Tens medo?

1- Capicua (Portugal)

2- Branca Mourinho (1905-1968) (Angola)

Palmeira porque tens medo?

palmeira porque tens medo?
porque não podes dizer-me
o que a noite te contou?palmeira esguia, agitada,
de cabeleira rasgada
que o vento despenteou.é assim tão forte o segredo
Que a noite te foi dizer?

palmeira porque tens medo?
tens receio que eu o diga?

podes contar-me , que a noite
foi sempre minha amiga
desde que vivo a sonhar…

Maria Palmira de Moura Henriques Lobo das Neves nasceu em Vila Nova de Poiares, Coimbra.
Viveu na Huíla onde iniciou os estudos. Fixou-se em Benguela, vindo a falecer em 1968, em Portugal. Cultivou a poesia sob o pseudónimo de Branca Mourinho, editando vários livros entre os quais se destaca “Kalunga”.”Fonte
City hall, Vila Nova de Poiares, Portugal

City hall, Vila Nova de Poiares, Portugal (Photo credit: Wikipedia)

3- Cecilia Meireles ( Brasil)
Tu tens um medo.

Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo…
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos…
Enganados…
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor…
… E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

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