essa música dentro e fora de mim.

Claro, tem algo constante, que é o “Swing”. Isso eu sei que vem no meu DNA. Herdei da minha mãe.

Minha música vem do berço da cultura afro-brasileira, com a influência das harmonias europeias, do samba-choro, dos empréstimos modais do Marvin Gaye e do Stevie Wonder, e muito tambor, enquanto dormia e o terreiro ressoava, trazendo as vibrações musicais milenares dos orixás.”

– Como é seu processo de criação? Como são as etapas?

-“Ouço aquele silêncio, vem uma melodia na cabeça, vou pro gravador, canto, pego o violão, toco, esqueço do mundo, enxergo as palavras do som, escrevo, e aí começa aquela dor, aquele limite a ser transposto, quando vejo, passou, que dor que nada, a música tá boa, ou tsk tsk ainda não, ou, caramba! Fui eu que fiz isto?

Foi assim com “O Sonhador”:

percebi que a música era boa, logo nos primeiros compassos, mas não estava pronta, era a canção que eu sonhava, quase que buarquiana. Então, senti uma responsa e ela ia saindo, e aquela dor, e aí, 30 minutos depois, lá estava ela pronta. É estranho falar assim, mas desta, modéstia à parte, eu gostei, mas não são todas as de que eu gosto assim.

Esse é o processo que eu prefiro. Tem outros processos: melodia pra letra pronta, escrever uma prosa, ir cantando e transformando em verso, e as músicas de encomenda, como Cyber cabaret pro longa-metragem “Elvis e Madonna.”

– Fale um pouco de sua relação com a Europa (suas ultimas vindas, suas próximas vindas, seu público e seus planos)?

-“Embora tenha um tempo na estrada, comecei as viagens para o exterior nos últimos dois anos. A primeira foi para a África do Sul, na Copa de 2010, com a Banda Black Rio. No mesmo ano, fui para a Inglaterra, a convite da Universidade de Oxford, para um show de encerramento de uma semana literária brasileira. Aproveitei e fiquei uns dias em Londres, fiz algumas Gigs, alguns amigos, e fui conhecer Paris e fazer um show informal na Cité Universitaire. Estas aparições me renderam um retorno seis meses depois, quando cantei num evento alternativo em Londres, o Makumba Fest, e fiz um show em Paris, no Studio de L’Ermitage. Ambos os eventos pra umas 300 pessoas. Passei também pelo Favela Chic, convidei a Thais Gullin pra dar uma canja. Conheci até o Chico Buarque.

Então, toda essa experiência já estava saindo do campo do superficial, e pensei: vou continuar este investimento no exterior, meu cd está sendo distribuído aqui na Europa, e tem este imenso circuito de festivais.

Então retornei em 2012, fiz várias Gigs em Londres. Planejo, inclusive, gravar um disco de afro-brazilian beat, com um músico produtor que conheci lá. Fiz o Summerset House Festival, no evento na Casa Brasil, no período dos Jogos Olímpicos. Retornei a Paris, pra mais um show no Favela Chic, fui à Dinamarca me apresentar lá no Brasil Tropicália, e finalizei cantando na primeira tournée européia, com a Banda Black Rio, na qual passamos por Paris (New Morning), Amsterdam (Paradiso) , Bélgica (Antuérpia) e Londres (Ronnie Scoot’s).

Minhas metas agora são chegar a Portugal e também fazer um disco pra Europa, gravado na Europa, com participações de artistas europeus.”

Aleh Ferreira / Foto: Gabriel Pedramarrom

– E no Brasil ?

-“Fazer o DVD Aleh+Samba e meu novo cd pra 2013.”

– Você nos apresentou o filme RIP, bem como o curta Remixofagia. Gostaríamos de conhecer seu ponto de vista sobre as novas formas de difusão musical e sobre os direitos autorais. Como isso influencia seu trabalho?

-“Quando gravei meu primeiro disco solo, a realidade da indústria era diferente da do meu primeiro cd, com o BANTUS. No momento em que eu consegui um sucesso, através da mídia alternativa, a indústria estava em crise, com o advento da digitalização: gravadoras fechando, muita gente sendo mandada embora. Esse era o cenário, e eu com um cd cheio de samples: Zé Keti, Cartola, Martinho da Vila. Eu e muitos músicos da época não tínhamos total noção do que acontecia. Muita gente sampleava a torto e a direito.

