Mais uma farofa lusófona!

Continuando a saga das farofas de língua portuguesa, eis a nossa segunda receita! Misture uma dose de Carlos Drummond  De Andrade com uma pitada de Clarice Lispector, adicione um pouco de Tom Zé picadinho e uma colher de Vulgo Fanho com seu som periférico. Esquente tudo com em uma frigideira com palavras de Jorge Humberto e tempere com Rodrigo Costa Félix a gosto! Agora basta saborear!

Quadrilha. De Carlos Drummond De Andrade.
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Sinto Saudades…
Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades…
Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei…
Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser…
Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro…
Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser…
Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.
Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!
Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!
Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!
Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.
Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências…
Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!
Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!
Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,
Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.
Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que…
não sei onde…
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi…
Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês…
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.
Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados…
para contar dinheiro… fazer amor…
declarar sentimentos fortes…
seja lá em que lugar do mundo estejamos.
Eu acredito que um simples
“I miss you”
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.
Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.
E é por isso que eu tenho mais saudades…
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.
Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência…
Clarice Lispector

Clique no link abaixo para baixar um podcast muito legal sobre Tom Zé!

http://brnuggets.blogspot.fr/2012/05/para-quem-perdeu-segue-para-download-o.html

 

‘Mindel nha bêrce, nha terra mãe’, de Jorge Humberto

Mindel nha bêrce nha terra mãe
Spêra dxame bêm sabê dêss dor
Dor d’quem mi ê
E sodad d’quem nunca m’ fui
Carrêgàme el sima Crist carrêga cruz

Na simplicidad dum criatura
Mi ê mais um nêss univêrse grande e infinito

Dum jota grande tra um jutinha
Mi d’criancinha
Na variêdad scrivid nha nome
Pa nha fantasia

Mindel nha bêrce nha terra mãe
Dzêm na mund casta d’dor ê êss
Dor d’quem mi ê
E sodad d’quem nunca m’fui
Carrêgàme el sima Crist carrêga cruz

 

Dum cara grande tra um carinha
Mi d’criancinha
Na variêdad sô scrivid nha nome
Pa nha fantasia

Mas enquanto terra for terra
M’ta sabê tambê paga nha dor
Paga nha dor, paga nha dor

Jorge Humberto

 

 

 

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Um pensamento sobre “Mais uma farofa lusófona!

  1. LINDO, LINDO, LINDO, LINDO, ………..NAO TENHO PALAVRAS!

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