Estava na gravadora independente (Nikita), fui atrás das autorizações e consegui. Dona da Banca foi um sucesso, o cd não vendeu muito. Foi um paradoxo: mídia espontânea bombando, outros valores brotando.

Logo depois, o D2, pela Sony, fez o “À procura da batida perfeita”, cheio de samples, e um dos maiores sucessos de público e crítica na época.

Com o Remixofagia, eu percebi que, até aquele momento, o Brasil era muito democrático, no que diz respeito à propriedade intelectual. Isto porque está no cerne da nossa cultura a “antropofagia”. Comemos literalmente a carne dos europeus, durante uns 250 anos, no mínimo, até eles completarem o processo caótico de colonização, e isto deixa um rastro na nossa cultura, que se reflete, anos depois, na nossa criação. Devolvemos com originalidade o que vem de fora, como num movimento inverso, que
começou no Tropicalismo. Chamo esse movimento inverso de “Regorgitofagia”.

Os DJs dos anos noventa salvaram a crise criativa musical, resgatando levadas, produzindo, “loopeando” e “sampleando” direto, e aí veio o acid jazz. Redescobriram a Banda Black Rio em Londres e, no Brasil, o preço do vinil TIM MAIA RACIONAL, que era uma joia rara, subiu muito. Ouvi dizer que teve gente que pagou 1000 pratas nesse vinil.

Os anos noventa foram importantes, no sentido da valorização do retro. Foi o que segurou essa crise criativa musical, até as torres gêmeas caírem. Então vieram a digitalização e a explosão tecnológica, que deram informação pra quem não poderia comprar nunca. Mais informação, mais recursos, menos grana, pois a globalização não globaliza o capital e, quanto menos grana, mais criatividade e mais experiências e mais regurgitofagia, até chegarmos ao “mashup”. Muito interessante tudo isto.

Por um outro lado, o autor fica obrigado a se interpretar, pois a possibilidade de seus direitos fonomecânicos minguarem é crescente, e ele tem de ir pra estrada, pois vive de música e não pertence à elite da “alta cultura musical das capitais do capital”.

Me parece que, hoje em dia, no Brasil, já temos os primeiros sinais de vida deste mercadão. Mas isto ainda é pra poucos. Como disse o Rômulo Fróes. Nos últimos dez anos, o artista que pertencia à era do vinil corria em busca do sucesso, e o de hoje, o da era do download, foge do fracasso. Não vejo isto como pessimismo e sim como uma visão realista, pois a era do download não é romântica.”

– Qual é sua concepção da lusofonia? Curte sons de outros países de língua portuguesa? Poderia nos citar alguns exemplos?

-“Cesária Évora, Carminho. Paulo Flôres,Tcheka. Preciso conhecer mais. Me tornei um sócio colaborador de Zarpante, também com este intuito: difusão da cultura lusófona.”

– Você não acha que os artistas desses diferentes países deveriam co-produzir mais projetos juntos, mesmo estando geograficamente distantes?

-“O melhor a se fazer, neste momento “transcaótico” que passamos, são estas interações: esta é a melhor herança dos tempos globais. Nunca o homem reuniu, criou tantos recursos e ferramentas, pra que realmente haja uma evolução completa.

O momento é este, e os artistas, de todas as áreas, estão percebendo isto. Já circulam na rede esses ventos. Estar conectado não é ser mimetizado por esta tela, fazendo contatos virtuais apenas. Pra que a conexão se complete e seja verdadeira, é preciso ir até o contato, esteja onde estiver e, de preferência, de culturas diferentes. A lusofonia tem muito a dar neste aspecto.”

Aleh Ferreira / Foto: Gabriel Pedramarrom

 

 

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2 pensamentos sobre “Entrevista com Aleh Ferreira

  1. Belquiz disse:

    Nunca tinha lido uma entrevista dele, mas ” tirei o chapéu ” como dizem, ele é de uma inteligência impar. Deveria ser mais divulgada as entrevistas dele.Realmente, “ELE E O CARA” .Parabéns pela brilhante entrevista.

  2. carlos charcape disse:

    I do not understand the language, but the music is nice!

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